A África é o continente mais importante no suporte e na manutenção da estruturação do mundo nos últimos cinco séculos, particularmente na formação do Novo Mundo, a América. O Brasil, por sua vez, é a unidade política contemporânea que registra as maiores estatísticas de importação forçada de contingentes populacionais africanos ao longo dos séculos XVI a XIX. Apesar dessa referência histórica da diáspora* africana na formação territorial e da sociedade brasileira, a incorporação verdadeira, o respeito e o espaço dessas culturas no País continuam sendo questões estruturais pendentes, que ainda merecem investigação, conhecimento e ação.
Nesse sentido, as demandas para compreensão das complexidades da dinâmica da sociedade são grandes e existem poucas disciplinas mais destacadas do que a geografia* e a cartografia para auxiliar na representação e interpretação das inúmeras indagações desse momento histórico. O Projeto Geografia Afro-Brasileira: Educação e Planejamento do Território, em desenvolvimento no Centro de Cartografia Aplicada e Informação Geográfica (Ciga) da Universidade de Brasília (UnB), realiza investigações e interpretações da formação territorial do Brasil e da sua população, tomando como referência os aspectos geográficos da herança africana. A premissa dos estudos realizados e em andamento é ampliar as informações geográficas e cartográficas, a discussão, e fornecer elementos para o conhecimento historiográfico do espaço brasileiro na perspectiva das matrizes oriundas da África.
Essa pesquisa tem o apoio do Programa de Pós-Graduação em Geografia da UnB (mestrado e doutorado), da Fundação Brasil Africano, da Mapas Editora e Consultoria, do Museu Real da África Central (Tervuren-Belgique), da Fundação Gregório de Mattos, da Fundação Joaquim Nabuco, do Ministério do Trabalho e Emprego, dentre outras parceiras com instituições brasileiras e estrangeiras. O Projeto tem cinco fases preconizadas, algumas delas já desenvolvidas e outras em operacionalização.
Na primeira etapa, iniciada na Universidade Federal da Bahia, em 1989, junto ao Centro de Estudos Afro-Orientais (Ceao), foi possível fazer o resgate dos elementos fundamentais da geografia da África e sua relação com a geografia brasileira. Nessa etapa, constatou-se a forma inferiorizada da posição dos conteúdos da África no ensino oficial da geografia no País e a forma distorcida e preconceituosa como são colocados nos livro didáticos, principalmente os contextos das matrizes afro-brasileiras.
A segunda fase do Projeto tem seu foco no mapeamento dos sítios geográficos dos quilombos* contemporâneos no Brasil, e nela consegue-se responder como estão distribuídos os registros municipais das comunidades quilombolas* tradicionais nas unidades políticas do Brasil e onde essas comunidades estão concentradas. O cadastramento já teve quatro versões (1999, 2005, 2006 e 2009) e uma atualização está em curso para ser divulgada em 2012.
A terceira etapa apresenta, como fio condutor, a educação afro-brasileira, e sua operacionalização se processa via as Oficinas Temáticas Itinerantes que colaboram na construção de outra territorialidade da população do país em que as referências africanas estejam presentes. Já foram realizadas duas edições desse programa. Em 2005, com o apoio do Ministério da Educação (MEC), em parceria com as Secretarias de Educação estaduais, foi realizada a oficina "Matrizes Africanas do Território Brasileiro", em sete capitais brasileiras (Maceió, Salvador, Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Brasília). Em 2010, houve a formalização de uma nova parceria do Projeto para a realização de cinco oficinas itinerantes: "A África, o Brasil e os Quilombos: heranças geográficas", nas seguintes capitais: Maceió, Belém, Macapá, São Luís e Salvador.
A quarta etapa do Projeto visa a ampliar a visibilidade dos seus produtos e ao alargamento do alcance social dos conhecimentos gerados nos estudos. Para isso, foram concebidas as Exposições Cartográficas e Geográficas Itinerantes, que constituem versões das evoluções tecnológicas e informacionais (recursos analógicos e digitais) dos estudos realizados. Alguns registros são importantes, como a mostra: "Territórios das Comunidades Remanescentes de Antigos Quilombos no Brasil" exibida em Brasília, promovida pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos do Ministério da Justiça (MJ) com a Mapas Editora e Consultoria e o Decanato de Extensão da UnB.
