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Oscar Sala

(1922)

Entrevistas e texto de Amélia Império Hamburger (Instituto de Física/USP).

As realizações de Oscar Sala são muitas e marcam, pela natureza pioneira e pela fertilidade de desdobramentos, um significado social persistente.

Sala foi um dos primeiros alunos de Gleb Wataghin, que o introduziu, ainda estudante, na pesquisa em física. Formou-se na primeira turma de física, juntamente com Elza Gomide. A convivência na Faculdade de Filosofia formava um ambiente animado e propício a fazer emergir a criatividade dos jovens recrutados por Wataghin na implantação do Departamento de Física da recém-fundada Universidade de São Paulo.

Já assistente de Marcelo Damy, em 1946, Sala foi para os Estados Unidos onde realizou suas primeiras pesquisas em reações nucleares com aceleradores de partículas. Com bolsa da Fundação Rockefeller, trabalhou inicialmente com M. Goldhaber, na Universidade de Illinois, realizando vários trabalhos sobre núcleos isômeros. Foi depois, em 1948, para a Universidade de Wisconsin, onde, com R. Herb projetou o acelerador eletrostático, tipo Van de Graaff, para São Paulo.

Nos Estados Unidos casou-se com Rosa Augusta Pompiglio, Dona Rosinha, que conhecera em Campos do Jordão quando realizava pesquisas em raios cósmicos. Têm os filhos Luiz Roberto, Regina Maria e Thereza Cristina, e seis netos.

A construção e organização de laboratórios experimentais de pesquisas em física nuclear, desde o fim dos anos quarenta e começo da década de cinqüenta, tem sido uma atividade constante de Sala até hoje, aos 76 anos de idade. Nas palavras de seu filho, "é sua segunda família."

A orientação desses centros de pesquisa é sua contribuição direta e profícua para a física nuclear no Brasil, para a formação de pesquisadores, muitos dos quais diversificaram, mais tarde, seus campos de trabalho. Uma idéia norteadora dos projetos de Sala é que os laboratórios experimentais são centros de uso e inovação da tecnologia do país e, portanto, núcleos de inserção da pesquisa científica nos setores produtivos da sociedade. Assim tem mantido contatos com indústrias e firmas comerciais específicas, e, a partir do aproveitamento, nos laboratórios, de conhecimentos técnicos especializados disponíveis, promove-se seu aperfeiçoamento.

Entretanto, é importante notar que essa atividade de tempo integral do professor Sala se alimentou e foi alimentada por participações em instituições fundamentais para a comunidade científica brasileira. Por exemplo, a Sociedade Brasileira de Física, para a qual contribuiu na idéia original e na redação dos estatutos. Foi eleito primeiro presidente, na assembléia de fundação, em Curitiba, 1966, e promoveu, em 1967, a primeira eleição geral.

Foi eleito presidente da Sociedade Brasileira pelo Progresso da Ciência em 1973 e reeleito, exercendo até 1979. Foram gestões que compreenderam anos de intensa atividade intelectual que se desenrolava como arena política em defesa da educação, da ciência e da consciência crítica do país, que estava sob regime militar. Cercado de cientistas representativos da ciência brasileira, Sala mostrou disposição para o diálogo, ao mesmo tempo que rejeitou o arbítrio e a interferência nas questões da ciência.

O desenvolvimento da ciência em São Paulo e no Brasil sempre foi seu lema de atuação. Em suas palavras, nunca se ligou a partido político, nem pertenceu à esquerda ou à direita. Essa posição neutra facilitou a mediação, muitas vezes difícil, com vários governos militares, em defesa da produção científica e na solidariedade a colegas que ficaram em situações de constrangimento.

