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Cesar Lattes

(1924 - 2005)

Entrevista concedida a Micheline Nussenzveig e Cássio Leite Vieira (Ciência Hoje) e Fernando de Souza Barros (Instituto de Física, UFRJ).

Colaboraram Alfredo Marques e Neuza Amato (Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, CNPq).

Publicada em agosto de 1995.

Curitibano, nascido em 11 de julho de 1924, filho de Giuseppe e Carolina, o físico Cesare Mansueto Giulio Lattes é casado com Martha Siqueira Neto Lattes. O casal tem quatro filhas e atualmente curte os nove netos. Lattes, aos 23 anos, foi um dos descobridores da partícula atômica "méson pi" . A partir de então, houve um verdadeiro "arranque" na física brasileira, entusiasmando jovens a se dedicarem a essa área. Atualmente aposentado, foi professor da Universidade de São Paulo, da antiga Universidade do Brasil (atual Universidade Federal do Rio de Janeiro), da Universidade Estadual de Campinas e do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, do qual é um dos fundadores. Desde 1962, mantém colaboração com o Japão, no estudo da radiação cósmica, à qual se juntaram países da ex-União Soviética. É membro de várias academias e sociedades científicas brasileiras e internacionais.

Entre suas muitas premiações estão o Prêmio Einstein (1950), o Fonseca Costa, concedido pele CNPq (1958), o Bernardo Houssay, da Organização dos Estados Americanos (1978), e o Prêmio de Física, da Academia de Ciências do Terceiro Mundo (1987). Recebeu também várias medalhas.

Nesta entrevista para Ciência Hoje, Lattes conta, com modéstia e senso de humor — características fortes de sua personalidade — como foi a descoberta do méson pi, fala da fundação de Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, da evolução da física no Brasil, de sua vida pessoal e acadêmica e de suas idéias filosóficas e científicas, entre outras coisas.

Qual a origem da família Lattes?

Sou filho de imigrantes italianos do Piemonte. Meu pai era de Turim e minha mãe de Alessandria. O pai dela era alfaiate militar, "tesoura de ouro" do exército italiano, descendente do marquês Maroni, da Espanha, matador de touros. Já o meu pai era filho de casamento misto de judeu com católica e livre-pensador. Lates era o nome de um riozinho que separa a Espanha da França. Quando a rainha Isabel deu seis meses para os judeus sefaradim saírem da Espanha e de Portugal, muitos deles atravessaram o riozinho e mudaram o nome para Lattes, acrescentando um 't'. Portanto, Lattes é nome judeu.

Meu antepassado mudou de nome, mas não de profissão, tanto que o avô de meu pai tinha um banco, Banca Lattes, que ainda existe em Turim, mas com nome de Casa Bancária. Meu avô herdou a Banca Lattes, vivia disso, estava bem de vida e casou-se com uma católica "pra frentex", que tinha tido duas filhas sem ter casado. Ela era filha de um chapeleiro, enquanto a família do pai das meninas era dona de grandes extensões de terra. Tinha até um parente bispo. A família do noivo relutou, mas quando ele estava quase morrendo, acabou permitindo o casamento. Algum tempo depois, o meu avô casou-se com essa viúva, nascendo meu pai como primogênito. Quando meu avô morreu, minha avó, que era mão-aberta, ficou com muito pouco dinheiro, só restando para cada filho o que dava justo para sobreviver.

Meu pai, então, decidiu vir para o Brasil e foi trabalhar em um banco, em Curitiba, em 1912. Tinha então dezenove anos. Dois anos depois, veio a Primeira Guerra Mundial. A Itália queria se livrar dos austríacos, que ocupavam a região nordeste do país. Os italianos em Curitiba se mobilizaram, fretaram um navio e foram para lá como voluntários. Meu pai lutou na guerra como alpino, isto é, no destacamento que combatia nos Alpes. Conheceu minha mãe na Itália e voltou, em 1921, a Curitiba, para trabalhar no Banco Francês e Italiano. A profissão dele era perito contador, mas quase sempre ele foi vice-diretor ou inspetor. Com o começo da Segunda Guerra, vieram as leis raciais. Mas italiano não leva isso a sério mesmo, e então na Itália elas foram fraquíssimas. Ainda assim, judeus professores foram parar na Academia de Ciências do Vaticano. Outros vieram, por exemplo, para o Brasil. Se eu estivesse lá e fosse professor na época, teria dificuldades, apesar de já ser judeu de quarta geração.