A exposição cartográfica itinerante: "A África, o Brasil e os Territórios dos Quilombos" percorreu, no ano de 2005, cinco capitais brasileiras (Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília e Maceió), com o apoio da Caixa Econômica Federal e do MEC, e esteve, também, nas atividades oficiais do Ano Brasil-França em Paris, em francês e português L´Afrique, le Brésil et les Territoires des Quilombos . No ano de 2007, com o apoio da Petrobras, na Casa do Brasil, junto à Embaixada do Brasil na Bélgica, esteve em cartaz essa exposição cartográfica.
Já a exposição geográfica "O Brasil Africano: Diáspora – Quilombos – Território – População. Mapas & Fotos" ficou em exibição no Museu da História Natural em Luanda, a convite da Embaixada do Brasil em Angola, e iniciou a temporada no Brasil em 2010. Essa mesma mostra geográfica foi realizada no Museu Nacional do Conjunto Cultural da República, em Brasília, e teve como visitantes 6.000 pessoas, entre público escolar e visitas autônomas. As pesquisas para a cartografia da diáspora África-América-Brasil constituem os principais segmentos dos estudos em realização.
Em 2005, a exposição itinerante "A África, o Brasil e os Territórios dos Quilombos" disponibilizou um livro de registro, em que as pessoas que a visitaram ou conheceram algumas das atividades do Projeto, puderam escrever comentários, registrando suas impressões. Como uma das estratégias para coleta e análise de dados revelou a importância dos estudos em questão, e dos seus produtos. Em cartaz no Conjunto Cultural da Caixa Econômica Federal, essa Exposição, no Rio de Janeiro, chamou a atenção do público, porque apresentou pontos que exploram uma visão geográfica muito minuciosa e de certa forma técnica. Contrabalanceando a essas informações, pode-se observar a relação estabelecida entre a exposição e o público nas citações dos visitantes em fotos e gravuras, o que a tornou interativa, agradável e não cansativa. Em São Paulo, o público ratificou o interesse que cada cidadão tem que ter à sua cultura, dando mais valor à sua história e ao País, como também para ter melhor instrução. Já em Brasília, visitantes identificaram-se com a temática, observando que os mestiçados no País têm que ter compromisso com as origens, e ressaltaram a importância de se publicar o trabalho, para que se torne fonte permanente de consulta.
Ainda nesse ano, na Casa do Brasil da Cidade Universitária, em Paris (França), essa Exposição foi considerada uma importante conjunção de qualidade acadêmico-científica, com proveitosa discussão de cunho sócio-político e econômico, principalmente, porque utilizou dados palpáveis como argumento contra desigualdades historicamente reiteradas. Em Maceió, Alagoas, a Exposição ficou em cartaz no Museu da Imagem e do Som e foi observada não só a beleza da mostra, mas ainda a importância de engrandecer e valorizar a origem e a cultura afrodescendentes na formação do Brasil.
No ano de 2009, durante a exposição geográfica "O Brasil Africano: Diáspora – Quilombos – Território – População" ocorrida no Museu Nacional de História Natural, em Luanda (Angola), visitantes relataram que gostaram da Exposição, porque conheceram a história do povo quilombola, e puderam apreciar a união e a irmandade que há entre africanos e afro-brasileiros.
De volta ao Brasil, em 2010, essa Exposição esteve em cartaz no Museu Nacional da República, cujo público visitante chamou a atenção para o fato do trabalho de pesquisa, concepção, organização e montagem, realizado pela equipe do Projeto, ter sido intenso e profundo, refletindo beleza e harmonia na mostra expositiva.
No contexto da difusão do conhecimento sobre a geografia afro-brasileira também, outros resultados relevantes desta pesquisa são as publicações realizadas em parceria que constituem um dos segmentos mais importantes para a aplicação e contribuição efetiva no processo educacional do País e no planejamento do território. As obras "Territórios das Comunidades Remanescentes de Antigos Quilombos no Brasil", com toda a documentação cartográfica do primeiro cadastro do mapeamento dos sítios quilombolas do País (2000 e 2005) e os volumes I e II da "Coleção África-Brasil: cartografia para o ensino-aprendizagem" constituem conjuntos de mapas* temáticos, em diferenciados formatos, para auxiliar educadores a transmitir informações sobre a Geografia da África e a Geografia Africana do Brasil. Em 2009, foi publicado o livro "Quilombos, geografia africana, cartografia étnica e territórios tradicionais", obra comemorativa dos vinte anos do "Projeto Geografia Afro-Brasileira: Educação & Planejamento do Território".