Dona Rosinha juntou um dossiê de recortes de jornais das reuniões anuais da SBPC, principalmente daquela em 1977, que foi proibida pelo governo militar de se realizar em Fortaleza, e que aglutinou toda a comunidade científica em firme, coesa e decisiva atuação para conseguir realizá-la em São Paulo. São documentos para muita reflexão e apreensão do significado dessas ações coletivas conscientes, em que os mais significativos cientistas brasileiros fizeram juz à sua própria tradição de construção e defesa das condições para a realização e divulgação do trabalho científico no país. A entrevista de Sala à imprensa, apoiado publicamente pelas variadas manifestações dos cientistas de todo o país, vista de hoje, parece perfeita em sua serenidade e precisão frente às forças da violência e do obscurantismo. Está reproduzida abaixo. Ainda hoje as notícias e as fotos são emocionantes, e é muito provável que aquelas reuniões dramáticas que mantiveram viva e forte a sociedade representativa dos cientistas brasileiros, em nome do direito e da liberdade de se fazer a melhor ciência no Brasil, tenham alicerçado uma abertura política que vinha em curso.

A atuação de Sala na Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo, tem também significado destacado. A Fapesp é uma instituição cuja existência tem ressaltado a vitalidade da comunidade científica paulista. Em 1947 foi votada pela Assembléia Legislativa de São Paulo a criação de fundos para a pesquisa com dotação de 0,5% da arrecadação do imposto sobre o consumo. Em l960, foi implantada por lei, e em 1962 iniciou suas atividades numa estrutura original de poderes autônomos e interdependentes. Em 1969, a Fapesp foi atingida pelo Ato Institucional n° 5, e Sala conta que, atendendo a chamado do professor Ulhoa Cintra, reitor da Universidade de São Paulo e presidente do conselho da Fapesp, assumiu a diretoria científica no sentido de garantir a continuidade da fundação. Sala entranhou-se à estrutura da fundação, tendo passado por vários dos cargos, exercitando sua capacidade administrativa e seu poder de decisão. Foi diretor científico de 1969 a 1974 e presidente do Conselho superior de 1989 a 1993 e sobre essa prática discerne os papéis das várias instâncias de decisões e uma visão sobre a política científica que define como pragmática.

Sala foi catedrático da cadeira de Física Nuclear da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo e titular, e Professor Emérito do Instituto de Física. Por mais de quinze anos dirigiu o laboratório do acelerador eletrostático Van de Graaff. Participou do projeto e dirigiu a montagem do acelerador Pelletron, inaugurado em 1972. Foi orientador de muitas teses de mestrado e doutorado, nas áreas de espectroscopia e reações nucleares com feixes de partículas pesadas, aceleradores nucleares, ultra alto vácuo e instrumentação. Sobretudo proporcionou condições de trabalho para bolsistas e pesquisadores de outros Estados brasileiros e de outros países. Os laboratórios que conduziu mantiveram sempre atividades de colaboração nacional e internacional, além de ser um lugar de saudáveis interações entre físicos teóricos e experimentais.

Entre os primeiros estudantes que trabalharam na construção do acelerador eletrostático e seus sistemas de controle, encontramos Moysés Nussenzveig, Ernesto Hamburger, Ewa Cybulska, Newton Bernardes, Amélia Império, e, logo depois, Olácio Dietzsch, Betty Pessoa, Fernando Zawislak. Tivemos formação diversificada e disciplinada com Sala, Phillip Smith, John Cameron, Ross Douglas e fomos o grupo pioneiro na montagem da máquina, do equipamento e nas primeiras pesquisas. Sempre vimos Sala trabalhar dez horas por dia no laboratório, acompanhando todos os detalhes de organização, administrando impecavelmente as oficinas, o almoxarifado, as compras, a secretaria, os estudantes, os professores visitantes. Sempre prestigiou o trabalho dos funcionários, administrativos e técnicos, que dão apoio à pesquisa tanto no laboratório como na secretaria, e essa é uma postura que garante a qualidade dos serviços e assegura o ambiente de equipe de trabalho.