Uma das coisas que meu pai resolveu fazer foi nos batizar. Ele era livre-pensador e achava que meu irmão e eu devíamos fazer a própria escolha, mesmo assim, resolveu nos batizar quando tínhamos catorze ou quinze anos. Eu me declaro agnóstico, mas sou católico, apostólico, romano, batizado, crismado, comungado, duas vezes — a segunda comunhão fiz porque minha mãe pediu quando me formei — e também estalinista, cristão ortodoxo e animista.

O senhor começou sua carreira em 1944, numa época em que as famílias queriam ver um filho médico, engenheiro ou advogado. Por que o senhor fez opção pelo curso de física?

Meu avô materno, sujeito de bom senso, não ia me dizer para cursar medicina, engenharia ou direito. Teria dito: "o bom é ser alfaiate civil ou montar uma indústria". Já meu pai pensava diferente e me disse: "Olha, de vez em quando, o judeu entra pelo cano. Agora, a situação pode estar tranqüila, embora possa começar tudo de novo. Procure uma profissão que você possa levar na cabeça, por exemplo, otorrinolaringologia". "Está bem", falei, "mas precisa dissecar cadáveres?", perguntei. Ele respondeu: "Precisa", e eu disse: "Ah, então não, meu estômago é fraco." Aí, eu pedi a ele para "chutar" outra profissão. Ele disse que tinha uma muito boa: atuário. "A companhia de seguros precisa e dá um dinheirão se você for um bom atuário." Fui na conversa dele. Mas comecei física e matemática no ginásio e vi que nem precisava prestar atenção. O professor falava, eu nem estudava e me saía muito bem no exame. No resto, eu era um aluno medíocre. Como soube que professor secundário tinha três meses de férias por ano, falei com o velho e disse que queria ser professor secundário de física. Nunca pensei em universidade. Mas meu pai era gerente do Banco Francês e Italiano, encarregado do câmbio, e cuidava do pagamento do Gleb Wataghin e do Giuseppe Occhialini. O velho falou com o Wataghin, que disse para eu ir falar com ele. Fui. E o Wataghin me disse: "Está tudo bem, não precisa fazer o pré, porque foi baixada uma portaria que permite a você ser dispensado". Por isso, é que me formei com dezenove anos. Foi o Wataghin que me animou e me fez desistir de ser professor secundário, porque se precisava de gente para a pesquisa.

Como o seu pai conheceu o Gleb Wataghin?

Para responder, precisamos lembrar um pouco da história. A primeira universidade foi fundada em 1934, em São Paulo, possivelmente em conseqüência da derrota dos paulistas na revolução. Os latifundiários achavam que precisavam fazer alguma coisa e fizeram a universidade no papel, mas tendo como núcleo de aglutinação a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL), de modo que não haveria mais cursos de física nas faculdades de medicina, de engenharia, de veterinária etc. Haveria nessa faculdade um departamento de física para todos. O Teodoro Ramos, que foi encarregado de organizá-la, teve a sabedoria e a modéstia de ir buscar pessoal na Europa. Entre os professores, veio o Gleb Wataghin. Contrariamente ao que se pensa, a história da indicação dele não se deve ao fato de ele ser um refugiado do fascismo. Benito Mussolini tinha o sonho de fazer um novo império e, em 1932, mandou o Francesco Severi, um bom matemático, mas fascista, para verificar como estava a situação da América Latina. No ano seguinte, mandou o Enrico Fermi e senhora também para observar a situação por aqui. Vale lembrar que o Fermi não era fascista. O Teodoro Ramos, aconselhado por Fermi, convidou o Wataghin que veio ao Brasil em 1934, com vencimentos e vantagens adicionais por estar em missão oficial. Meu pai era quem cuidava aqui no Brasil do pagamento dessas vantagens. Depois da Segunda Guerra, o Wataghin voltou para a Itália para o Instituto de Física de Turim. O dinheiro de seu salário, acumulado durante a guerra, estava todo lá, empilhado em um banco italiano.

