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Vacinação de lobos-guarás contra cinomose e parvovirose caninas

O que é a pesquisa?

O lobo-guará Chrysocyon brachyurus (Illiger, 1811) é uma das espécies mais típicas da fauna do Cerrado. Considerado espécie ameaçada de extinção, pode ser encontrado, também, nos Campos Sulinos, na Caatinga e no Pantanal. Tímido e solitário, o lobo-guará evita o contato com o homem. Apesar de se alimentar de frutas e de pequenos roedores e marsupiais encontrados nos campos e matas, esse animal sofre com a fama injusta de comedor de galinhas, o que o leva a ser perseguido e envenenado. Crendices populares – que atribuem ao lobo-guará poderes mágicos – ainda o fazem alvo de caçadas e a transformação do Cerrado em pastagens, para a criação de gado, e em campos agrícolas, principalmente para a plantação de soja, fazendo da perda de habitat natural uma importante ameaça à sobrevivência da espécie. Na busca por abrigo, água e alimento nas paisagens transformadas pelo homem, o lobo-guará acaba sendo vítima de atropelamentos nas rodovias, e de doenças – como a raiva, a cinomose e a parvovirose – que acometem os seus primos domésticos: os cães. E embora existam vacinas contra várias viroses caninas, não é comum a vacinação de cães domésticos nas áreas rurais, devido ao alto custo das vacinas, exceto contra a raiva, cuja imunização é gratuita.

O lobo-guará apresenta susceptibilidade a diversas doenças comuns aos cães e gatos domésticos, mas não se sabe, ao certo, o impacto dessas doenças nas populações de lobos livres na natureza. Os primeiros registros de lobos-guarás com cinomose e parvovirose caninas foram feitos por zoológicos nos EUA em 1956 e 1979, respectivamente. Dentre as doenças infecciosas mais comuns em lobos-guarás mantidos em cativeiro, essas doenças são as mais frequentes, sendo responsáveis por 5% das mortes de lobos-guarás em zoológicos.

A vacinação de animais selvagens com vacinas produzidas para animais domésticos sempre foi tida como uma prática controversa e polêmica, pelo temor da manifestação das doenças a vírus como consequência à vacinação. Isso porque algumas vacinas são produzidas a partir do vírus vivo. No processo de fabricação de vacina do tipo vírus vivo-modificado, o vírus passa por uma modificação, chamada de atenuação, que faz com que diminua a patogenicidade (capacidade de induzir a doença em um animal) sem perder a imunogenicidade (capacidade de induzir uma resposta imunológica pelo animal, com a produção de anticorpos). Os vírus são atenuados tendo em vista uma determinada espécie (por exemplo, o cão) e essa atenuação pode ser insuficiente para uma outra espécie (como o lobo-guará), apesar do parentesco. Na literatura veterinária, existem muitos registros de vacinas produzidas para animais domésticos que provocaram doenças, ao invés da proteção, em animais selvagens.

O objetivo desse estudo foi acompanhar a resposta pós-vacinal de lobos-guarás vacinados contra cinomose e parvovirose com vacinas vírus vivo-modificado, desenvolvida para cães domésticos, e avaliar a segurança e eficiência dessas vacinas para os lobos-guarás. A pesquisa foi desenvolvida pelo Laboratório de Virologia da Escola de Veterinária da Universidade Federal de Minas Gerais.

Como foi feita a pesquisa?

Amostras de sangue foram coletadas de 47 (22 machos e 25 fêmeas) lobos-guarás com idades variando de 3 meses a 12 anos – 33 adultos e 14 filhotes –, mantidos por seis zôos brasileiros: Fundação Zoobotânica de Belo Horizonte (MG), Parque Natural da Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (Araxá, MG), Jardim Zoológico de Brasília (DF), Zoológico de Curitiba (PR), Zoológico Municipal de Andradas (MG) e Fundação Rio-Zôo (RJ).

