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Levantamento ecológico da Floresta Nacional de Caxiuanã, na Amazônia

O que é a pesquisa

 A Floresta Nacional de Caxiuanã, localizada na Amazônia Oriental, no municipio de Melgaço (Pará), a sudoeste da Ilha do Marajó, é uma extensa área de preservação ambiental, protegida por lei, e que abriga, entre outras iniciativas preservacionistas de alto nível, a Estação Científica Ferreira Penna, do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG). A estação destina-se especificamente ao estudo da sócio e bio diversidade e do funcionamento e manejo sustentado da floresta tropical.

Diante das ameaças de destruição do habitat amazônico, em função da exploração econômica e outras intervenções antrópicas (isto é, de origem humana) cientistas dos setores de Zoologia e Botânica do MPEG propuseram, juntamente com pesquisadores de outras instituições, realizar um levantamento biológico da FLONA Caxiuanã, visando sua proteção, bem como o fortalecimento de iniciativas de desenvolvimento sustentável na Amazônia, a produção de conhecimentos científicos aplicáveis em locais e situações assemelhadas e a formação de especialistas.

Assim, esta pesquisa visa:

1. Estimar a diversidade dentro da Floresta Nacional de Caxiuanã através da realização de inventários de grupos seletos de plantas, fungos e animais;

2. identificar a riqueza e os padrões de distribuição de espécies;

3. descobrir novas espécies (isto é, novos grupos taxonômicos, ou abreviadamente, novos taxa) para a Ciência;

4. contribuir para estudos filogenéticos, biogeográficos e de conservação, desenvolvidos em maiores escalas;

5. incrementar o desenvolvimento da capacidade institucional e intelectual na Amazônia Oriental através das pesquisas ecológicas, biogeográficas e sistemáticas;

6. produzir e disseminar informações sobre: biodiversidade da área, listas de espécies existentes e descrições das novas, chaves de identificação interativas, monografias, revisões e bancos de dados, disponibilizando as informações tanto em rede de livre acesso quanto impressas; e

7. fortalecer a Floresta Nacional de Caxiuanã como unidade de conservação , ao promover a Estação Científica Ferreira Penna como pólo de pesquisa científica e fornecer ao IBAMA dados vitais ao plano de manejo da FLONA.

Os pesquisadores responsáveis para cada grande grupo alvo são: Mário Jardim para plantas; Ana Lúcia Prudente para répteis; Marlucia Martins pelos artrópodos; Helen Sótão pelos fungos e Wolmar B. Wosiacki para o grupo de peixes.

Como é feita a pesquisa

 Quanto à abrangência taxonômica (número de espécies pesquisadas) os cientistas decidiram, diante da impossibilidade de realizar um inventário completo, concentrar-se num conjunto de grupos ditos focais, tomados como "grupos preditores" (isto é, que antecipam o que vai ocorrer) em relação ao conjunto dos seres vivos da área. Os grupos são diversos entre si do ponto de vista trófico (isto é, domponto de vista de sua posição na cadeia alimentar de alimentação), ecológico e taxonômico (isto é, de classificação das espécies).

De fato, o número de táxons (espécies) envolvido nos levantamentos não pode ser tão grande a ponto de inviabilizar o projeto. O critério de escolha dos grupos alvo do projeto foi sua representatividade e abrangência, acoplada ao máximo aproveitamento da competência instalada (especialistas) nas instituições participantes.

Os grupos escolhidos foram as Plantas Vasculares (árvores e lianas), os Fungos (ferrugens, orelhas de pau, etc), os Animais Invertebrados (abelhas, aranhas, besouros, colembolos, formigas, moscas, percevejos, vespas, e fauna de solo) e os Vertebrados (répteis, como cobras e lagartos, e peixes).

Para todos os grupos foram definidos métodos de amostragem padronizados, conforme três critérios principais: 1) ser um método comprovado, na teoria e na prática; 2) possibilitar um inventário detalhado e bem desenhado, com unidade de esforço amostral claramente definida, de modo a viabilizar estudos comparativos e; 3) obter, em tempo hábil para seu aproveitamento, resultados que contribuam tanto para a Ciência quanto para a Conservação.

Os métodos de coleta foram agrupados em 4 protocolos gerais, para plantas, fungos, artrópodes (como as aranhas) e répteis. O planejamento das atividades de campo (expedições) prevê que as amostragens dos 4 grupos sejam realizadas nos mesmos períodos e nos mesmos trechos de floresta.

A diversidade de grupos tão diferenciados taxonomicamente requer métodos de pesquisa cuidadosamente adaptados a cada um deles,e que os aspectos logísticos e as análise gerais das informações sobre diversidade sejam coordenadas de modo integrado.

