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José Reis

(1907 - 2002)

Entrevista concedida a Alzira Alves de Abreu (CPDOC/FGV e UFRJ).

Publicada em julho/agosto de 1982.

O professor José Reis é carioca, nascido em 12 de junho de 1907. Fez seus estudos secundários no Colégio Pedro II e em seguida cursou a Faculdade Nacional de Medicina, onde se formou em 1930. Nesse ano, mudou-se para São Paulo, contratado pelo Instituto Biológico. Lá se encontravam cientistas importantes que deram impulso à ciência no Brasil, como Hermann von Ihering, Otto Bier, Rocha Lima, Genésio Pacheco e outros.

O trabalho de microbiologia que então desenvolveu levou-o a perceber a importância de ampliar seu campo de estudo e a olhar para o que faziam os cientistas de outras áreas. Esse interesse permitiu-lhe enveredar por outras atividades, vindo a ocupar o cargo de diretor-geral do Departamento do Serviço Público de São Paulo de 1942 a 1945, tornando-se professor de Administração da Universidade de São Paulo e da Universidade Mackenzie (1946-47), professor de Economia, redator científico do jornal Folha de São Paulo, diretor da revista Ciência e Cultura, autor de livros infanto-juvenis, novelas de rádio, livros e artigos científicos.

Professor José Reis, o senhor poderia nos explicar como chegou à atividade de divulgador da ciência? É necessário um pendor especial para exercer esta atividade?

Durante a minha infância, tive sempre interesse em transmitir tudo aquilo que aprendia. Assim, logo que aprendi a ler tratei de alfabetizar as empregadas da casa, que também aprenderam comigo o catecismo. Após a missa dominical, em casa repetia o sermão do padre para as empregadas. Na escola, não tive dificuldades em aprender as matérias ensinadas, e tinha uma grande curiosidade intelectual - o que me levava a procurar estudar além do que o professor apresentava em aula. Desse esforço resultavam cadernos que circulavam entre os colegas, nos quais às vezes manifestava pontos de vista discordantes dos ensinados e tentava metodologia e enfoques originais, além de incluir matéria não ensinada e por mim "descoberta" em leituras paralelas. Vem daí talvez o encantamento que me provocou a frase de dom Duarte Nunes de Leão: "Tentei ensinar aos outros o que de outrem não pude aprender". É grande o prazer de tentar compreender o que é difícil e depois transformá-lo em algo menos hermético, para gozo dos outros. Movido por essas características psicológicas e pela necessidade de ganhar a vida, era natural que eu buscasse o magistério particular, ensinando a alunos de séries mais atrasadas o que ia absorvendo à medida que avançava. No início, lecionava tudo, e aos poucos fui me concentrando na história natural.

O seu interesse pela história natural fez com que o senhor escolhesse a Faculdade de Medicina?

Sim, mas reconheço hoje que nunca me contentou a prática pura e simples de uma especialidade. Sempre procurei completá-la com a sua história e, se não a filosofia, pelo menos o filosofar sobre a essência do trabalho realizado, sua significação, sua posição no contexto geral do saber. Surgiu daí a preocupação, que se foi acentuando, com a história, a filosofia da ciência e a política da ciência.

Mas ao terminar a Faculdade de Medicina o senhor foi trabalhar como bacteriologista no Instituto Biológico de São Paulo...

Pois foi aí que eu comecei de fato minha carreira de divulgador da ciência. Eu trabalhava ao lado do grande cientista Hermann von Ihering, que um dia entrou na minha sala com o seguinte problema: um modesto sitiante procurava o Instituto para esclarecer qual era o problema que atacava suas galinhas que eram dizimadas por uma "peste". O dr. von Ihering me perguntou: "Que peste é essa? Aí está uma coisa que você pode descobrir para ajudar esse pessoal." Aceitei o desafio e, resolvido esse, outros foram se apresentando. Mas para desincumbir-me bem dessa missão de aconselhar, informar os sitiantes, tornava-se importante estabelecer contato com eles e aprender a falar-lhes e escrever-lhes com a maior simplicidade. Ao fim de pouco tempo, eu estava escrevendo artigos em revistas agrícolas, como Chácaras e Quintais. Ainda para facilitar a comunicação do Instituto com sua clientela, preparei numerosos folhetos, em linguagem simples, sobre os diversos problemas que afetavam a criação de galinhas.

Desse modo, o senhor trocou sua carreira de cientista pela de divulgador.

Não foi bem isso, continuei dedicando-me à pesquisa. Nunca fui cientista brilhante, dotado de criatividade que produz trabalhos originais que mexem com as bases da própria ciência. Fui antes um pesquisador sistemático, interessado em identificar doenças e micróbios, alguns conhecidos, outros ignorados. O impulso que sentia para divulgar os achados da ciência talvez seja, no fundo, uma forma de criatividade didática

Os cientistas que se preocupam em divulgar os resultados de suas pesquisas para um público mais amplo são malvistos por seus colegas?

Quando eu comecei, na década de 40, havia uma certa reserva quanto ao cientista que freqüentava as colunas de jornais e revistas populares. Hoje essa atitude mudou, os cientistas já percebem que é importante dar ao público uma satisfação sobre o trabalho que realizam. Eles compreenderam que não podem se fechar, isolar-se em seus laboratórios. Mas a tradição isolacionista do pesquisador gerou muitos ressentimentos entre o cientista e os jornalistas. De um lado os cientistas, muito ciosos da precisão da informação até mesmo em minúcias de nenhum interesse público, e de outro os jornalistas, mais estimulados pelo essencialmente novo e capaz de atrair os leitores. Pode-se dizer que em alguns centros se cavou um profundo fosso entre ciência e jornalismo, como se a notícia científica se apequenasse ou prostituísse quando veiculada na imprensa. Se os jornalistas, algumas vezes por despreparo, outras pela ânsia de sensacionalismo, contribuíram para aquela situação, os cientistas não ficam absolvidos, pois muitos deles se negaram sistematicamente a dialogar com os repórteres ou atender aos pedidos de colaboração em termos simples. Felizmente as coisas mudaram dos dois lados. Melhor preparo e senso profissional do jornalista e mais aguda consciência social do cientista criaram a situação presente de bom entendimento.