Após a coleta inicial de sangue, sob o mesmo esquema de vacinação para cães,  os lobos foram imunizados contra cinomose, parvovirose, leptospirose, hepatite e raiva com vacinas produzidas para cães domésticos. Coletas adicionais de sangue foram realizadas ao longo de 30 meses e os animais revacinados a cada 12 meses. O número de amostras de sangue coletadas de cada animal variou de 3 a 20, em intervalos variados após a vacinação, de acordo com disponibilidade das equipes de coletores dos zoológicos, e a fase reprodutiva dos animais, para não comprometer os acasalamentos e nascimentos de filhotes. As amostras de sangue foram coletadas nos próprios recintos onde os lobos eram mantidos, por meio da contenção física – feita por cambão –, sem comprometer o bem-estar dos animais e sem impor transtornos desnecessários à rotina de trabalho dos zôos. As amostras de sangue foram processadas para retirada do soro sanguíneo. As amostras de soro foram armazenadas a - 20ºC até a realização dos testes sorológicos. Foram testadas 352 amostras de soro para medir a quantidade de anticorpos – chamada de título – produzidos pelos animais após a vacinação. Para a detecção de anticorpos contra os vírus da cinomose e da parvovirose, foram utilizados, respectivamente, os testes soroneutralização e inibição da hemaglutinação. Os títulos de anticorpos dos lobos-guarás foram analisados, tomando como parâmetros títulos considerados protetores para cães domésticos. Os resultados da avaliação pós-vacinal demonstraram que dos 47 animais vacinados, 43 (91%) foram capazes de desenvolver títulos protetores contra o vírus da cinomose e 45 (96%) foram capazes de desenvolver títulos protetores contra a parvovirose.

Qual a importância da pesquisa?

A avaliação pós-vacinal demonstrou que os lobos-guarás foram capazes de responder à vacinação com vacina vírus vivo-modificado desenvolvida para cães domésticos, e que essa resposta pode ser mensurada por testes sorológicos padronizados para cães domésticos. Nenhum dos 47 lobos-guarás vacinados apresentou qualquer tipo de reação indesejável após a vacinação, sugerindo que a atenuação dos vírus vacinais foi suficiente e segura para os lobos-guarás. Isso, possivelmente, devido a sua proximidade filogenética (relação de parentesco) com o cão doméstico. A proximidade filogenética não é condição suficiente para garantir a segurança e eficácia do uso de uma vacina em espécies que apresentam parentesco com aquela para a qual a vacina foi desenvolvida. Todavia, pode ser o único referencial para a realização de estudos dessa natureza. A vacina vírus vivo-modificado utilizada provou ser segura para lobos-guarás, tanto para adultos quanto para filhotes. É importante mencionar que não foi observado qualquer prejuízo no sucesso reprodutivo das fêmeas por causa da vacinação e das coletas de sangue.

A vacinação de animais selvagens envolve riscos que devem ser avaliados em função dos benefícios que serão obtidos, já que as vacinas disponíveis são aquelas elaboradas para animais domésticos. A principal decisão envolve a questão de se usar uma vacina vírus vivo-modificado ou uma vacina inativada. Vacinas inativadas – por exemplo, a vacina contra a raiva –, embora induzam uma resposta imunológica menos duradoura, não apresentam risco de induzir a doença no animal vacinado. Quanto às vacinas vírus vivo-modificado, deve ser compreendido que os vírus vacinais são atenuados tendo em vista uma determinada espécie e que esta atenuação pode ser insuficiente para uma outra. Além disso, as amostras vacinais passam por processos de atenuação distintos, que vão determinar maior ou menor grau de patogenicidade de acordo com a sua capacidade de replicação nas células do animal vacinado e, por conseguinte, induzir uma resposta imunológica.

O potencial de virulência (potencial de causar a doença ao invés de induzir a proteção contra a doença) das diferentes amostras vacinais do vírus da cinomose, por exemplo, varia entre cães e outras espécies de carnívoros selvagens. Outro aspecto a ser considerado é a possibilidade do vírus vacinal infectar espécies susceptíveis próximas àquela vacinada, em coleções mistas de carnívoros. Vale lembrar que nas vacinas vírus-modificado os vírus estão vivos, infectam o organismo após vacinação, se reproduzem e são eliminados por meio de secreções enquanto os anticorpos são produzidos. O vírus vacinal produz uma doença branda no organismo, que é capaz de desenvolver uma resposta imunológica que o protegerá contra uma futura infecção pelo vírus causador da doença presente no ambiente. Ao se deparar com a necessidade de integrar espécies selvagens em programas de vacinação, o veterinário deve procurar, antes de qualquer decisão, responder às seguintes questões: Por que vacinar? Quando vacinar? Que tipo de vacina utilizar? Quais os riscos da vacinação? Qual o risco de exposição do animal ao agente causador da doença?