Também participou ativamente do CNPq. Sala fundou, em 1974, em Recife, e foi primeiro presidente da Associação Interciência das Américas (1975-1979). Foi ainda presidente da Academia de Ciências do Estado de São Paulo (1985-1987) e vice-presidente (1981-1991) e presidente (1991-1993) da Academia Brasileira de Ciências. Recebeu muitas medalhas e prêmios, inclusive da SBPC (1973), o "Moinho Santista", em 1981, CNPq (1981), Comissão Nacional de Energia Nuclear (1987), e a Grã Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico (1994).

Como construtor e organizador de laboratórios experimentais de física nuclear, Sala interagiu nas esferas da indústria e comércio que participaram dessas iniciativas. Essas interações trouxeram desenvolvimentos recíprocos inesperados. Um deles é a origem da máquina que está sendo construída atualmente no Instituto de Física. Como contou Sala, há poucos dias, começou com sua viagem à União Soviética no início dos anos 80, como físico e assessor da firma produtora de nióbio no Brasil. A viagem tinha por motivação o interesse dos russos em fazer aço de qualidade especial, contendo esse metal. Estreitaram-se as relações com a firma brasileira e, juntando as idéias da necessidade de outra máquina e de observações em outros laboratórios, se configuram as características de um novo acelerador.

Este perfil de Oscar Sala se encerra com seu depoimento sobre a construção dessa máquina. Uma história que mostra hoje, a surpreendente vivacidade do homem que sofreu sério derrame cerebral há sete anos e se recuperou, com sorte, apoio familiar sem reservas e outros apoios importantes, e sua grande força, determinação e inteligência frente à própria vida.

Pelas circunstâncias, este perfil reúne depoimentos dados pelo professor Sala a Amélia Império Hamburger, em várias ocasiões: em 1998, à Praça Buritama, 48, março 27; em 1997, juntamente com Marilda Nagamini, Laboratório Pelletron, abril 25; em 1990, com Penha Cardozo Dias, Laboratório Pelletron, julho 30. A colagem foi aprovada pelo professor Oscar Sala em abril de 1998.

Como o senhor se decidiu entre a física e a música?

"Amélia, vou contar uma historinha: meu pai nasceu em Descalvado, Estado de São Paulo. Foi assistente de um grande alfaiate, Carnicelli, famoso em São Paulo. Meus avós eram italianos. Meu pai, desde cedo, era apaixonado por música. Viu a guerra de 1914 como uma oportunidade para ir estudar na Itália. O governo italiano, nas circunstâncias, pagou-lhe a passagem. Mas em vez de estudar música meu pai ficou quatro anos na guerra. Depois casou-se com uma prima, Giulia, e nasci, em Milão, em 26 de março de 1922. Logo mais meus pais voltaram para o Brasil onde meu pai continuou a ser alfaiate.

Estudei no Ginásio Guedes de Azevedo em Bauru, Formei-me em piano no Conservatório de Bauru, assim como meu irmão Oswaldo, nascido no Brasil, Nos exames finais foi uma comissão de avaliação do Conservatório de São Paulo, entre eles Frutuoso Vianna que me ofereceu uma bolsa de estudos de aperfeiçoamento. Respondi que ia fazer exame vestibular na Escola Politécnica, e se entrasse iria fazer engenharia. Como entrei, meu destino de músico não se realizou. Nunca mais toquei piano, só ocasionalmente, e há muito tempo nem o piano tenho em casa."

Temos um depoimento seu, de 1990, quando fizemos, com Ernesto Hamburger e Penha Cardozo Dias, a exposição e simpósio de comemoração da descoberta dos chuveiros penetrantes por Wataghin, Damy e Pompéia. O senhor conta sobre sua vinda para os estudos de física, suas primeiras experiências com Wataghin, em raios cósmicos e a passagem para a física nuclear de aceleradores, que transcrevemos aqui:

Como o senhor passou para a física?

"Meu primeiro contato com a física foi com a expedição Compton, que veio ao Brasil em 1940, 1941.

