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Proteção de albatrozes e petréis contra a captura pela pesca de espinhel

O que é a pesquisa?

Albatrozes, pardelas e petréis (Ordem Procellariiforme) estão dentre as aves marinhas mais oceânicas, ou seja, vivem em alto mar o ano todo, raramente se aproximando da terra, exceto para a reprodução, que acontece em ilhas isoladas e distantes do litoral. Diversas espécies realizam amplos movimentos migratórios e longas viagens, que cobrem milhares de quilômetros, em busca de áreas ricas em peixes e outros frutos do mar para a alimentação. São aves longevas (uma fêmea do albatroz-real-setentrional Diomedea sanfordi se reproduziu aos 61 anos de idade) encontradas em todos os oceanos. As espécies menores atingem a maturidade sexual em torno dos cinco anos, enquanto os grandes albatrozes em torno dos 10 anos. Produzem apenas um ovo por temporada reprodutiva e não há a postura de reposição, em uma mesma temporada, caso o ovo seja perdido. Diversas espécies nidificam apenas a cada dois anos, sendo comuns intervalos maiores entre as tentativas de reprodução. Essas características tornam os Procellariiformes, especialmente os albatrozes, extremamente vulneráveis a fatores de mortalidade que atingem as aves em idade de reprodução. O investimento do casal para ter um filhote é grande.

A maior diversidade de espécies de Procellariiformes é observada no Hemisfério Sul, onde ocorrem 22 espécies de albatrozes, duas de petréis-gigantes e pelo menos 75 espécies menores. Em águas oceânicas brasileiras, já foram observadas dez espécies de albatrozes, 24 de petréis, cinco de painhos e almas-de-mestre, e uma de petrel-mergulhador. Dessas, apenas duas se reproduzem no Brasil: a pardela-de-trindade Pterodroma arminjonianaendêmica das ilhas Trindade e Martin Vaz −, e a pardela-de-asa-larga Puffinus lherminieri − encontrada nas ilhas do litoral do Espírito Santo e de Fernando de Noronha. Das várias espécies de albatrozes que interagem com a arte de pesca no Brasil, onze são consideradas Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção.

A Zona Econômica Exclusiva (ZEE) brasileira é uma área de alimentação utilizada por pelo menos 37 espécies de Procellariiformes, sobretudo nas águas mais frias do sul, muito além do litoral. As principais ameaças à sobrevivência albatrozes e petréis são a poluição dos oceanos, sobretudo por plástico, e a captura não intencional pelos barcos de pesca de espinhel pelágico – técnica de pesca industrial utilizada em alto mar para capturar, principalmente, atuns, espadartes e tubarões. As aves, atraídas pelas iscas lançadas pelos barcos de pesca, como lulas ou sardinhas, ficam presas nos anzóis e morrem afogadas. A maior parte das aves é capturada durante as operações de lançamento dos espinhéis e algumas também são capturadas durante o recolhimento do equipamento. A pesca de espinhel também provoca a morte de tartarugas-marinhas. Para reduzir a captura não intencional de albatrozes e petréis pela pesca de espinhel pelágico, o Projeto Albatroz, organização não governamental criada há 20 anos, em Santos (SP), desenvolve e implementa medidas de mitigação, voltadas à proteção dessas aves espetaculares.

Como é feita a pesquisa?

O Projeto Albatroz mantém um time de observadores de bordo, em parceria com o Programa Albatross Task Force (ATF). Os observadores são responsáveis por coletar dados científicos sobre a interação de aves marinhas com a pesca − a bordo das embarcações, durante as viagens de pesca −, realizar testes de medidas mitigadoras e desenvolver novas soluções para reduzir a captura dessas aves a partir de observações da rotina de pesca.

Duas medidas propostas pelo Projeto Albatroz têm apresentado resultados positivos: o uso do Toriline (espantador de aves) e a colocação de pesos mais próximos aos anzóis, aumentando a velocidade de submersão do equipamento de pesca, deixando a isca disponível por menos tempo na superfície e, consequentemente, diminuindo a possibilidade de ataque das aves.

O Toriline (tori significa aves, em japonês) é um cabo longo, entre 60 e 150 m (dependendo da altura do convés da embarcação em relação à linha de água), que tem uma das extremidades presa a um mastro fixado na popa do barco – de onde são lançados os anzóis iscados na largada do espinhel −, enquanto a outra se arrasta livre sobre a água, com uma pequena bóia na ponta para aumentar a sua resistência na água. Desse cabo, pendem dezenas de fitas coloridas, que balançam com o vento e afugentam as aves, as quais ficam incomodadas com a presença de objetos estranhos pendurados na área de lançamento do espinhel e assim se mantêm afastadas, mesmo quando o alimento é visível. Para ser mais eficaz, o Toriline deve ser utilizado em par, ou seja, um em cada bordo da embarcação, sempre na popa. O espantador de aves é eficiente para evitar a captura de aves e o seu custo de construção e instalação é reduzido.

