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O que acontece no cérebro quando divagamos?

O que é a pesquisa?

Passamos boa parte do nosso tempo divagando mentalmente. Quando não estamos concentrados em uma atividade específica, como ler um texto ou realizar um cálculo matemático, tendemos a divagar silêncio. Somos craques em "viajar na maionese". O que acontece no cérebro durante esse período de atividade mental livre? Pesquisadores brasileiros buscaram responder essa pergunta usando a técnica de ressonância magnética funcional (fMRI), que permite observar a atividade do cérebro em tempo real enquanto participantes voluntários realizam tarefas pré-determinadas.

Sabemos por experiência própria que lembranças de eventos que ocorreram em nossas vidas (memórias autobiográficas) surgem inesperadamente durante momentos de divagação. Mas até agora havia sido difícil mostrar quais partes do cérebro estão envolvidas especificamente nessas lembranças autobiográficas.

A equipe de pesquisadores, liderada pelo neurologista Jorge Moll, do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino, no Rio de Janeiro (RJ), mostrou que a recordação dessas memórias autobiográficas  aumenta a atividade de um subconjunto de áreas cerebrais que normalmente estão envolvidas em divagações. O resultado sugere que passamos parte do tempo de nossas divagações nos lembrando de acontecimentos pessoais.

Como é feita a pesquisa?

Sempre que participantes de experimentos de fMRI ficam sem fazer nada (isto é, quando se pede a eles para ficarem em repouso, “não pensando em nada” e sem dormir),  determinadas áreas do cérebro são ativadas. Essas áreas formam uma rede, chamada de  “rede de modo padrão”, e envolvem regiões localizadas no meio do cérebro, tanto na parte da frente quanto na parte de trás. A ideia dos pesquisadores foi comparar essa atividade cerebral obtida durante o “repouso” com aquela observada quando os participantes estão se lembrando de acontecimentos  sociais ou afetivos de suas vidas. 

 Antes de entrarem no escâner, os participantes escolheram junto com os pesquisadores uma série de palavras capazes de desencadear lembranças autobiográficas que envolvessem outras pessoas. Por exemplo, quando vissem a palavra “mãe”, apresentada em uma tela visível de dentro do escâner, o participante  deveria recordar-se de um acontecimento positivo envolvendo sua mãe. Além de recordações positivas, os participantes também foram instruídos a pensarem em lembranças ruins (negativas) ou lembranças com pouca força afetiva (neutras). Quando o participante visse uma palavra na tela, sua tarefa era lembrar o acontecimento autobiográfico associado àquela palavra. Quando lesse a palavra “repouso”, sua tarefa consistia em ficar cerca de dois minutos sem pensar em nada em particular (Figura 1). 

 

 
    
Figura 1. Os participantes do estudo foram instruídos a recordar acontecimentos autobiográficos quando uma palavra-lembrete, como “mãe” ou “hospital”, aparecia na tela do computador. Quando aparecia a palavra “Repouso” (“Rest” na figura), eles deveriam ficar 132 s sem pensar em nada. Enquanto eles realizavam essas tarefas (recordação vs. repouso), imagens da atividade cerebral (fMRI) foram coletadas por um escâner. Adaptado de Bado e colaboradores (2013). 
 
 

O contraste entre a atividade cerebral nas duas tarefas permitiu aos pesquisadores realizar três tipos de análises. Na primeira, eles identificaram áreas cerebrais ativadas em ambas as tarefas. Os resultados mostraram que as áreas de ativação comum às duas tarefas pertenciam à “rede de modo padrão”, confirmando que a memória autobiográfica envolvia a mesma rede de partes do cérebro ligada à divagação.

 

Na segunda análise, os pesquisadores buscaram áreas de ativação diferentes entre as duas tarefas (recordação vs. repouso). Eles identificaram um subconjunto de áreas mais ativas durante a tarefa de recordação que durante a tarefa de divagação. Foram ativados o córtex pré-frontal medial e o córtex cingulado posterior (Figura 2A). Essa ativação diferenciada, no entanto, só foi observada para memórias com forte carga emocional (positiva ou negativa). Memórias com baixa carga emocional não mostraram diferenças de atividade cerebral em relação à condição de repouso (Figura 2B). 

 
 
    
Figura 2. Diferenças na atividade cerebral entre as condições de recordação e repouso capturadas pela técnica de ressonância magnética funcional. (A) Áreas cerebrais com maior ativação na tarefa de recordação em comparação com condição de repouso (quanto mais amarela a área, maior é a atividade cerebral). Áreas incluem o córtex medial pré-frontal e o córtex cingulado posterior. (B) Atividade cerebral restrita ao córtex medial pré-frontal. As barras mostram que a atividade cerebral foi maior durante a recordação de eventos emocionais (positivos e negativos) em relação à recordação de eventos neutros e também em relação à condição de repouso. Adaptado de Bado e colaboradores (2013). 
 
 

Por fim, na terceira análise, os pesquisadores mostraram que as atividades no córtex pré-frontal medial e no córtex cingulado posterior, áreas mais ativadas durante as recordações autobiográficas, estavam conectadas funcionalmente. Duas áreas estão conectadas funcionalmente quando as atividades cerebrais nessas duas áreas estão correlacionadas. Por exemplo, quanto maior era a atividade no córtex pré-frontal medial, maior era a atividade no córtex cingulado posterior; quanto menor era a atividade numa área, menor era a atividade na outra área. É como se as duas áreas estivessem conversando. 

Qual a importância da pesquisa?

Mesmo quando estamos aparentemente sem fazer nada, nosso cérebro continua trabalhando. Algumas áreas do cérebro são ativadas durante esses períodos de devaneios, quando estamos pensando sobre nós mesmos, imaginando coisas ou recordando acontecimentos de nossas vidas.

Embora os cientistas já soubessem da existência da “rede de modo padrão”, eles ainda não sabiam quais partes dela contribuíam para os diferentes tipos de atividade características dos devaneios. O estudo da equipe de Jorge Moll mostrou que uma sub-rede, envolvendo o córtex medial pré-frontal, o córtex cingulado posterior e o pré-cuneo, é ativada especificamente durante a recordação de memórias autobiográficas, principalmente quanto essas memórias possuem alta carga emocional. 

 Enquanto áreas mais dorsais (parte de cima do cérebro) da “rede de modo padrão” estão ligadas a memórias autobiográficas emocionais, como mostrado no estudo, outras áreas mais ventrais (parte de baixo) podem estar associadas a autoavaliações, planos sobre o futuro e outros tipos de pensamentos característicos dos devaneios.

Os resultados ajudam a entender melhor o que se passa na cabeça das pessoas durante períodos de atividade mental livre. Além disso, os resultados abrem novas possibilidades de investigação de algumas doenças psiquiátricas, como esquizofrenia, depressão, ansiedade e transtorno de estresse pós-traumático. Em todas essas doenças, a “rede de modo padrão” está envolvida. Dessa forma, entender melhor essa rede significa entender melhor essas doenças.

Publicado em 6 de maio de 2014.