Naquele tempo, principalmente quem era do interior, assim que terminasse o ginásio ia fazer medicina, engenharia ou odontologia. Assim, vim fazer engenharia e entrei na Politécnica, Quando estava de férias em Bauru, no campo de aviação havia uma grande movimentação com os balões que eram soltos a grandes altitudes para medirem a radiação cósmica. Um dia estava lá vendo e comecei a conversar com um senhor, que era justamente o Wataghin. Eu já tinha lido um pouco sobre radiação cósmica e fiz algumas perguntas a ele. Estranhou um pouco um caipira estar lá querendo saber de física. Perguntou o que eu fazia, e afinal me convenceu a sair da Poli e eu entrei na Física, parte da Faculdade de Filosofia.

Logo depois que entrei, em 1941, o Brasil entrou na guerra e o Damy, que estava na Inglaterra, e o Pompéia em Chicago, voltaram, e assumiram no Brasil o projeto Sonar, da Marinha do Brasil, para detecção de submarinos na costa brasileira. O Wataghin estava interessado em continuar as experiências sobre os chuveiros penetrantes de raios cósmicos, que, publicadas em 1940, davam a Wataghin, Damy e Pompéia a descoberta de que as partículas detectadas não eram de origem eletromagnética, mas eram provenientes de condições energéticas nucleares... Wataghin se propunha a estudar os chuveiros produzidos localmente, quer dizer, perto do ponto onde se dava a colisão, para saber se havia produção múltipla de partículas... Durante a guerra trabalhei sozinho com o Wataghin, construindo todos os circuitos dos contadores Geiger, que tínhamos de boa qualidade, deixados no Departamento pela expedição Compton. Fizemos os primeiros testes no laboratório, na Física, que era na avenida Brigadeiro Luiz Antônio, 124 (...) Fizemos a montagem e começamos as medidas, no ático da Faculdade de Medicina como primeiro ponto da curva de absorção em função da altura. O nosso arranjo era constituído de chumbo, para eliminar os "chuveiros" de origem eletromagnética, e sobre esse chumbo colocávamos grande quantidade de parafina ou água. Os "chuveiros" produzidos nessa parafina, ou água, então eram showers localmente produzidos. Eram medidas demoradas, levavam dez meses contínuos. Fizemos as medidas aqui e depois fomos para Campos do Jordão, perto do Pico de 2000 e tanto, quase três mil metros, no Umuarana, para registrar um outro ponto, e depois fizemos medidas com aviões da FAB. Os resultados foram publicados, em trabalhos de 1944/45. O importante, nesse período, é que trabalhei praticamente sozinho, pois o Wataghin era um teórico. Eu cuidava das experiências na Medicina, em Campos do Jordão e assim por diante. Mas eu tinha uma interação muito grande com o Damy e o Pompéia, principalmente, e, como físicos experimentais, eu discutia muito com eles. Por causa disso , também como eles comecei a participar da parte da defesa, construindo para o exército um transmissor portátil que foi levado para a Itália [com a Força Expedicionária Brasileira, que lutou contra o "Eixo" Itália, Alemanha, Japão, na segunda guerra mundial (1941-1945)].

Mas o importante era o seguinte: era um departamento pequeno, eu o único experimental, fora o Damy e o Pompéia que estavam no projeto da Marinha, tinha o Walter Schutzer, o Lattes, a Sônia Ashauer, o Abrahão de Moraes, o Mario Schenberg, e existia um ambiente excepcionalmente bom, onde as pessoas se encontravam diariamente. Havia grande interesse em saber o que cada um estava fazendo, contar seus resultados, e se discutia física intensamente no Departamento. Eu acho que foi a grande coisa, esse tipo de ambiente que o Wataghin proporcionou foi a razão do sucesso da física no Brasil. Foi extremamente importante para a formação da gente, por exemplo eu, que não tive tempo nem de assistir aula, o que não fiz foi assistir aula no Departamento, mas aprendi conversando com o Schenberg, com o Wataghin, com o Damy, com o Abrahão de Moraes, e todos os outros.

E como foi a passagem para a área da física nuclear?

