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Os valores do parceiro influenciam a sua atratividade?

O que é a pesquisa?

A psicologia é a ciência que estuda os comportamentos. A psicologia evolucionista, por sua vez, é uma vertente que se ocupa em explicar fenômenos psicológicos tendo como base teórica a Teoria da Evolução de Charles Darwin. Assim, da mesma forma que adquirimos, devido à seleção natural, características físicas modernas (como a habilidade de andar eretos ou a visão de cores), também desenvolvemos caracteres psicológicos (como a habilidade de escrever ou de ter ciúme). Imagine o seguinte: indivíduos de uma espécie ancestral desenvolveram em seu cérebro, por meio de mutações gênicas, o comportamento de ter medo e fugir da cor vermelha. Se seu principal predador fosse vermelho, a resposta de escapar ao detectar essa cor talvez facilitasse a sobrevivência desses indivíduos, enquanto os outros seriam devorados pelo predador. É isso que chamamos de seleção natural: os indivíduos com a mutação gênica serão selecionados pelo ambiente e se tornarão mais frequentes na espécie com o passar das gerações. Milhares de anos depois, os indivíduos da espécie que evoluiu da ancestral possuirão pavor da cor vermelha, mas num contexto em que seu predador não existe mais. Parece algo distante de nossa realidade, mas pense no medo que alguns têm do escuro, ou de altura. Esses temores podem ter tido importância na evolução da nossa espécie, e ainda se mantêm nos dias de hoje.

Uma das questões que os pesquisadores dessa área tentam responder atualmente é: o que determina o tipo de pessoa que escolhemos para nos envolver em um relacionamento amoroso duradouro? Uma das respostas poderia ser o conjunto de valores do parceiro. Por exemplo, indivíduos guiados por certos valores, como sexualidade e prazer, podem estar mais propensos a cometer infidelidade. A infidelidade apresenta alto custo do ponto de vista reprodutivo. Para uma fêmea, significa que o seu parceiro a deixará sozinha para criar seus filhotes. Do ponto de vista do macho, um relacionamento com uma parceira sexualmente infiel traz incertezas quanto à legitimidade dos seus descendentes (ou seja, um pai poderia acabar criando filhos que biologicamente não são seus, gastando recursos à toa). Desta maneira, supõe-se que valores que facilitam o cometimento de infidelidade sejam considerados indesejáveis em um parceiro.

O pesquisador Guilherme Lopes e seus colaboradores, em uma cooperação da Universidade de Oakland, nos Estados Unidos, com a Universidade Federal do Ceará (UFC) e Universidade Federal da Paraíba (UFPB), testaram esta hipótese acerca dos valores envolvidos na escolha de parceiros. Segundo eles, é de se esperar que hábitos e valores que indiquem infidelidade sejam menos desejáveis para as pessoas. Uma conduta que pode ser capaz de sinalizar isso é a preferência por atividades de alto risco, o que inclui a busca por prazeres imediatos, aventuras novas e estimulantes experiências. Estudos anteriores ainda relacionam esse tipo de comportamento a uma maior probabilidade de cometer traição e até mesmo de adquirir alguns tipos de vícios.
 

Como é feita a pesquisa?

Antes de iniciar o estudo, os pesquisadores coletaram fotos, mediante alguns critérios, de perfis públicos do Facebook. Essas imagens, contendo apenas rostos, foram avaliadas por usuários da própria rede social quanto à sua atratividade. Os pesquisadores organizaram as fotos de acordo com as notas que receberam e escolheram as cinco mais e as cinco menos atraentes de cada sexo, resultando em 20 imagens ao todo.

