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Chá verde na prevenção de danos causados por AVC

O que é a pesquisa?

Os acidentes vasculares cerebrais (AVCs) são caracterizados por uma alteração no fornecimento de sangue para o cérebro, podendo ser causados por isquemia ou hemorragia cerebral. A isquemia é a supressão do fornecimento de sangue para os tecidos cerebrais, causando uma queda no nível de glicose (açúcar) e oxigênio que provocam danos funcionais e estruturais. Já a hemorragia é devida à ruptura de vasos sanguíneos e extravasamento de sangue, o que desencadeia diversas respostas, tais como inflamação e morte celular, que danificam o órgão.

Os dois tipos de AVC afetam de maneiras distintas o cérebro, mas ambos trazem sequelas duradouras, tais como os déficits de memória de curto e de longo prazo, conforme observado em humanos e ratos. Uma das partes do encéfalo responsável pela aprendizagem e memória é o hipocampo. Essa região é altamente sensível ao estresse oxidativo que costuma acompanhar AVCs. Por isso, terapias com antioxidantes têm mostrado resultados positivos na recuperação do quadro pós-AVC, melhorando o desempenho da memória.

O chá-verde, derivado da planta Camellia sinensis, é barato e acessível a grande parte da população, possuindo alto conteúdo de flavonoides. O principal deles, a epigalocatequina-3-galato, possui efeito anti-inflamatório, antioxidante, anticancerígeno, antidiabético e anti-hipertensivo. Com base nessas propriedades, o Grupo de Pesquisa em Fisiologia da Universidade Federal do Pampa, liderado pela pesquisadora Pâmela Mello-Carpes, realizou uma pesquisa científica para testar os efeitos do consumo de chá-verde por um curto período na memória de ratos que sofreram AVC.

 

Como é feita a pesquisa?

A pesquisa foi realizada com 80 ratos, de modo a observar o efeito dos dois tipos de AVC no funcionamento da memória e como o consumo de chá verde ajudaria em sua manutenção. Os AVCs isquêmicos e hemorrágicos foram provocados por cirurgias em 20 cobaias cada um. Em cada um desses grupos, 10 receberam tratamento com chá verde por via oral, começando 10 dias antes até 6 dias após o procedimento cirúrgico, enquanto os demais não receberam tratamento. Para se certificar que o comportamento dos roedores era devido às consequências do AVC, e não apenas do ato cirúrgico, os pesquisadores realizaram cirurgias nos 40 ratos restantes sem provocar isquemia ou hemorragia (chamadas cirurgias-controle), e metade desse grupo também recebeu tratamento com o chá (Figura 1). Antes de se iniciarem os testes de memória, foi verificado se havia algum comprometimento motor ou neurológico nos animais que poderia prejudicar a avaliação da memória.

 

Figura 1 - Esquema representando os diferentes grupos experimentais usados na pesquisa. 
 

Para testar o desempenho da memória dos integrantes de cada um dos grupos, foi utilizado um comportamento comum dos roedores, que consiste em explorar objetos novos que são introduzidos em seu meio, geralmente através do toque ou olfato. Assim, após passarem pela cirurgia, os animais eram individualmente colocados em um ambiente com dois objetos desconhecidos por eles. O tempo gasto pelos indivíduos para examinar cada um foi medido. Como esperado, verificou-se que eles passavam cerca de 50% do tempo em contato com cada objeto. Posteriormente, os testes eram repetidos de maneira a testar as memórias de curto prazo (MCP) e de longo prazo (MLP). Para a MCP, os ratos eram retirados de seu ambiente e recolocados 3h depois, estando presentes um objeto já conhecido e um novo, desconhecido. Para a MLP, o mesmo processo era repetido, porém 24h depois, quando os animais novamente entravam em contato com um objeto novo e um familiar (Figura 2). Os tempos de interação com cada objeto foram medidos e analisados de acordo com o grupo ao qual pertencia o animal. Espera-se que no teste os animais gastem mais tempo explorando o objeto novo, dado o comportamento exploratório típico destes roedores.

 

Figura 2 - Respresentação dos testes de memória de curto prazo (MCP) e longo prazo (MLP). Inicialmente, os ratos são expostos a dois objetos, sendo deixados livres para explorá-los. Depois, são retirados do ambiente e, após 3h (no teste de MCP) e após 24h (no teste de MLP), são recolocados no mesmo ambiente, estando presentes um objeto novo e um que já havia sido visto anteriormente. 
 

O hipocampo dos ratos foi posteriormente analisado quanto à presença de espécies reativas de oxigênio (moléculas altamente reativas que contêm oxigênio) e danos causados por estresse oxidativo. Também foi medido o quanto o AVC e o tratamento com chá verde interferiam com a capacidade natural do cérebro de combater a oxidação. Todos os resultados dos diferentes grupos experimentais foram agrupados e analisados estatisticamente.

 

Qual a importância da pesquisa?

Os experimentos revelaram que os ratos submetidos às cirurgias-controle não apresentaram comprometimento motor ou neurológico. Nesse grupo, composto por 40 indivíduos no total, o teste de MCP mostrou que, após 3h, os animais exploravam mais de 50% do tempo os objetos novos, indicando que se lembravam do objeto familiar, já que com ele interagiram menos. Depois de 24h, no teste de MLP, os ratos também passaram mais de metade do tempo explorando o objeto novo, sinalizando a manutenção da memória.

Por outro lado, observou-se que os animais que sofreram AVC e não receberam chá verde interagiram metade do tempo com o objeto conhecido e metade com o objeto novo em ambos os testes de memória, indicando que não se recordavam dos objetos apresentados anteriormente. Entretanto, as cobaias que haviam iniciado o consumo de chá-verde apresentaram manutenção tanto da MCP quanto da MLP, pois interagiram mais com o objeto novo em todos os experimentos.

A análise do hipocampo, por sua vez, evidenciou que havia um aumento na quantidade de espécies reativas de oxigênio nos ratos que sofreram AVC, o que não aconteceu no grupo que passou pelas cirurgias-controle. O consumo de chá verde pelos ratos que sofreram AVC hemorrágico foi capaz de diminuir o dano causado por essas moléculas. O chá verde também ajudou a manter a capacidade do cérebro dos ratos em combater o estresse oxidativo causado pelo AVC isquêmico.

Os resultados do estudo forneceram evidências de que o AVC isquêmico e o hemorrágico causam prejuízos tanto na memória de curto prazo como na de longo prazo, no que diz respeito à capacidade de reconhecer objetos. Mais ainda, a pesquisa revelou que um breve tratamento com chá verde (iniciado 10 dias antes da cirurgia) foi capaz de prevenir déficits de memória relacionados ao AVC. Tal descoberta é importante, pois, como já mencionado, o chá verde é um método preventivo barato e de fácil acesso à população (foi usado um chá verde adquirido no comércio local). O chá foi capaz de evitar as sequelas cognitivas causadas pelos dois tipos de AVC (isquêmico e hemorrágico). O AVC isquêmico é um tipo de doença muito frequente que pode trazer grandes prejuízos na qualidade de vida das pessoas. Já o AVC hemorrágico, embora menos frequente, costuma trazer sequelas muito mais graves.

 

Publicado em 21 de julho de 2017.