Logo depois da guerra os chefes de Departamento decidiram que era importante entrar na física nuclear. (...) O Damy foi para os Estados Unidos com o Wataghin, e, com apoio financeiro do Rockefeller compraram o Betatron. Tinham mais ou menos decidido que o Departamento de Física deveria se dedicar mais à física nuclear. Certo ou errado, não sei, enfim, foi decisão deles... Me valeu muito a experiência com a radiação cósmica. Acho até que fui um precursor dos circuitos multicanais para a medida de vidas médias curtas, quando queria medir a vida média do méson, projeto que não cheguei a realizar. (...) Mas sempre estive mérito ligado aos raios cósmicos... segundo a declaração do Lattes num jornal que ele me mandou há um ano atrás, eu cheguei perto do méson pi, mas não tinha condições de identificá-lo com contadores Geiger.

...Fui para os Estados Unidos. Me mandaram fazer física nuclear lá.

Uma coisa que o senhor sempre enfatizou, inclusive numa aula que deu, a meu convite, num curso de Física Aplicada há vários anos atrás, é a contribuição que os laboratórios de pesquisas experimentais podem dar ao país introduzindo inovações tecnológicas. O senhor lembraria exemplos dessa relação na construção de aceleradores que o senhor dirigiu?

A Física Nuclear tinha e tem hoje importância tecnológica.

O Van de Graaff foi o primeiro acelerador construído fora dos países avançados. Foram usados na construção, entre outros, o parque da Aeronáutica. Na indústria, a White Martins, que naquela época só fabricava oxigênio, entrou na parte de criogenia e passou a fabricar nitrogênio líquido. O tanque do Van de Graaff foi feito pela Bardella e foi o primeiro tanque grande e de pressão feito no Brasil. Trouxeram um engenheiro para isso. A Bardella usinou também o analisador eletrostático.

O primeiro curso de radioisótopos da Faculdade de Medicina, promovido pelo casal Eston de Eston, era para ser dado por um professor inglês que traria seu equipamento. Entretanto, esse equipamento não chegou, e foi construído no Van de Graaff e na indústria brasileira, na Imbelsa, que hoje é da Phillips. A Imbelsa era de um "caboclo brasileiro", na origem foi uma firma de fundo de quintal. Era do Abdulcai, que depois fez a Imbelsa e trabalhou para o programa dos "sonares" durante a guerra. Os técnicos das oficinas do Van de Graaff eram professores da escola Getúlio Vargas.

Das pessoas que trabalharam lá, vários foram abrir empresas, Ari Rodrigues, a fábrica de ímãs, com um sócio também formado em física; Rudolph Thom a fábrica de "scalers", a Brasele; Adolfo Leirner fabricou eletrocardiógrafos (e depois estudou medicina).

A física nuclear contribuiu para o desenvolvimento do país.

Vamos falar um pouco da SBPC e da Fapesp. A sua geração tem sido também lutadora nas sociedades científicas e nas instituições de fomento à pesquisa. Os seus mandatos de presidente da SBPC marcaram tempos memoráveis de solidariedade da comunidade científica chegando a momentos dramáticos. Como o senhor vê aquele tempo, vinte anos depois?

O importante é que a SBPC não morreu. O duro naquela época era a divisão extrema-direita e extrema-esquerda. Teve altos e baixos. Conseguimos ultrapassar os dias difíceis. Foi importante conseguirmos aglutinar as sociedades científicas. Esse é um papel da SBPC, congregar as outras sociedades.