Vale ressaltar, ainda, a importância de se divulgar esse Projeto e seus desdobramentos neste - que foi proclamado pela Assembleia Geral das Nações Unidas - Ano Internacional dos Afrodescendentes. No Brasil, para promover mais conhecimento e respeito, e fortalecer as ações nacionais, bem como as de cooperações internacionais, a representação da Organização das Nações Unidas para Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) têm realizada vasta programação cultural com encontros, debates e atividades relacionadas à tradição afro-brasileira e integração com movimentos sociais.
Texto de divulgação científica publicado em 09 de dezembro de 2011.
*Glossário:
Geografia: ciência do território e este componente fundamental, a terra, ou terreiro num sentido amplo, continua sendo o melhor instrumento de observação do que aconteceu, porque apresenta as marcas da historicidade espacial; do que está acontecendo, isto é, tem registrado os agentes que atuam na configuração geográfica atual e o que pode acontecer, sendo possível capturar as linhas de forças da dinâmica territorial e apontar as possibilidades da estrutura do espaço no futuro próximo. O território é, na sua essência, um fato físico, político, social, categorizável, possível de dimensionamento, onde geralmente, o Estado está presente e estão gravadas as referências culturais e simbólicas da população. Não se pode perder de vista que a geografia é a área do conhecimento que tem o compromisso de tornar o mundo e suas dinâmicas compreensíveis para a sociedade, de dar explicações para as transformações territoriais e de apontar soluções para uma melhor organização do espaço. A geografia é, portanto, uma disciplina fundamental na formação da cidadania do povo brasileiro, que apresenta uma heterogeneidade singular na sua composição étnica, socioeconômica e na distribuição espacial.
Mapas: representações gráficas do mundo real, que se firmam como ferramentas eficazes de interpretação e leitura do território, possibilitando revelar a territorialidade das construções sociais e feições naturais do espaço e, justamente por isso, mostram os fatos geográficos e os seus conflitos. Estes possibilitam revelar graficamente o que acontece na dinâmica do espaço e se tornam cada vez mais imprescindíveis, por constituírem uma ponte entre os níveis de observação da realidade e a simplificação, a redução, a explicação e de pistas para a tomada de decisões e soluções dos problemas. Não se pode perder de vista que um mapa não é o território, mas que nos produtos da cartografia estão as melhores possibilidades de representação e leitura da história do território.
Diáspora: o conceito geográfico tem a ver com a referência de dispersão de uma população e das suas matrizes culturais e tecnológicas. Ao longo da história, pode-se identificar a construção de territórios pela mobilidades das migrações, tanto de forma voluntária quanto das migrações forçadas. Na África, pode-se caracterizar alguns destes grandes movimentos demográficos, a começar pela primeira diáspora, que corresponde ao processo espacial milenar de povoamento e ocupação do próprio continente e, posteriormente, para outras terras emersas do mundo. O fenômeno espacial que é abordado aqui está ligado aos séculos de deslocamentos, geralmente denominado "tráfico negreiro" para a América, fruto de longos períodos de migração forçada, contexto propulsor do sistema escravista e base do capitalismo primitivo.
Quilombo: fato espacial expressivo, distribuído por quase todo o território brasileiro colonial, onde se agrupavam principalmente os povos africanos e seus descendentes escravizados, que se rebelavam contra o sistema vigente, mas também, brancos europeus excluídos do sistema e povos indígenas, formando comunidades livres, auto sustentáveis e com forte organização territorial. O quilombo foi uma reconstrução e elaboração concreta de um tipo de território africano no "novo espaço" na outra margem do oceano Atlântico, a América. Mesmo passados mais de 120 anos da sanção da Lei Áurea pelo regime imperial, a história e o sistema oficial brasileiro ainda continuam se referindo ao povo negro escravizado e aos quilombos sempre no passado, como se esses não fizessem mais parte da vida do País.