Com a colaboração de pescadores brasileiros e em parceria com o ATF − programa da Bird Life International − que reúne um time global de observadores de bordo – foram realizados testes sobre a eficiência dessas duas medidas. Os resultados indicaram que a utilização do Toriline reduziu em 67% as tentativas das aves em pegarem as iscas dos anzóis. O uso desse apetrecho foi mais significativo nos primeiros 50 m atrás do barco, onde reduziu em 97% os ataques de aves às iscas. Essa área é considerada crítica, porque as iscas estão mais perto da superfície e, portanto, mais disponíveis para as aves. A combinação do Toriline com a colocação dos pesos de pelo menos 60 gr a dois metros do anzol também reduziu significativamente os ataques das aves. Na pesca de espinhel no Brasil, o usual é colocar o peso à distância de cinco metros do anzol. Porém, posicionando-o a dois metros, foi constatado que o anzol afunda mais rápido, reduzindo em 30% o ataque das aves às iscas. A colocação dos pesos a dois metros dos anzóis não afetou a captura de atuns, espadartes e tubarões.

Qual a importância da pesquisa?

O Brasil é signatário do Acordo Internacional para a Conservação de Albatrozes e Petréis, que tem como objetivo adotar medidas que mantenham um estado favorável para a conservação dessas aves. A implementação efetiva do Acordo requer a realização de pesquisas, treinamento ou monitoramento para a implementação de medidas de conservação de albatrozes e de petréis e de seus habitats, bem como para o manejo deles. As metas e ações previstas no Acordo motivaram e subsidiaram a elaboração do Plano de Ação Nacional para a Conservação de Albatrozes e Petréis em 2006. O Plano ordenou e ampliou a abrangência das ações nacionais de conservação, e buscou otimizar recursos e esforços no cumprimento dos compromissos internacionais para a conservação de albatrozes e petréis no Brasil, dentre eles o de reduzir, com o uso de medidas mitigadoras, a captura incidental de aves pela pesca de espinhel. As ações do Plano de Ação são executadas pelo Projeto Albatroz por meio de convênio com o Ministério da Pesca e Aquicultura.

Respaldadas pelo Acordo, as ações do Projeto Albatroz influenciam e subsidiam a formulação de normas nacionais e internacionais para a redução da captura não intencional de albatrozes e petréis. A Comissão Internacional para a Conservação do Atum do Atlântico (ICCAT) − organização internacional de ordenamento pesqueiro no Oceano Atlântico e mares adjacentes −, por exemplo, estabelece o uso conjunto de ao menos duas de três medidas de mitigação para proteção de aves oceânicas: largada noturna (as aves marinhas alimentam-se durante as horas de luz; somente alguns petréis são capazes de buscar alimento na escuridão), peso no anzol e o Toriline. A recomendação vale para os barcos pesqueiros que operam no Oceano Atlântico ao sul do paralelo de 25º de latitude Sul. Essa é uma importante iniciativa, principalmente porque poderá servir de modelo a ser seguido por outras organizações regionais de ordenamento pesqueiro. É o caso da Indian Ocean Tuna Comission (IOTC), que também aprovou, em abril desse ano, a exigência do uso das mesmas medidas. Outro exemplo é a Instrução Normativa Interministerial nº 4/2011, dos Ministérios da Pesca e Aquicultura e do Meio Ambiente, que estabelece o uso do Toriline e do peso mais próximo do anzol por todas as embarcações que utilizam o espinhel e que operam em águas sob jurisdição do Brasil a partir dos 20º de latitude Sul.

Além de participar ativamente da formulação de políticas públicas direcionadas à conservação dos Procellariiformes, o Projeto Albatroz investe no aprimoramento do Toriline, no desenvolvimento de outras medidas mitigadoras, na capacitação de agentes para implementação dessas medidas e na sensibilização dos cidadãos, por meio do Programa de Educação Ambiental para pescadores, escolas e público que participa dos eventos promovidos pelo Projeto. Também são conduzidas pesquisas sobre a distribuição geográfica das aves e a sua interação com os pescadores.

Publicado em 9 de julho de 2012.
  

 



Foto: Júlio Cardoso.

 

 

A ameaça da poluição dos oceanos

A poluição dos oceanos é uma das ameaças à sobrevivência dos Procellariiformes. Ao vasculharem o mar atrás de alimentos, albatrozes e outras espécies confundem o lixo com alimento. Parte dos objetos plásticos ingeridos pelas aves é regurgitada para os filhotes. Milhares de aves, adultas e filhotes, morrem engasgadas, envenenadas ou desnutridas pela ingestão de plástico, que se acumula no trato digestivo. Na imagem ao lado, um jovem albatroz-de-sombracelha-negra tenta comer maço de cigarro encontrado boiando no mar. Saiba mais sobre o impacto da poluição dos oceanos sobre os albatrozes em Oceanos de plástico e Vasto mundo.