Quinta-Feira, 02/09/2010


 

   

Cientistas mostram como os hábitos de sono afetam o desempenho de estudantes

Valores da Qualidade de Sono de estudantes de medicina em três semestres. Note que quanto menor o valor, melhor a qualidade de sono. No segundo semestre, quando as aulas iniciavam mais tarde, os estudantes tinham melhor qualidade de sono.

O padrão de dormir pouco durante a semana e dormir muito nos fins de semana é conhecido como ´efeito sanfona`. Note que o ´efeito sanfona` é menor quando os alunos iniciam as aulas mais tarde (segundo semestre) e aumenta quando os alunos de medicina estão no curso profissionalizante, pois aqui os alunos já começam a trabalharem em esquemas de plantões nos hospitais.

O que é a pesquisa

O desempenho acadêmico de universitários, como os estudantes de medicina, é essencial para uma boa qualificação profissional. Isto leva esses alunos, que têm densa carga curricular, a complementar o curso em atividades extracurriculares, como estágios, pesquisas e plantões.

Entre os fatores que influenciam o desempenho, destacam-se os hábitos relativos ao sono, como sua duração e regularidade.

Há vários estudos sobre a privação de sono em médicos e a conseqüente queda do rendimento profissional. Esta privação se deve a horários de trabalho extensos e irregulares, como em hospitais.

A privação de sono é observada já na graduação e há indícios que este fato tem correlação significativa com a diminuição da performance acadêmica em estudantes de medicina.

Sabe-se que a sonolência relaciona-se a problemas de atenção, ao aumento do uso de substâncias estimulantes e, assim, ao prejuízo no desempenho acadêmico.

Além disso, observam-se piores performances entre estudantes cujos períodos de sono nos fins de semana são significativamente atrasados quando comparados com a semana.

Essa pesquisa objetiva investigar a influência dos horários de aula nos hábitos de sono. É um estudo com estudantes de medicina de três semestres com horários de início das aulas diferentes. Ela possibilita esclarecer alunos e professores sobre a importância do sono e formular estratégias para um melhor aproveitamento do curso.

Como é feita a pesquisa

A amostra é composta de 31 alunos de medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, todos com 20 a 22 anos de idade, cursando o 3º, 4º e 7º semestres do curso, sendo os dois primeiros do ciclo básico, e o último do ciclo profissional, quando os estudantes têm plantões e contato com doentes. As aulas do 3º e o 7º semestres começam às 07:00h e as do 4º, às 10:00h.

Os estudantes preencheram uma ficha de identificação e um questionário para avaliar a qualidade de sono, chamado Índice de Qualidade de Sono de Pittsburgh (IQSP), composto por 10 questões sobre hábitos de sono, com escala de escores de 0 a 20 pontos, sendo que escores acima de 5 indicam baixa qualidade de sono.

Os alunos do 3º e 4º semestres também preencheram um diário de sono durante duas semanas consecutivas (incluindo três fins de semana), no qual relataram os horários de início e fim do sono. A partir dos dados do diário, foi elaborado um índice de irregularidade do sono, obtido através do desvio-padrão do início do sono.

No 4o semestre foi usado um questionário de hábitos de sono, e como há forte correlação entre os dados do diário de sono e os do questionário de hábitos de sono, as médias de início e duração de sono do 7o semestre foram obtidas a partir do questionário.

O desempenho dos estudantes foi avaliado através das notas obtidas em uma avaliação curricular da disciplina de Microbiologia.

Foram usados gráficos para determinação da homogeneidade da amostra, e testes para procurar relações entre as variáveis quantitativas e qualitativas do sono com o desempenho acadêmico.

Os resultados mostram que o desempenho acadêmico é melhor nos estudantes cujo sono começa mais cedo, é mais regular e dura mais.

Nos semestre em que as aulas começam mais cedo, os estudantes dormem menos durante a semana, com pior qualidade de sono. Isso mostra o papel dos horários escolares nos hábitos de sono.

