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Neurocientista defende práticas educacionais baseadas em evidência

Foi com uma bolsa do Ibict que o então adolescente Sidarta Ribeiro visitou o Pantanal pela primeira vez. A viagem, guiada por geólogos e biólogos, deixou no jovem Sidarta uma marca duradoura, que contribuiu para sua decisão de se tornar um cientista.

Reconhecido internacionalmente, o neurocientista brasileiro, nascido e criado em Brasília, lidera hoje um grupo de pesquisas no Instituto do Cérebro na UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte). Seu grupo investiga principalmente o papel do sono no aprendizado.

Além da pesquisa no laboratório, Sidarta é um ativo educador e divulgador de ciência. Junto com outros cientistas da América do Sul, organizou a Escola Latino-Americana de Educação, Ciências Cognitivas e Ciências Neurais, evento anual que reúne pesquisadores de ponta e estudantes para discutir possíveis aplicações de achados de neurociências em novas práticas na sala de aula. Em 2014, o evento foi realizado entre 10 e 21 de março em Punta del Este, no Uruguai.

Em entrevista ao Canal Ciência, o cientista fala sobre a motivação para organizar esse tipo de evento, os desafios de implementar mudanças na educação de educadores no Brasil e algumas possíveis maneiras de melhorar o aprendizado.

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Canal Ciência - Como surgiu a ideia para a realização da Escola Latino-Americana de Educação, Ciências Cognitivas e Ciências Neurais?

Sidarta Ribeiro - Em 2009, organizamos no Chile uma reunião com outros pesquisadores latino-americanos para discutir problemas relacionados à educação. Muitos dos problemas na educação brasileira são compartilhados por outros países da América Latina.

Uma das propostas apresentadas foi a de criar um espaço em que pesquisadores de ponta, tanto da América Latina quanto de universidades dos EUA e Europa, pudessem se encontrar com pesquisadores e educadores latino-americanos mais jovens para compartilhar experiências. Elaboramos um projeto e conseguimos financiamento da Fundação James S. McDonnell, instituição filantrópica norte-americana que busca disseminar conhecimentos em neurociências para a sociedade.

Quais são os principais objetivos desse tipo de evento?

O principal objetivo é formar um novo modelo de professor e pesquisador. A ideia é munir jovens talentos com informações sobre os avanços mais recentes em neurociências, psicologia e educação para que possam iniciar seu trabalho docente usando técnicas de ensino atuais e previamente testadas com rigor científico.

Outro objetivo é promover a cooperação entre pesquisadores. Muitos dos achados de laboratório ainda precisam ser testados em sala de aula. Eventos como esse ajudam a colocar em contato cientistas das áreas básicas da neurociência e psicologia com educadores que conhecem de perto o dia a dia desde a pré-escola até o ensino superior. Em particular, gostaríamos de estimular uma nova cultura de práticas educacionais baseadas em evidências. Infelizmente, muitas das práticas aplicadas em sala de aula hoje em dia são pouco eficazes e se chocam com o que sabemos sobre o cérebro.

Poderia citar algum exemplo?

Algumas características pouco eficazes do modelo atual são o excesso de conteúdo e a longa duração de aulas. É muito difícil para crianças e adolescentes manterem sua atenção focada em um professor durante períodos extensos. Além disso, só uma quantidade muito pequena da informação apresentada em aula acaba sendo retida no longo prazo. Dados experimentais confirmam essas observações do senso comum. Se essas características do modelo atual são pouco eficazes – e sabemos disso há muito tempo – por que ainda mantemos esse modelo?

Outra prática que se choca com o que sabemos sobre o cérebro é o horário de início das aulas. O sono é fundamental para a atenção e a memória. Na adolescência, os alunos passam por mudanças hormonais que alteram seu ciclo vigília-sono, e isso tem um impacto direto sobre seu aprendizado. Essas necessidades biológicas, no entanto, são ignoradas ao se forçar esses alunos a chegarem sonolentos à escola às 7h30. Estudos recentes confirmam isso: atrasar o início das aulas para as 9h resulta em um aumento significativo no desempenho escolar de alunos nessa faixa etária.

Na sua opinião, quais são os maiores desafios para implementar algumas dessas mudanças na educação brasileira?

