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Mortalidade de corais revela a saúde dos oceanos

O que é a pesquisa?

Eles estão perdendo a cor e morrendo. Considerados os arquitetos dos oceanos por conta da sua grande importância ecológica, os corais vêm sendo degradados por impactos locais – como poluição, mineração de areia e rocha, comércio ilegal e uso de explosivos e cianeto na pesca – e pelo aquecimento global.

Ao longo de milhares de anos, os corais formaram estruturas no fundo do mar, compostas de carbonato de cálcio (como um esqueleto humano), que, aos poucos, deram origem aos recifes de coral, os quais se tornaram a casa de inúmeros outros organismos, como estrelas-do-mar, peixes e tubarões. Estima-se que 25% das espécies marinhas vivam nos recifes. Os recifes de coral são de grande importância para a preservação da vida marinha e proteção do litoral, uma vez que reduzem a força das ondas que chegam às praias, diminuindo a erosão. Também são importantes para a economia, pois são fonte de alimento e renda para muitas comunidades, além de atraírem turistas adeptos às práticas de mergulho.

Um fenômeno conhecido como branqueamento dos corais, detectado em várias regiões do planeta, está ameaçando a diversidade de corais. Segundo o consórcio de oceanógrafos da National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), órgão vinculado ao Departamento de Comércio dos Estados Unidos da América, a doença poderá levar à perda de mais de 12 mil km de superfície de recifes de coral em 2016.

Os corais do litoral nordeste brasileiro também estão perdendo a sua coloração, o que motivou Marcelo de Oliveira Soares, do Instituto de Ciências do Mar (Labomar), da Universidade Federal do Ceará, a investigar os fatores ambientais que vem provocando o branqueamento contínuo dos corais da costa do Ceará. Para o pesquisador, insolação e temperatura do mar são fatores que acarretam o branqueamento dos corais.

 

Como é feita a pesquisa?

Desde 2012, Marcelo Soares e sua equipe vêm monitorando os corais do litoral do Ceará, percebendo que o branqueamento é mais evidente em uma determinada época do ano. Os pesquisadores observaram que, nos meses de maio e junho, o branqueamento está associado a ligeira elevação da temperatura da superfície do mar e queda na velocidade dos ventos, fenômenos que fazem a transparência da água aumentar, deixando os corais mais expostos à radiação solar.

A pesquisa envolveu a obtenção de imagens de corais por meio de mergulhos e a coleta de dados ambientais gerados por satélites e órgãos públicos (temperatura da superfície do mar, a velocidade dos ventos e as horas de insolação).

A ocorrência do branqueamento de corais foi acompanhada ao longo de três anos (2012-2015) em Pecém, município localizado a 30 km de Fortaleza, Ceará. As imagens foram obtidas com câmeras digitais. Os corais foram fotografados mensalmente para ver seu estado de saúde. De cada coral monitorado, foram obtidas nove fotografias por mês, em três diferentes profundidades (2, 4 e 6 m). Ao todo, foram analisadas 2.880 imagens em computadores do Labomar, que classificaram os corais em três categorias: saudável, branqueamento fraco e branqueamento forte.

Qual a importância da pesquisa?

A pesquisa tem fornecido aos pesquisadores informações que os ajudam a entender porque o branqueamento tem afetado os corais na costa do Ceará, bem como os efeitos do aquecimento global sobre a biodiversidade marinha. Como o conjunto de dados sobre corais e seu ambiente pode ser usado para indicar a saúde dos oceanos, é fundamental avaliar quais fatores elevam a mortalidade dos corais e quais atuam positivamente para a sobrevivência deles. A turbidez da água, a cobertura de nuvens, a profundidade em que se encontra o coral e o aumento da velocidade dos ventos – que provoca agitação da água – por exemplo, podem agir reduzindo o branqueamento. Outro fator importante a ser pesquisado nos próximos anos é o efeito da acidificação dos oceanos sobre os corais. Esse fator ainda é pouco conhecido no Brasil.

Fenômenos naturais como El Niño, que altera a temperatura da superfície dos oceanos, podem ampliar o processo de branqueamento, provocando a morte dos corais e, consequentemente, uma série de efeitos ruins para a vida marinha do litoral. Se a temperatura dos oceanos aumentar apenas 2 °C, as consequências serão catastróficas e irreversíveis para os recifes de coral do mundo todo. Embora cubram menos de 0,1% do solo dos oceanos, esses organismos são como oásis em um deserto, que oferecem comida e abrigo para diversas espécies, além de servir de creche para jovens peixes até que se tornem grandes o bastante para enfrentar os oceanos.

O futuro dos oceanos depende da quantidade de gás carbono que será emitido nas próximas décadas. A meta de redução de emissões de gases de efeito estufa discutida na Cúpula do Clima (COP21), em Paris, precisa ser cumprida para que o aquecimento global e a acidificação dos oceanos – uma das consequência do aumento das emissões de gás carbônico – deixem de aumentar as taxas de extinção das espécies marinhas, gerando desequilíbrios nos serviços ambientais que os oceanos fornecem a humanidade, como a pesca, o turismo, a regulação do clima e a dinâmica das chuvas.
 

Publicado em 31 de março de 2016.