O Wataghin era russo e pertencia à família do Czar. Sua mãe era princesa e o pai alto funcionário na Estrada de Ferro. Mas o Gleb tinha idéias socialistas. Quando era estudante em Kiev e a situação ficou ruim, o pai mandou a locomotiva com um vagão buscar a mãe e se mandaram todos para Odessa. A princesa não levou as jóias e, por isso, passaram tempos difíceis. O Wataghin foi então parar em Turim, na Itália, e começou a ganhar a vida tocando piano no cinema mudo. O Eligio Perucca, professor de física, arranjou um lugar para ele na Escola Politécnica de Turim. Depois, ele foi contratado pelo Instituto de Física de Turim. Quando o Wataghin chegou ao Brasil, para trabalhar na FFCL da Universidade de São Paulo (USP), ele disse que só assinaria o contrato depois que o mecânico Bentivoglio Guidolino fosse contratado. Uma vez assinado o contrato, ele pegou dois estudantes de engenharia do segundo ano, Mario Schenberg e Marcelo Damy de Souza Santos, para trabalharem com ele. Tinham uma mesa no sótão da escola de engenharia (Escola Politécnica da USP), com uma bancada para o Damy e o Schenberg. O Bentivoglio tinha lá um tornozinho e mais algumas coisas. Mas, pouco depois, o professor Camargo, o Camargão como o chamávamos, que era o guardião das tradições da Politécnica, mandou botar tudo na calçada. Mas logo o Wataghin, com sua diplomacia, arrumou um dinheirinho e alugou uma casa de madeira perto da Politécnica. Quando o conheci, Wataghin trabalhava ali.

Qual a importância da vinda do Wataghin para o Brasil?

O que ele fez de importante que outros não fizeram? Ainda em 1934, ele, que era teórico, fez um trabalho prevendo a produção múltipla de partículas, baseando-se, entre outras coisas, no princípio de incerteza de Heisenberg e na existência de um comprimento fundamental da ordem de 10-13 cm. Foi só no ano seguinte que o Hideki Yukawa falou em méson. O Wataghin defendeu que na colisão entre duas partículas, próton com próton, por exemplo, eram produzidos mésons, de uma só vez. Portanto, a produção era múltipla e não plural. Essa última se dá quando um próton bate em outro próton, dando um méson, depois esse mesmo próton bate em mais outro próton, dando outro méson, e assim por diante, formando uma cascatinha, um tipo de chuveiro.

Logo que o Damy e o Schenberg se formaram, o Wataghin os mandou para fora do país. O Schenberg foi trabalhar com o Fermi, na Itália, e fez a chamada teoria da radiação mole (parte da radiação cósmica pouco penetrante), na qual ele postulou que havia algum tipo de radiação neutra que era diferente dos raios gama. Mas o Fermi não o deixou publicar. Em Cambridge, na Inglaterra, o Damy aprendeu a fazer uma série de coisas, como contadores Geiger, alvos, e circuitos eletrônicos rápidos de coincidência para detecção de partículas ionizantes. Aí veio a guerra e os dois voltaram para o Brasil depois de um ano. O Damy aperfeiçoou esses circuitos na Inglaterra e os tornou dez vezes mais rápidos que os usados na época. Eram de 10 -6 segundo e os do Damy eram de 10-7 segundo. O Wataghin, com a idéia da produção múltipla de partículas, conseguiu, em 1940, detectar chuveiros penetrantes, o que foi confirmado seis meses depois por L. Janossi, na Inglaterra. Isso foi feito juntamente com o Paulus Pompéia e o Damy, em Campos do Jordão, usando placas de chumbo, cinco contadores e a eletrônica do próprio Damy.

Por que foi possível detectar os chuveiros penetrantes?

Porque o poder de resolução do equipamento do Damy era dez vezes melhor que o dos ingleses. Em 1944, o Wataghin e o Oscar Sala colocaram grafite e parafina (rica em prótons) sobre os detectores. Eles verificaram que o número de mésons produzidos pelas colisões era sempre o mesmo e, portanto, não dependia do número de prótons nos detectores. Logo, a produção de mésons só podia ser múltipla e não plural. Naquele tempo, o Wataghin ainda chamava o méson de mésotron.

Essa detecção do Sala e do Wataghin — eles não sabiam e eu só percebi anos depois — era de mésons pi, porque o méson pi, ao vir da alta atmosfera, decai rapidamente em um segundo componente que é o méson mi, com vida mais longa. Entretanto, na experiência da parafina, a produção de mésons era local e não havia tempo de eles decaírem em mésons mi. Então, os primeiros a detectar os mésons pi foram o Sala e o Wataghin.

O senhor está fazendo justiça a outras pessoas. Na verdade, formou-se uma escola, havia uma pessoa esclarecida, o Wataghin, havia gente competente e se fazia uma física experimental avançada em São Paulo. Mas seu nome tomou grande proporção. A que o senhor atribui esse fato?

Quando me formei, o Wataghin era professor de física teórica e matemática. Fui ser seu terceiro assistente. O primeiro trabalho de pesquisa que fiz com ele foi sobre termodinâmica de altíssima temperatura e pressão, relacionando isso com a abundância dos elementos do universo. Depois, o Schenberg pegou a mim e ao Walter Shützer para calcular o campo de uma carga puntiforme com momento de dipolo. Esse cálculo deu para o campo do dipolo uma expressão com 27 termos. Isso foi suficiente para que eu me decidisse pela física experimental.

