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História ambiental da Mata Atlântica nordestina

O que é a pesquisa?

A Mata Atlântica é o lar de um conjunto único de espécies raras, endêmicas e ameaçadas de extinção . Apesar de guardar rica diversidade biológica, esse bioma sofre com uma intensa devastação das suas florestas para acolher 60% da população brasileira e gerar 70% do produto interno bruto (PIB) brasileiro. Resgatar a história ambiental dessa região é importante para entendermos tanto a evolução das relações entre humanos e natureza, quanto as modificações da paisagem.

Ao norte do Rio São Francisco, existe uma porção da Mata Atlântica cujo estado atual de conservação é preocupante. Mesmo com uma biota excepcionalmente única e diversa, existem cada vez menos florestas nos estados de Alagoas, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte do que no restante do bioma. As características ecológicas dessas florestas as tornam as mais ameaçadas e desmatadas da Mata Atlântica. Além disso, mais da metade delas está no estágio inicial de regeneração. Para piorar, as matas vêm perdendo a sua diversidade nativa para espécies que têm facilidade em ocupar o ambiente, chamadas de generalistas, pioneiras e oportunistas, que não pertencem naturalmente ao bioma. Outro motivo que dificulta a conservação dessas florestas é o fato de o interesse científico nessa região ser muito inferior ao que é dedicado a outras regiões da Mata Atlântica, sobretudo à região sudeste. A falta de conhecimento e de investigações históricas dificulta saber exatamente quais espécies foram extintas e quanto da floresta se perdeu.

Assim, com o objetivo de buscar as origens da devastação da Mata Atlântica nordestina, os pesquisadores Cristiane Gomes Barreto e José Augusto Drummond, do Centro de Desenvolvimento Sustentável (CDS), da Universidade de Brasília (UnB), realizaram extensa pesquisa histórica a fim de propor estratégia de conservação mais adequada às peculiaridades da região.

Como é feita a pesquisa?

A pesquisa foi desenvolvida com base na interpretação de relatos de cronistas, viajantes e naturalistas dos séculos XVI ao XIX, bem como de boletins e relatórios da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), mapas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), da SOS Mata Atlântica e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), além da coleção de imagens da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj).

O acervo reunido pelos pesquisadores contém aproximadamente 600 documentos, entre artigos, livros, obras raras, mapas e periódicos. Esse material foi obtido a partir dos acervos físicos ou digitalizados da Torre do Tombo, Biblioteca Nacional de Portugal, Bibliothèque Nationale de France, Arquivos Estaduais, Instituto Histórico Brasileiro e os seus congêneres estaduais de Alagoas, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte.

A partir das análises de manuscritos, cartografia, observações e anotações sobre o território do Brasil, do descobrimento ao século XIX, foram mapeadas a localização das vilas, povoados e engenhos. Foram consultados, ainda, romances modernistas que refletem a situação política, econômica e social da região Nordeste e de sua paisagem, os quais apresentam a vivência dos seus personagens em relação ao passado, inclusive memórias pessoais, que permitem uma reconstrução da realidade, sobretudo dentro dos espaços físicos dos engenhos.

O conjunto de informações obtidas das diversas fontes que compõem o acervo permitiu a elaboração de nove mapas que representam a paisagem da região em diferentes períodos: ano de 1500, 1530, 1550, 1640, 1850, 1935, 1970, 2002 e 2008. Todas as representações correspondem a anos aproximados.
 


 

Qual a importância da pesquisa?

A análise histórica da formação territorial da Mata Atlântica em Alagoas, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte pressupõe que, no período anterior ao descobrimento, ela foi ocupada por elevada população indígena por centenas de anos. Dessa forma, a maior parte da paisagem natural já não era a original, encontrando-se em diferentes estágios de regeneração, o que foi mapeado a partir das crônicas dos séculos XVI e XVII. Com a colonização portuguesa, foram introduzidas espécies exóticas e novos modos produtivos. Contudo, a intensificação da atividade agrícola ocorreu apenas a partir do Império (1822-1889) e da Primeira República (1889-1930), contribuindo para a substituição de grandes áreas naturais por monoculturas, principalmente de cana-de-açúcar. Ao apresentar a evolução da paisagem natural, a pesquisa desafia a ideia de que a devastação da Mata Atlântica é uma herança colonial ou do Império, permitindo concluir que é, na verdade, resultado de eventos modernos ligados à industrialização agrícola do século XX, especialmente no nordeste.

Quanto à vegetação que ainda existe, parte é composta por fragmentos da paisagem natural que resultaram da regeneração de áreas anteriormente modificadas pelo ser humano. Outras porções são restantes protegidos por proprietários particulares, senhores de engenhos e usineiros, por motivos que variam entre ética ambiental e a manutenção da beleza cênica. O fato de 90% das áreas conservadas serem privadas revela que a distribuição das florestas atuais não é fruto somente de fatores geográficos nem de políticas públicas.

Assim, é preciso levar em conta a importância dos produtores de cana-de-açúcar na proteção ambiental, pois eles são donos de grande parte dos fragmentos florestais atualmente conservados. Esses proprietários do setor sucroalcooleiro (produção de etanol a partir da cana) têm, historicamente, grande influência na sociedade da Zona da Mata Nordestina devido à herança do coronelismo na região, que dava aos senhores de engenho controle político sobre as principais vilas. Dessa forma, políticas que busquem sensibilizar esses donos de terras sobre a importância da conservação e incentivem a sua atuação são mais adequadas para as peculiaridades regionais, ampliando assim as condições de proteção desse bioma tão fragilizado, do qual, estima-se que restem apenas 12% de florestas nativas.
 

Publicado em 19 de dezembro de 2016.