Comunidades quilombolas: a situação precária dos descendentes de quilombos no Brasil, mesmo não sendo ainda assumida devidamente pelo Estado, é uma das questões estruturais da sociedade brasileira, uma vez que, além da falta de visibilidade territorial e social, a questão é agravada pelo esquecimento verificado na história oficial. No País, os remanescentes de antigos quilombos, "mocambos", "comunidades negras rurais", "quilombos contemporâneos", "comunidades quilombolas" ou "terras de preto" referem-se a um mesmo patrimônio territorial e cultural inestimável e que apenas, recentemente, passaram a ter atenção do Estado e ser do interesse de algumas autoridades e organismos oficiais. Muitas dessas comunidades mantêm ainda tradições e tecnologias que seus antepassados trouxeram da África, como a agricultura, a medicina, a religião, a mineração, as técnicas de arquitetura e construção, o artesanato e utensílios de cerâmica e palha, as línguas, a relação sagrada com o território, a culinária, a relação comunitária de uso da terra, dentre outras formas de expressão cultural e as técnicas de referências tropicais. Pode se dizer que, sobrevivem no Brasil contemporâneo, "pedaços seculares de territórios africanos "fundamentais para o entendimento da territorialidade complexa, multifacetada e diversa do País. Apesar das disposições constitucionais (1988) e da obrigatoriedade de alguns organismos do setor decisório, é possível constatar, de uma forma quase que estrutural, que a situação das comunidades descendentes de quilombos no Brasil tem apresentado um tratamento caracterizado por ações episódicas e fragmentárias, fato que compromete o direcionamento de uma política definida para o equacionamento dos seus problemas fundamentais, ou seja, o seu reconhecimento dentro do sistema brasileiro e a demarcação e titulação dos territórios ocupados.
Rafael Sanzio Araújo dos Anjos
Projeto Geografia Afro-Brasileira: Educação e Planejamento do Território
Universidade de Brasília – Centro de Cartografia Aplicada e Informação Geográfica (UnB-Ciga)
Universidade de Brasília - Centro de Cartografia Aplicada e Informação Geográfica (Ciga)
Petróleo Brasileiro S. A. (Petrobras)
Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq)
Ministério da Educação (MEC)
Caixa Econômica Federal (CEF)
ANJOS, Rafael Sânzio Araújo dos. Territorialidade Quilombola: fotos e mapas / Quilombola Territoriality: photos e maps. Brasília: Mapas Editora e Consultoria, 2011. 124p.
______Quilombos: geografia africana, cartografia étnica, territórios tradicionais. Brasília: Mapas Editora e Consultoria, 2009. 190p.
______África-Quilombos-Brasil: atlas geográfico. Relatório Final de Pós-Doutorado em Cartografia Étnica. Brasília: Universidade de Brasília (GEA - CIGA / CNPQ / Museu Real da África Central MRAC (Tervuren – Bruxelas/BE)), 2008.
______Cartografia e Educação. Brasília: Mapas Editora e Consultoria, 2007. vol I. (Encarte)
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______Coleção África–Brasil: cartografia para o ensino–aprendizagem. Brasília: Mapas Editora e Consultoria, 2ª ed. 2005. (Encarte)
______Territórios das comunidades remanescentes de antigos quilombos no Brasil – primeira configuração espacial. Brasília: Mapas Editora e Consultoria, 3ª ed. 2005. 92 p.
______Territórios das comunidades quilombolas do Brasil: segunda configuração espacial. Brasília: Mapas Editora e Consultoria. 2005.
______A geografia, a África e os negros brasileiros. In: MUNANGA, Kabengele. (org.). Superando o racismo na escola. Brasília: Ministério da Educação (Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade), 2005. p.173-184. Disponível em: www.uel.br/projetos/leafro/pages/arquivos/MUNANGA%20K%20-%20Superando%20o%20Racismo%20na%20Escola%20%28sem%20capa%29.PDF. Acesso em: 07 dez. 2011.
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______A geografia, os negros e a diversidade cultural. Florianópolis: Núcleo de Estudos Negros. 1998, p.93-106. (Série O Pensamento Negro em Educação)
______A utilização dos recursos da cartografia conduzida para uma África desmistificada. Humanidades. Brasília: Universidade de Brasília, 1989. p.12-32. v. 6 cap. 22.
ANJOS, Rafael Sânzio Araújo dos; CYPRIANO, André. Quilombolas: tradições e cultura da resistência. São Paulo: Aori Comunicações (Petrobras), 2006. 240p.