Vou ler uma declaração sua que a Folha de São Paulo de 26 de junho de 1977, publicou quando a SBPC fazia esforços para realizar a reunião anual que tinha sido proibida pelo governo

"É preciso, antes de mais nada, deixar claro que a SBPC, ao insistir na realização da 29a. reunião anual, não pretende desafios ou confrontos. O que ela pretende é dar oportunidade aos cientistas de apresentarem seus trabalhos. É uma prestação de contas, do que eles fazem, ao Governo, e, principalmente, a todo o público que paga o nosso trabalho através dos impostos. (...) A SBPC quando apresentou o pedido ao reitor (da USP para a realização da reunião no campus), não pretendeu fazer qualquer forma de pressão. Qualquer que seja sua decisão, da parte da Diretoria não haverá crítica. Na condição de professor da USP só posso lamentar não poder apresentar aqui tudo o que fizemos no ano passado... Havendo resposta negativa, ou se não houver resposta do reitor, deveremos procurar outro local, provavelmente a PUC."

Muito bom. Está certo. E fui falar com D. Paulo.

E D. Paulo Evaristo Arns, em 1996, respondia a uma enquete de A Folha (19 de fevereiro, caderno Brasil, p.11) que a notícia que mais marcou sua vida foi a da abertura da SBPC de 1977, na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

Foi também emocionante a reunião anual, finalmente em Fortaleza em 1979, onde estavam presentes muitos dos cientistas cassados então retornando às atividades no Brasil. O reconhecimento do seu papel está no discurso de posse da nova diretoria da SBPC, que foi proferido pelo professor Angelo Barbosa Machado, vice-presidente, pela ausência do presidente eleito, impossibilitado por doença, como está nos jornais: "Os momentos difíceis mas de grande beleza, nos quais a ponderação aliada a uma grande firmeza e discernimento contribuíram para a solução da crise ... Por sua atuação nos momentos de tranqüilidade e nos momentos de Crise, Oscar Sala granjeou todo o respeito e admiração de toda a comunidade científica brasileira".

Isso é bondade dele.

Mas também a própria imprensa escrevia : "... o professor e físico Oscar Sala, que passa a presidência da SBPC ao professor José Reis, recebeu pela manhã a imprensa para uma coletiva. Nada de excepcional há nisso... tendo presidido a SBPC por seis anos consecutivos, acostumou-se ao assédio dos repórteres, ... no entanto Sala ontem tinha a feição tranqüila, um ar de quem tem o dever cumprido... [vimos] o mesmo homem de sempre, cuja cultura, o conhecimento e a contribuição que deu ao Brasil, seja como físico, seja como professor e seja como presidente da SBPC... " E a voz do Povo, o nome do jornal de Fortaleza. O senhor diz nessa mesma entrevista: E claro que a SBPC, como uma instituição científica, participa de um momento político, influenciando-se por ele. Não é possível o divórcio do pesquisador com os problemas que a sociedade para que possam discutir os resultados de suas atividades científicas, e assim está indiretamente promovendo a ciência."

Você escolheu a fala certa. É isso mesmo que eu penso.

Na Fapesp também sua atuação tem sido contínua e importante. O senhor entrou num dos momentos mais tristes da pressão dos militares sobre a comunidade acadêmica, quando o professor Alberto Carvalho da Silva, que era diretor científico, foi afastado pelo Ato Institucional número 5.

Fui para a Fapesp a chamado do reitor Ulhoa Cintra que me disse que se não aceitasse a Fapesp iria ser fechada. Durante mais de um ano fui à casa do Alberto todas as semanas, para discutir diretrizes, e criamos uma amizade muito grande. Sou feliz por ter conseguido tirar o nome do Alberto da lista. Tirei o nome dele da lista [dos militares].

O senhor ficou muitos anos na Fapesp?

Eu fui Presidente do Conselho Superior durante o tempo máximo permitido (pelos estatutos), ou seja, doze anos. Foram seis anos e fui reeleito por mais seis. Fui também Diretor Científico. Conheço bem a Fapesp. Passamos momentos difíceis, mas agora o Governo mesmo enxerga a Fapesp. Olha aqui, deve-se dizer que Governo nenhum atrapalhou a Fapesp. O orçamento foi entregue. Era meio por cento (do ICMS) e passou a 1%. O Governo reconhece o papel e a Fapesp cumpre a sua tarefa.

