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Nova terapia para esclerose lateral amiotrófica (ELA)

O que é a pesquisa?

A esclerose lateral amiotrófica, conhecida como ELA, é uma doença neurodegenerativa caracterizada por perda progressiva dos neurônios responsáveis pelos movimentos voluntários. A ELA causa paralisia progressiva e afeta homens e mulheres praticamente da mesma forma. Dependendo do grau da doença, o tempo de sobrevida pode variar de três a cinco anos após o diagnóstico, ocorrendo, em geral, a morte do paciente por insuficiência respiratória. A maioria deles não aceita tratamentos ou intervenções que  permitam maior sobrevida por conta da gravidade e irreversibilidade dos sintomas da doença. Embora a maioria dos casos de ELA seja esporádico, 10% deles estão relacionados a um histórico familiar da doença, chamada de esclerose lateral amiotrófica familiar (ELAf). Nesses casos, o paciente começa a apresentar os sintomas cerca de 10 anos antes daqueles que possuem o tipo esporádico da doença, com uma sobrevida menor.

A causa da degeneração dos neurônios motores pela ELA ainda é desconhecida. Entre os casos de ELAf, 20% estão associados a uma mutação genética que provoca o acúmulo de radicais livres nos neurônios, danificando-os. Por esse motivo, a neutralização desses radicais livres pode ser importante no tratamento dessa doença. Dentre os antioxidantes naturais neutralizadores, que podem ser encontrados nos alimentos, destacam-se a vitamina E e o trealose. Em ratos, o trealose retarda o avanço da ELA por aumentar a capacidade de regeneração dos neurônios. Já a vitamina E protege os neurônios contra agentes tóxicos como o manganês e glutamato, substâncias relacionadas ao surgimento da ELA. Também em estudos feitos em ratos, a vitamina E protege contra convulsões e melhora a memória de animais expostos a agentes tóxicos que danificam os neurônios.

Atualmente, há apenas um único tratamento para ELA, o riluzol, capaz de aumentar a sobrevida dos pacientes. Contudo, esse medicamento não reduz de maneira satisfatória os sintomas da doença. A fim de encontrar terapias alternativas ao riluzol e mais eficazes para o tratamento da ELA, pesquisadores da Universidade Federal do Pampa estão avaliando os efeitos terapêuticos da vitamina E e da trealose.
 

Como é feita a pesquisa?

Para estudar os efeitos da vitamina E e da trealose, ao invés de mamíferos, os pesquisadores estão usando o Caenorhabditis Elegans, um verme de forma cilíndrica e alongada. Os vermes utilizados na pesquisa são transgênicos, ou seja, foi inserido no DNA deles um gene humano, modificado, identificado como um dos causadores da ELA em 5% dos casos. Esse gene induz uma mutação genética nos vermes, fazendo com que todos eles desenvolvam  características da esclerose lateral amiotrófica, caracterizada por paralisia do corpo quando os ainda são jovens. Os pesquisadores pretendem, então, tratar os vermes com vitamina E,  trealose e riluzol  durante o desenvolvimento da doença e comparar os resultados. Serão testados dois tratamentos: um curto, no qual os vermes recebem a medicação por 30min, e um longo, no qual a medicação é ministrada ao logo de 24h. Em seguida, são observados e avaliados alguns parâmetros, tais como paralisia motora, estresse oxidativo e danos neuronais  ao longo da vida, em comparação com vermes não tratados (Figura 1).

Figura 1. Testes do tratamento de esclerose lateral amiotrófica (ELA) com Vitamina E e Trealose em Caenorhabditis Elegans. Nos testes são observados o movimento locomotor, estresse oxidativo, longevidade e a viabilidade dos neurônios dos animais. 

Qual a importância da pesquisa?

Os experimentos iniciais demonstraram que C. Elegans afetados com ELA apresentam longevidade reduzida e supersensibilidade ao estresse, com alterações nos neurônios que controlam seus movimentos. Esses mesmos sintomas estão presentes em pessoas acometidas pela ELA, confirmando que C. Elegans é um bom modelo para se estudar a doença. Atualmente, os pesquisadores tentam padronizar os parâmetros que serão observados nos vermes que apresentam a doença. Os próximos passos serão testar o efeito da vitamina E e da trealose, isoladamente ou em associação, comparando os resultados com os obtidos com o medicamento riluzol.

O desenvolvimento de novos medicamentos envolve a realização de testes em animais (camundongos, ratos, coelhos, cães, macacos) antes dos testes em seres humanos. Essa prática tradicional da ciência sempre gera polêmica na sociedade. O DNA do Caenorhabditis Elegans assemelha-se 80% ao dos mamíferos usados nos testes. Por isso, esse verme tem sido um sito utilizado nos Estados Unidos e na Europa como modelo alternativo para os testes. Na América Latina, entretanto, ainda é pouco usado. Por ser um verme transparente, podem ser aplicadas nele substâncias químicas com marcadores fluorescentes que permitem ao pesquisador observar a ação delas sobre neurônios íntegros do verme vivo. Outra vantagem é que o C. Elegans possui um ciclo de vida curto, aproximadamente de três semanas, o que o torna um bom modelo para estudos de longevidade e envelhecimento. Ao contrário de estudos realizados com células cultivadas em laboratório, o C. Elegans possui células bem específicas, como neurônios e células reprodutoras, que permitem a investigação mais completa da ação das drogas. Além disso, a manutenção dos vermes em laboratório tem baixo custo e diversos estudos podem ser realizados, como o comportamento, que permite a definição de parâmetros de avaliação do desenvolvimento de ELA no verme.

A busca por tratamentos alternativos contra a ELA conferiu às pesquisadoras responsáveis por este estudo o Prêmio L'Oréal-UNESCO-ABC “Para Mulheres na Ciência” no Brasil.

 

Publicado em 23 de março de 2016.