Por isso, nesta pesquisa, os trabalhos de campo e gerenciamento das coleções são orientados pelos coordenadores de cada área (plantas, animais e fungos) e um pesquisador associado ao projeto a titulo de pós-doutorado, experiente em prática e análise de inventário biológico.

Os coordenadores da pesquisa disponibilizam as informação pela Internet, com apoio da área de informática do MPEG. Os bolsistas de nível superior supervisionam o manejo das espécies e do banco de dados, a manutenção da página do projeto na rede, e o trabalho dos técnico e bolsistas de nível médio,

Na Estação Científica Ferreira Penna os bolsistas de nível superior também cuidam dos aspectos logísticos e coordenam os parataxonomistas (técnicos classificadores de nível médio) e os estudantes ligados ao projeto.

A coordenação da pesquisa também responde pelo cumprimento dos acordos de financiamento com instituições estrangeiras, pelos tratados e estatutos assinados e pela estrita observância dos termos da Convenção da Diversidade Biológica .

Boa parte do trabalho de campo está a cargo dos parataxonomistas e estudantes (de graduação e pós graduação). Todos o pessoal é treinado em encontros de trabalho em Belém e na Estação Científica Ferreira Penna, com a participação dos cientistas colaboradores do projeto.

Todas as expedições contam com a presença de um ou mais pesquisadores coordenadores do projeto. Embora as atividades de coleta venham a se desenvolver ao longo de todo um ano, elas serão variáveis em intensidade, de acordo com os distintos protocolos de coleta dos diferentes taxa. Os bolsistas de iniciação científica ficam diretamente ligados às atividades dos pesquisadores-orientadores, podendo ou não participar das saídas de campo.

Importância da pesquisa

 Este projeto alimentará, de imediato, produtos eletrônicos (dados digitais) a serem veiculados na rede do MPEG e na Internet, em Inglês e Português (por enquanto só está disponível a versão em português) para livre acesso dos usuários.

Os dados serão gerados em diferentes formatos, incluindo manuscritos, listas, descrição de espécies novas, chave de identificação interativa ilustrada, imagens digitalizadas do campo e do laboratório, curvas de acumulação de espécies, e estimativa da riqueza de espécies dentro de Caxiuanã (ver abaixo o endereço eletrônico da página do projeto na Internet).

Dados de espécimes de plantas e fungos serão inseridas na base de dados digitais do Departamento de Botânica do MPEG, e em seguida transferidos para a EMBRAPA e para a base de dados TROPICOS (que continha 816.798 registros de nomes de plantas e 1.516.210 registros de espécimes em 1º de setembro de 2000 e que cresce à razão de 150.000 referências por ano).

Dados de espécimes animais serão inseridas na base de dados do Departamento de Zoologia do MPEG. Todos os dados sobre espécies serão inseridos na rede para uso de pesquisadores do mundo todo, incluindo fotos digitais.

Os resultados do projeto, incluindo as descrições das novas espécies, listas completas das espécies encontras nos grupos focais, monografias sistemáticas e informações biológicas sobre os grupos estudados, serão publicados nos jornais e revistas científicas apropriadas. Também serão produzidos artigos de divulgação científica e os resultados do projeto serão incorporados às cartilhas e material didático produzido pelo programa de educação do MPEG para as comunidades residentes na área de abrangência da Estação Científica Ferreira Penna.

Este projeto representa um dos mais extensivos inventários tróficos, ecológicos e taxonômicos da biodiversidade terrestre da Amazônia. Os resultados do projeto produzirão uma figura clara da diversidade da vida em um único sitio de qualquer parte da bacia Amazônica. Tais informações irão fortalecer a Floresta Nacional de Caxiuanã como unidade de conservação sustentável e irão, acima de tudo, fornecer aos planejadores e gestores da política de conservação dados consistentes e de fácil compreensão, vitais para apoiar o esforço de conservação da biodiversidade da Amazônia Brasileira.

Adicionalmente, os dados poderão ter implicações que transponham as fronteiras nacionais, em termos da sua contribuição para a compreensão e avaliação da diversidade da vida no planeta.

A abrangência taxonômica do projeto é ainda modesta face à enormidade de grupos taxonômicos importantes, mas sua estrutura modular permite a disseminação e ampliação dessa abrangência. Uma vez que o modelo testado neste projeto se estenda além de Caxiuanã, será possível enfrentar questões mais amplas sobre os padrões de distribuição da diversidade na Amazônia.

Finalmente, o projeto se destaca pela formação de estudantes e recursos humanos especializados, garantindo a continuidade destes esforços no futuro.

Texto de divulgação científica publicado em 19 de fevereiro de 2004.