Há vários obstáculos, a começar pela questão da organização social. O horário atual de início das aulas, por exemplo, é conveniente para os pais porque facilita suas vidas. Eles podem deixar os filhos na escola antes de irem ao trabalho. Mudanças desse tipo são difíceis de implementar, pois requerem ajustes que envolvem toda a sociedade, não apenas a escola.

Mas há outras mudanças que me parecem mais factíveis. A primeira envolve uma valorização da carreira de professor. Os salários de professores no Brasil são muito baixos. É fácil entender por que jovens talentosos prefiram enveredar por outros caminhos que não o da educação. Nesse aspecto, a atuação do Estado – com planos de carreira mais atraentes para professores do serviço público – é crucial para tornar a profissão mais atraente.

A segunda mudança envolve a formação dos professores. E é aqui que estamos tentando fazer a diferença. Gostaríamos de mover a discussão de uma ênfase excessivamente teórica para práticas empíricas. Precisamos testar diretamente em sala de aula a eficácia de diferentes teorias e metodologias. Também precisamos estar abertos a possíveis surpresas geradas pelos dados obtidos, pois algumas vezes os resultados são contra-intuitivos.

A instrução de professores no Brasil envolve o pouco treinamento em aspectos mais experimentais e quantitativos da prática educacional. Professores recém-formados acabam saindo da universidade sem uma visão panorâmica do que existe disponível. Hoje enfrentamos nas escolas de pedagogia um confronto ideológico, não um confronto empírico. Propagam-se ideias com pouco embasamento experimental. O problema é que, em muitos casos, simplesmente não sabemos se determinadas práticas são eficazes ou não. Algumas discussões acadêmicas são infinitas; prestar atenção aos dados e ao que eles dizem poderia ajudar a mover adiante algumas dessas discussões.

A que se deve essa ênfase em teorias educacionais com pouca base empírica?

Um dos possíveis motivos é a influência das ideias de Paulo Freire [pedagogo brasileiro] nas escolas de educação. Embora muitos aspectos de seu trabalho sejam relevantes, é importante notar que ele não era uma pessoa dogmática. Apesar disso, muitas escolas usam suas teorias de forma dogmática, sem levar em conta se a implementação dessas teorias está realmente facilitando o aprendizado do aluno.

A discussão sobre métodos de alfabetização é um exemplo. Existe uma corrente forte no Brasil promovendo o método global. Segundo esse método, os alunos devem ser expostos a palavras, sentenças ou mesmo textos inteiros antes de saber ler. A ideia é que o aluno se familiarize com o registro escrito e que descubra aos poucos as regularidades da língua, em um processo de construção do conhecimento. O problema é que esse método se mostrou inferior quando comparado a outro método que foca na consciência fonológica do aluno. Nesse método, chamado de fônico, o professor enfatiza a distinção entre diferentes sons da língua e em como esses diferentes sons são mapeados em letras e sílabas.

Pesquisas recentes em neurociências explicam inclusive por que o método fônico é mais eficaz: ao enfatizar a fonologia e os símbolos da língua, o aluno acaba criando no cérebro uma espécie de mapa que lhe permite rapidamente decodificar os símbolos (sílabas das palavras). Essa rapidez de decodificação facilita a compreensão do texto. Com a abordagem global, a criação desse mapa é dificultada, resultando em um processo de alfabetização mais demorado e, possivelmente, mais doloroso.

Se sabemos que um método funciona melhor que outro, por que não adotá-lo? Um dos motivos é a ideologização do debate. Em vez de prestar atenção aos experimentos e aos dados, muitos educadores preferem apoiar-se em suas próprias intuições, mesmo quando elas são refutadas pela realidade. É triste pensar que justamente as crianças mais carentes, aquelas que mais se beneficiariam de um processo de alfabetização eficaz, são justamente as mais propensas a serem ensinadas por meio de um método experimentalmente inferior.

A baixa base empírica da prática educacional no Brasil também se deve à escassez de dados. Para obtê-los, precisamos fazer parcerias com escolas e tentar introduzir algumas práticas controladas em sala de aula para avaliar seu impacto. Acontece que muitos diretores de escola, embora se digam abertos ao aprendizado por meio de experimentos, sentem-se pouco confortáveis quando pedimos para “fazer um experimento” na sua escola. É crucial que as escolas estejam abertas ao diálogo e ao trabalho com cientistas. Todos temos a ganhar.