O Hugo Camerini, o Wataghinho (André, filho do Wataghin) e eu, com dinheiro nosso, fizemos no porão do departamento de física da FFCL, na rua Maria Antônia, uma pequena câmara de Wilson, que consiste em um recipiente contendo gás em estado de saturação. Usamos dois contadores do Damy, que registravam automaticamente a entrada da partícula e enviavam um sinal a dois circuitos (de coincidência). Estes, por meio de um pistão, acionavam a expansão do gás até atingir um estado de supersaturação, provocando a formação de gotas ao longo da trajetória da partícula carregada. Uma câmera fotográfica registrava o traço deixado pela partícula ao atravessar a nuvem de gás. Botamos o equipamento para funcionar em regime automático, isto é, ele era acionado somente quando uma partícula passasse pelos contadores. Tudo isso era para detectar e ver mésons parando. Esse método era do Occhialini.

Como o Occhialini veio parar no Brasil?

O Wataghin foi passar férias na Europa e o pai do Occhialini, que era diretor do Instituto de Física de Gênova, lhe pediu que arranjasse para que o filho, que era antifascista e estava para voltar da Inglaterra, fosse para o Brasil. O Occhialini veio e trouxe a experiência com câmaras de Wilson, que ele tinha adquirido com o Patrick M. S. Blackett. O Occhialini também impressionou pelo seu interesse em literatura, poesia e cinema. Mas, quando veio a Segunda Guerra, ele, por ser italiano, foi considerado inimigo, e decidiu trabalhar incógnito como guia nas montanhas de Itatiaia (RJ). Tenho até uma fotografia dele como guia. Uma vez por semana, ele descia do posto meteorológico para o repouso Donati, onde tinha lugar para comer, fumar, ler gibi e tomar cerveja, tudo ao mesmo tempo.

Quando pôde sair do país, ofereceu seus conhecimentos científicos para o esforço de guerra britânico e assim voltou à Europa. Mas, ao chegar à Inglaterra, também por ser italiano, o mandaram lavar pratos. Entretanto, ele conseguiu falar com o Blackett, que arranjou para ele ir a Bristol, universidade particular e mantida por fumaça de cigarro, isto é, pelas indústrias inglesas de cigarro. Lá, estava o Cequim Powell, que por ser pacifista, tinha se recusado a trabalhar para o esforço de guerra. Era um lugar afastado, frio, onde um "inimigo" como o Occhialini não iria oferecer perigo. Lá, o Powell estava há 10 anos usando as chapas da Ilford (fabricante de filmes), para fazer física nuclear, as mesmas usadas em fotografia na época. O Powell era muito simpático e conservador em ciências. Com essas chapas, ele estava fazendo espalhamento nêutron-próton de dez megaelétrons-volt. Para ver o próton, era preciso muita imaginação. O Occhialini, que era mais ativo, ficou insistindo com a empresa Ilford, até conseguir que eles fabricassem chapas com densidade de prata seis vezes maior. Ele queria ver o traço do próton e de outras partículas. Mas, ao se aumentar a densidade da prata, se aumentava também o resíduo de fundo, isto é, surgiam nas placas grãos indesejáveis, que acabavam mascarando as trajetórias em estudo. Finalmente, Mr. C. Waller, da Ilford, obteve um tipo de placa seis vezes mais densa, quase sem resíduo de fundo.

Quando recebi essa placa aqui no Brasil, pedi para ir para a Inglaterra. Fui com uma bolsa de quinze libras por mês, dada pelos fabricantes de cigarros de lá. Por aqui, o Leopoldo Nachbin me arrumou, pela Fundação Getúlio Vargas, a passagem em um cargueiro, o primeiro que saiu depois da guerra. Lá cheguei, depois de 40 dias de viagem, sendo que a cerveja terminou na primeira semana. Bem, o que aconteceu? O Occhialini e eu tínhamos tradição em raios cósmicos. Eu estava tentando ver mésons lentos em São Paulo. O Wataghin e seus assistentes tinham descoberto os chuveiros penetrantes. Era, portanto, óbvio que não era para ficar fazendo o que estavam fazendo o Powell e o Occhialini, que era espalhamento de nêutron-próton de 10 megaelétrons-volt. Dei ao Occhialini, que ia passar férias nos Pireneus, umas chapas que estavam carregadas com bórax e outras sem. Essas últimas têm muito fading, isto é, perdem o poder de detecção em aproximadamente uma semana, mas as de bórax agüentam mais tempo. Ao voltar, revelou as chapas na mesma noite e percebeu que havia uma barbaridade de coisas nelas. Uma das primeiras coisas que ele viu foi a trajetória de um lítio 8, que ele chamou de tarelo, emitindo uma partícula beta, que nas chapas sem bórax não se via. Depois de emitir essa beta, o lítio 8 decaía para berílio 8, que por sua vez emitia duas partículas alfa, que ele chamou de martelo. Ele pôde ver isso devido à ação antifading do bórax.