A divulgação científica pelo jornal Folha de São Paulo foi sua primeira experiência na imprensa?

Na verdade, comecei na então Folha da Manhã, escrevendo sobre problemas gerais de administração, a convite do diretor editorial José Nabantino Ramos. Logo o dr. Nabantino Ramos me propôs nova e grata tarefa, o desenvolvimento de uma seção permanente de ciência. Assim começou "No Mundo da Ciência", na última página do jornal, a 1° de fevereiro de 1948. Era uma página dominical, que constava de um artigo principal, algumas notas esparsas e uma seção de resenha bibliográfica para a qual Mário Donato, então redator chefe, sugeriu o título de "Se não leu, leia". Acrescentou-se depois a coluna "Ponto de vista", que reproduzia escritos de cientistas ou pensadores de renome sobre o papel da ciência, em particular a necessidade de amparar a muito incompreendida "ciência pura". Outra seção, "Em foco", tratava de problemas da ciência e sua política e organização no Brasil. Os artigos de divulgação abrangiam praticamente todas as áreas do conhecimento, e não raro versavam sobre assuntos que se tornaram palpitantes. Sempre estiveram presentes questões de história, filosofia, política e organização da ciência. Passei a colaborar também na Folha da Noite, onde lancei a idéia de um concurso destinado a revelar novos cientistas e clubes de ciência. Ambas as sugestões encontraram apoio na Universidade de São Paulo. Na revista Anhembi de Paulo Duarte, colaborei de 1955 a 1962, escrevendo "Ciência de 30 dias".

Ao ser criada a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, em 1948, que eu ajudei a fundar, decidiu-se que ela editaria uma revista. Ciência e Cultura surgiu em abril de 1949 com o objetivo de divulgar trabalhos inéditos de cientistas brasileiros de todos os campos do conhecimento. Sou seu diretor até hoje.

O jornal, o livro, folhetos para criadores, foram os únicos veículos que o senhor utilizou para popularizar a ciência?

Não, busquei romancear a ciência para a infância pré escolar, escrevendo A cigarra e a formiga, que adapta a conhecida fábula, introduzindo duas formigas, uma "ruim", a Quenquém, e a outra "boa", a Asteca, que vive em associação com pulgões no oco das imbaúbas. Para a infância alfabetizada escrevi As galinhas do Juca, com noções de avicultura e doenças e O menino dourado com noções de microbiologia. Para a juventude, escrevi Aventuras no mundo da ciência, novela que se desenrola num instituto científico e constitui um passeio pela história natural. Outra experiência foi o rádio teatro e durante um ano elaborei scripts para a Rádio Excelsior de São Paulo. Uma vez por semana ia ao ar "A marcha da ciência", onde apresentava fatos atuais e históricos da pesquisa científica.

O que é, afinal, divulgação científica?

É a veiculação em termos simples da ciência como processo, dos princípios nela estabelecidos, das metodologias que emprega. Durante muito tempo, a divulgação se limitou a contar ao público os encantos e os aspectos interessantes e revolucionários da ciência. Aos poucos, passou a refletir também a intensidade dos problemas sociais implícitos nessa atividade. Para muitos divulgadores, a popularização da ciência perdeu sentido como relato dos progressos científicos, porque o cidadão se acha hoje cercado desse tipo de informação. Embora concorde em parte com essa posição, considero que a divulgação pela imprensa é muito importante, principalmente em países como o Brasil, onde as dificuldades e as precariedades das escolas fazem com que estudantes e professores obtenham informações sobre os progressos da ciência por meio de artigos de jornais. Para mim, depois de um longo caminho percorrido como divulgador, é com a maior alegria que encontro por toda parte professores e pesquisadores que dizem haver encontrado em meus escritos o despertar de sua vocação, assim como pessoas de variado nível cultural que em artigos meus descobriram pistas para resolver até problemas pessoais.

Como assim?

Recebi muitas cartas de leitores com perguntas sobre a origem, causas e tratamento de anomalias que atingiam membros da família. Em alguns casos mantive longa correspondência com leitores e, sem me imiscuir nos aspectos profissionais que o caso comportava, sugeria a procura de centros especializados, capazes de esclarecer as dúvidas e orientar o tratamento.

O leitor que se habitua a ler os escritos de um divulgador científico muitas vezes acaba fazendo dele uma espécie de conselheiro. É esta, pelo menos, minha experiência: creio que o leitor identifica nesses escritos a única virtude que eles realmente têm, a sinceridade.

A carreira de divulgador parece ter-lhe dado muita alegria e significado uma grande realização profissional.

Uma das maiores recompensas do meu trabalho tem sido aprender, tentando ensinar. E uma das maiores alegrias é quando escrevo por sugestão do leitor, o que não é raro, mesmo quando a pergunta está longe de minha imediata cogitação; isto me obriga a enveredar por um caminho novo, fazer meu aprendizado e transformá-lo depois em ensinamento. A divulgação envolve para mim dois dos maiores prazeres desta vida: aprender e repartir.