O senhor teve sempre contatos diretos com o Governo e pôde verificar esse respeito pela Fapesp

Tive, tive. Digo isso baseado nos fatos. Em primeiro lugar, o governo não interfere nas decisões da Fapesp. Segundo, o Governo paga os duodécimos corretamente, quer dizer, cumpre a tarefa dele. Apesar da Fapesp ser um órgão governamental, o Governo sabe que de ciência é o cientista que entende, e ele respeita isso.

E quanto à política científica e tecnológica, há interação positiva com a Secretaria de Ciência e Tecnologia?

A Fapesp não se submete. A Fapesp vai às reuniões da Secretaria e diz o que ela pensa, e acabou. Porque ela é um porta-voz da comunidade científica do Estado de São Paulo. Se estamos de acordo com as propostas da Secretaria, estamos de acordo, se somos contrários, isso é dito com todos os effes e erres.

Gostaria de que o senhor falasse mais sobre a importância da técnica e da tecnologia nos laboratórios experimentais, como parte da formação de profissionais.

Hoje a tecnologia está cada vez mais se aproximando da ciência básica. Por quê? De um lado, a ciência básica está utilizando o que é colocado pela tecnologia a seu serviço, que são instrumentos cada vez mais aperfeiçoados, mais sofisticados, mais abrangentes. De outro lado, a tecnologia se utiliza cada vez mais do conhecimento científico, da interpretação que a ciência dá a fatos da natureza. Sempre me preocupei com a parte experimental, mas também não descuidei de que é importante ter um apoio teórico. Tanto é que eu sempre trouxe vários teóricos para o departamento. Mas a linha mestra, a tônica, a linha principal, era experimental.

Eu me sinto feliz porque entre meus estudantes alguns continuaram na pesquisa básica, importantíssima, mas outros foram, com sucesso, para as áreas tecnológicas. Mostrando, portanto, que o cientista não está numa cápsula de vidro, mas ele atua também. O importante é a Universidade dar uma formação sólida e deixar o indivíduo fazer o que ele quer, o que ele gosta, o que ele acha importante. Então, uns continuam na pesquisa básica, outros vão para a indústria.

A pesquisa não coloca uma campânula no indivíduo, mas o indivíduo se comunica com o meio, se comunica com a sociedade, se comunica com os laboratórios, se comunica com a indústria e se comunica com os seus colegas cientistas. No laboratório mexe-se com equipamentos, mexemos com os mesmos oscilógrafos, amplificadores etc., que na indústria. Agora, tem uma metodologia (comum) de trabalho que é importante para o cientista básico, mas é importante também para aquele que vai para a área industrial e tecnológica.

O senhor fala em termos de indivíduos, mas vale também para a instituição, para a Universidade, não é?

Claro. Ela tem que atuar assim. A Universidade é um laboratório imenso, ela pode dar uma ajuda fantástica. Alguns setores fazem, outros não, mas isso o tempo corrige, não adianta forçar.

Mas o tempo tem a ver também com o desenvolvimento externo à Universidade, não é mesmo?

Claro. A mentalidade, a aproximação do (elemento) externo com a Universidade depende da mentalidade dele. Assim como a aproximação do universitário com a indústria depende, um pouco, da mentalidade desse universitário. Então, tem que haver um casamento ) de interesses.

O senhor acha que na Universidade, no Instituto de Física, por exemplo, desde que o Departamento de Física foi fundado por Wataghin, isso está bem compreendido?

Acho que está razoavelmente bem compreendido. Veja bem, cito este exemplo porque é muito importante: Durante a guerra, quem deu uma contribuição para a defesa? Os físicos Marcelo Damy, Paulus Aulus Pompéia. Pararam o que estavam fazendo e foram desenvolver sonares, instrumentação para detecção de ruídos, quer dizer, deram uma contribuição da maior importância. Esse exemplo, costumo citar porque mostra que o bom pesquisador, na hora em que ele é chamado, em outra área, na área tecnológica, ele sabe fazer. E eles deram uma contribuição fantástica para o país. A defesa de todo o nosso país, quer coisa mais importante que isso?