Na etapa seguinte, foram veiculadas mensagens em grupos do Facebook convidando seus membros a participar do estudo. A pesquisa conseguiu 80 voluntários brasileiros, heterossexuais, com idades entre 17 e 48 anos. Cada participante visualizava, on-line, uma foto de pessoa do sexo oposto (dentre as 10 para cada sexo selecionadas na etapa anterior), à qual deveria dar uma nota de 1 a 6 de acordo com o quanto essa pessoa era desejável como parceiro(a) de um relacionamento de longo prazo. Algumas das fotos apresentadas eram acompanhadas (grupo experimental) ou não (grupo controle) da seguinte frase: “Rodrigo (Renata, caso fosse uma mulher) gosta de viver o momento e satisfazer todos os seus desejos. Ele(a) gosta de desafios e situações desconhecidas, e está sempre procurando aventuras arriscadas. Ele(a) precisa ter relações sexuais frequentes para sentir-se sexualmente satisfeito(a)”. Esta descrição se refere a um tipo particular de valores, conhecido no meio científico como “valores de experimentação”.

As notas que os participantes deram para as fotos com cada uma das características (homem/mulher; atraente/não atraente; com frase/sem frase) foram agrupadas e analisadas estatisticamente. O objetivo era verificar se a atratividade das pessoas das fotos e os valores relacionados a atividades arriscadas tinham influência nas opiniões dos participantes quanto à possibilidade de um relacionamento duradouro.

Qual a importância da pesquisa?

De acordo com os dados, os indivíduos homens atraentes retratados nas imagens se tornavam menos desejáveis quando demonstravam apoiar atitudes de risco, como as descritas nas frases. O mesmo não foi verificado para as mulheres nem para os homens pouco atraentes. Esses resultados concordam com pesquisas anteriores que verificaram que mulheres priorizam aspectos psicológicos a fisicos na hora de escolher um parceiro de longo prazo (por exemplo, valores humanos). Assim, como atitudes tais como a traição são indesejáveis, faz sentido as mulheres considerarem menos atrativo um parceiro cujos valores possam indicar infidelidade.

Embora os pesquisadores esperassem que mulheres que valorizassem comportamentos arriscados fossem percebidas como menos atraentes para os homens, isso não se verificou. Um dos motivos, retratado por trabalhos anteriores, é o de que homens priorizam características que indiquem fertilidade, tais como aparência física, mais do que traços psicológicos. Assim, determinados valores não seriam relevantes o bastante na avaliação dos homens para tornar uma mulher menos desejável, especialmente se ela for suficientemente atraente. Outra possível explicação para a diferença observada entre ambos os sexos seria a de que, estatisticamente, homens praticam mais traição do que mulheres. o que faz com que elas tendam a ser mais preocupadas com esse tipo de ação, de modo que valores que sugerem infidelidade têm um peso maior na avaliação das mulheres.

A pesquisa não conseguiu estabelecer nenhuma relação para as imagens de rostos menos atraentes. Durante a fase inicial do estudo, quando foram avaliadas as fotos de perfis públicos do Facebook, os pesquisadores selecionaram as cinco menos atraentes de cada sexo para participar da fase seguinte. Isto é, as fotos menos atraentes se encontravam no extremo mais baixo da distribuição de atratividade. Por isso, é possível que a aparência física tenha causado um impacto tão negativo nas notas dadas pelos participantes que os valores das pessoas retratadas não tiveram importância. Isto sugere que valores humanos podem alterar a atratividade das pessoas, mas a atratividade física parece ser um fator mais importante para ambos os sexos.

A pesquisa contribuiu para a investigação de quais fatores estão relacionados à seleção de parceiros. O estudo trouxe evidências de que os valores de um indivíduo influenciam a sua atratividade, e que o papel desses valores é diferente de acordo com o sexo. Isso não só contribui com evidências empíricas para a Teoria da Evolução aplicada à Psicologia, como também possui aplicações práticas, servindo, por exemplo, como parâmetro para terapias matrimoniais. Compreender melhor quais fatores psicológicos afetam nossa percepção do outro, e o modo como nos relacionamos com ele, podem ser úteis para resolver problemas enfrentados por casais.
 

Publicado em 18 de abril de 2017.