Verificando o efeito do horário do início das aulas, na comparação entre os ciclos básico e profissional, foram encontrados tanto atrasos, quanto aumentos da duração dos episódios de sono nos fins de semana. Esse padrão foi observado em 88,9% dos estudantes no 3º semestre, percentagem que caiu para 66,7% no 4º semestre, e voltou a se elevar no 7º, atingindo 93,5% dos estudantes.

A diferença de qualidade de sono entre os semestres em que as aulas iniciam às 07:00h e o semestre em que iniciam às 10:00h (4º) é significativa.

Importância da pesquisa

Os resultados que mostraram a relação entre padrão do sono e desempenho acadêmico confirmam dados da literatura, como pior performance acadêmica em alunos com menor duração e maior atraso no início do sono.

Outros trabalhos sugerem que o padrão do sono também influencia a capacidade de se manter alerta e de tomar decisões, entre outras performances cognitivas

O padrão de aumento da duração de sono durante o fim de semana em relação à semana é denominado “efeito sanfona” e constitui forte indício de privação parcial de sono, já que os estudantes, não dormindo o suficiente durante a semana, tentam recuperar seu sono quando não precisam acordar cedo.

Quando as aulas iniciam mais cedo, os estudantes apresentam menor duração de sono e efeito sanfona mais intenso. No semestre em que as aulas começam às 10:00h, observa-se maior duração de sono e diminuição do efeito sanfona.

A comparação entre resultados de qualidade de sono (IQSP) do 4º semestre com os o 3º e 7° semestres, mostra que o horário de início das aulas também é importante para a qualidade do sono.

Mas o pior índice de qualidade no 7º semestre é provavelmente explicado pelos plantões e também pelo estresse a que o estudante é submetido ao entrar em contato com o paciente, a doença e a morte.

A comunidade científica discute cada vez mais a importância do sono e de sua qualidade, já que sua alteração pode trazer diversas repercussões clínicas e comportamentais.

Há concordância que a privação de sono, tanto aguda como crônica, produz efeitos neurofisiológicos, como diminuição do nível de vigilância e desregulação autonômica; efeitos sobre o desempenho, principalmente nas tarefas que requerem atenção e concentração; efeitos psicológicos, como aumento na incidência de irritabilidade, bem como, de condutas anti-sociais.

Outros trabalhos indicam que a consolidação da memória ocorre durante o sono e há evidências de que o processo de aprendizagem é sensível à perda do sono REM (sigla de Rapid Eye Movement, ou Movimento Rápido dos Olhos que indica a ocorrência de sonhos).

Esse trabalho, por avaliar os estudantes em diferentes fases do curso, possibilita a análise dos efeitos de variáveis como plantões e horários de início das aulas, no padrão do sono e no desempenho dos sujeitos.

Capacitar estudantes e profissionais médicos a identificar possíveis causas de distúrbios do sono, neles e nos pacientes, é importante porque possibilita melhores rendimentos acadêmicos e profissionais.

Uma forma de melhorar a qualidade do sono e evitar distúrbios associados é através de uma boa higiene do sono. No caso dos estudantes uma boa higiene do sono consistiria em horários regulares de início e fim do sono e numa duração adequada, além de uma melhor organização dos horários de estudo, evitando a prática comum de estudar na véspera das avaliações.

Texto de divulgação científica publicado em 29 de janeiro de 2003.

Pesquisador(es) Responsável(eis)
John Fontenele Araújo

Título do trabalho acadêmico
Hábitos de sono e desempenho em estudantes de medicina

Site do projeto
www.cb.ufrn.br/~araujo/

Instituição(ões)
Departamento de Fisiologia da UFRN

Fonte(s) Financiadora(s)
CNPq, CAPES, PPPg-UFRN

Sugestões de leitura
Livros

Como Vai o Seu Sono. Denis Martinez. AGE

O Sono Saudável. Gunther Lippler. Cultrix

Insônia - Tudo o que Você Precisa para uma Boa Noite de Sono - Inclui Cd - Chris Idzikowski. Globo

Sites

Sociedade Brasileira de Sono
www.sbsono.com.br

Sono.Com
www.sono.com.br

Sono OnLine
www.sono.med.br