Não há registro de surtos de cinomose ou parvovirose em populações de lobos-guarás na natureza. O hábito solitário da espécie associado à ocupação de territórios extensos faz com que a densidade de lobos-guarás na natureza seja baixa, diminuindo, assim, a possibilidade do acometimento de um grande número de indivíduos durante eventual surto. Por outro lado, esta característica do comportamento dificulta a obtenção de dados sanitários das populações selvagens. Embora o impacto causado por doenças virais sobre lobos-guarás seja desconhecido na natureza, os resultados deste estudo fornecem subsídios para a vacinação, caso necessário, das populações selvagens em paisagens naturais consideradas sob risco, devido às fortes pressões antrópicas. O aumento das áreas destinadas à agropecuária e à crescente expansão das áreas urbanas podem levar a uma maior frequência no número de interações entre lobos-guarás e cães domésticos. Por isso, é preciso incrementar a fabricação de vacinas de baixo custo e o desenvolvimento de campanhas de vacinação de cães domésticos – principalmente nas áreas rurais –, não apenas contra a raiva, mas também contra a cinomose, a parvovirose e outras doenças frequentemente observadas nos cães e que acometem lobos-guarás e outros canídeos selvagens. Campanhas de educação devem, também, sensibilizar os cidadãos sobre a importância da conservação do habitat natural do lobo-guará, para que ele, assim como tantas outras espécies do Cerrado, não fique fadado à exclusividade do cativeiro, e os zoológicos não se transformem em museus vivos da fauna.

Texto de divulgação científica publicado em 19 de outubro de 2011.

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Glossário:
Antrópica: modificações provocadas pelo homem no meio ambiente.
Cambão: haste comprida de madeira, na qual se prende uma corda usada para amarrar, por uma das extremidades, o pescoço de um animal, dificultando-lhe o movimento e o impedindo de correr. É indicado para contenção de cães domésticos bravios e canídeos selvagens. Pode ser construído com haste de metal e cabo de aço revestido em PVC.
Cinomose: doença altamente contagiosa causada por vírus, que provoca danos aos sistemas respiratórios, digestório e nervoso e, frequentemente, leva à morte cães filhotes e adultos. A doença é transmitida por meio de secreções nasais e fezes de um animal doente para outro sadio. Os sinais clínicos mais observados na doença são febre, apatia, perde de apetite, vômito, diarreia, conjuntivite, falta de coordenação motora e convulsões. A cinomose foi observada em várias espécies, como focas, golfinhos, pandas-vermelhos e leões. Não há um medicamento específico para o tratamento da cinomose, o que torna sua cura difícil. A melhor maneira de proteger o cão contra cinomose é a prevenção por meio da vacinação.
Espécie ameaçada de extinção: espécie com alto risco de desaparecimento na natureza em futuro próximo.
Marsupial: espécie animal da classe dos mamíferos, que compreende, entre outros, os gambás, cuícas e cangurus, cuja fêmea é desprovida de placenta completa e dotada de marsúpio, bolsa localizada no ventre que contém as tetas e serve para carregar os filhotes.
Parvovirose: doença altamente contagiosa causada por vírus, que provoca danos ao sistema digestório e ao coração. Frequentemente, leva à morte cães filhotes. O vírus da parvovirose é resistente, podendo permanecer vários meses no ambiente sob condições favoráveis. A luz do sol e soluções de formalina ou de hipoclorito inativam o vírus. A doença é transmitida por meio de secreções nasais e fezes de um animal doente para outro sadio. Os sinais clínicos mais observados na doença são febre, apatia, perda de apetite, vômito, desidratação e diarreia hemorrágica. Pode ocorrer inflamação do coração. Outros vírus podem provocar sinais de gastroenterite hemorrágica semelhantes ao da parvovirose. Não há um medicamento específico para o tratamento da parvovirose, que consiste na hidratação, normalmente endovenosa, por meio de solução de sais minerais, glicose e vitaminas, e antibióticos. A melhor maneira de proteger o cão contra a parvovirose é a prevenção por meio da vacinação.
Puça: rede em forma cônica montada em um aro e presa a uma haste de metal ou madeira, usada para capturar vários tipos de animais.

Fonte: pesquisador responsável.