Com um problema completamente diferente.

Completamente diferente. Eles trabalhavam com raios cósmicos. De raios cósmicos eles passaram para sonares, crescimento de cristais etc. Quer dizer, é uma compreensão fantástica. Mostra a importância de se ter cientista bem formado.

E que saiba a técnica, não é?

O Marcelo Damy, por exemplo, era um excelente soprador de vidro e ninguém sabia fazer isso. Ele foi ao Rio para ensinar o pessoal da Marinha como é que se soldava, como é que se fazia vidro. E também sabia muita eletrônica. Era um radioamador de primeira linha. Pena que não há muitos Marcelos Damys.

Professor Sala, como o senhor vê esses programas especiais da Fapesp, de inovação tecnológica e da interação Universidade-Empresa?

Olha, eu vejo a Fapesp entendendo e procurando uma aproximação maior e mais rápida entre o meio produtivo, a indústria, e os laboratórios de pesquisa. Eles podem se abraçar que um não vai atrapalhar o outro.

Uma questão é que as formas de produção são diferentes, não é?

São. E é bom que sejam. Cada um tem o seu caminho, seu objetivo. Mas há coisas que são comuns aos dois e isso é que tem que ser buscado. Nesse patamar comum, nós podemos contribuir, eles podem contribuir, mas é importante que esse patamar comum seja localizado, seja posto em evidência.

E isso seria um papel da Fapesp, pôr em evidência, ou descobrir primeiro?

Não é ela que tem que fazer isso, mas é o pesquisador. Quando falo que é o pesquisador, veja bem, não estou me referindo somente ao pesquisador da ciência básica, mas também ao da ciência aplicada, da indústria. Somos nós, pesquisadores, que temos que dizer. A Fapesp só dá os meios, as condições. Não é ela que tem que dizer como fazer, e eu acho isso muito importante e sábio da parte da Fapesp. Ela não coloca uma camisa de força, ela simplesmente ajuda a empurrar, dá os meios. Os pesquisadores é que devem descobrir como fazer, como é a melhor forma para o desenvolvimento (do projeto).

Queria encerrar esta coletânea de suas idéias, com um depoimento sobre a origem da máquina que está em fase de construção, na Cidade Universitária.

O acelerador linear supercondutor que está sendo construído no Instituto de Física, foi pensado a partir do fato de que é uma companhia brasileira, em Poços de Caldas, que se aparelhou para produzir o nióbio metálico. Entretanto, para ser super-condutor, o nióbio tem que ser ultra puro. É muito importante para a construção de ligas metálicas.

A história é assim: fizemos o Van de Graaff, que foi substituído pelo Pelletron. Depois do Pelletron, a questão é: o que vai substituir o Pelletron? Fiquei sabendo de uma máquina supercondutora de Argonne [National Laboratory], com cavidades supercondutoras, e fui visitar. Fiquei amigo de quem projetou. Compravam nióbio de uma firma americana que o purificava e fazia as cavidades. A firma brasileira começou a trabalhar para fabricar o nióbio puro.

A pergunta seria: como se defende a idéia de um acelerador aqui, se estão sendo construídos em outras partes, aceleradores de maior porte?

E a resposta é: a física nuclear de baixa energia é feita atualmente em pouquíssimos laboratórios no mundo. Assim, um dos pólos pode ser São Paulo. A parte tecnológica de aceleradores supercondutores interessa ao Brasil por ser produtor de matéria-prima. Pode-se aproveitar o que está desenvolvido lá fora para desenvolver aqui a purificação. O acelerador oferece condições também para fazer física nuclear. A física experimental cresceu, se instalou, ocupou uma posição. O acelerador super-condutor pode ser um laboratório de formação de físicos brasileiros e estrangeiros em nível internacional.

Essas idéias têm relação com a formação da USP, quando vieram professores [estrangeiros] da primeira categoria. A grande coisa que ficou foi a formação de pesquisadores.