Viram mésons também nessas chapas?

Só naquelas com bórax.

O que foi feito com as chapas?

Foram examinadas por Occhialini, por Powell e por mim. Havia também moças microscopistas. Uma delas, Marietta Kurz, observou um evento estranho: um traço mais torto que os dos prótons, menos denso, e de direções sofrendo múltiplas mudanças — era o que se esperaria de um mésotron de Anderson, Seth H. Neddermeyer, J. C. Street e E. C. Stevenson, com massa cerca de 1/8 da massa do próton. Do fim do traço surgia outro semelhante, de 600 micra de alcance. Dias depois, observamos na chapa outro evento semelhante, no qual o traço secundário realmente parava na emulsão. O alcance era também de 600 micra. Fui para o departamento de geografia da Universidade de Bristol para ver se nos Andes era possível expor chapas. Descobri que, a uns 20 km de La Paz, na Bolívia, tinha um clube andino, a uns 5,5 mil metros de altitude, e que se podia chegar lá de carro facilmente. Tinha que ser rápido, porque o físico inglês D. H. Perkins estava expondo placas a partir de vôos aéreos, e essa história da importância do bórax nas placas iria logo ser conhecida.

Por que o senhor escolheu Chacaltaya para fazer as exposições das chapas, em vez do Pic du Midi e do Iungfrauoff, onde o Occhialini e o Powell costumavam expor as emulsões?

O Pic du Midi foi onde se expôs as primeiras chapas, mas é baixo, tem 2,8 mil metros. O número de partículas cósmicas em Chacaltaya, com 5,5 mil metros, é 100 mil vezes maior. Iungfrauoff não tinha universidade, não tinha nada. Foi usado mais tarde, na descoberta do méson 'k' em 1949.

O senhor então foi para a Bolívia?

Pedi a passagem até o Rio de Janeiro e disse que o resto eu arrumava. Deram-me o dinheiro. Foi uma cerimônia bonita e aprendi nesse dia como se fazia burocracia na Inglaterra daqueles tempos. Estavam o Powell, o Occhialini e o A. M. Tyndall, um gentleman inglês, diretor do laboratório de Bristol. Deram-me uma pilha de notas de pounds [libras] para pagar a passagem e um papelzinho dizendo o que se esperava de mim, desejando-me boa viagem, e pedindo que eu fosse pela British Airways, porque esse dinheiro era de Sua Majestade. Acabei pegando uma outra companhia. Foi minha sorte, porque o avião da British Airways caiu! Perguntei onde estava o recibo para prestar contas. A resposta foi que estaria anotado em um caderninho: "pago a César Lattes para sua viagem à Bolívia". Lembrei-me que, em Bristol, o laboratório ficava aberto dia e noite e a biblioteca também, sem ninguém tomando conta. País civilizado. Perguntei como deveria ser feito o relatório e a resposta foi que seria o trabalho depois publicado.

E o que aconteceu quando o senhor chegou à Bolívia?

Para chegar até La Paz, tive que passar por Santa Cruz, Cochabamba, Oruro, Potosí e finalmente La Paz. Aí, encontrei Dom Vicente Burgaletta, professor de física da universidade. Ele tinha feito a maior parte da carreira na Bolívia, e me disse para desistir da universidade, e procurar o Ismael Escobar, no Serviço de Meteorologia. O Escobar arranjou condução e fomos para a chamada estação meteorológica, montada em 1941. Na verdade, eram quatro pedaços de madeira, fazendo um tronco de pirâmide, e duas placas também de madeira, tudo pintado de branco e mais nada. Bom, pelo menos, pude fazer as exposições. Pus as chapas fotográficas e voltei ao Brasil em 1947. Depois de um mês, retornei a Bolívia e revelei uma chapa na casa do Escobar. Não revelei todas, porque a água de lá não estava boa. Telegrafei para o Powell contando, e ele me disse para levá-las para a Inglaterra. Ainda aqui no Rio, encontrei o Guido Beck, que por acaso estava na então Faculdade de Filosofia da Universidade do Brasil. Expliquei a ele o que era, e mostrei a chapa revelada na casa do Escobar. Até então, eu só tinha visto dois pi-mi, e não é que olhando eu encontro o terceiro pi-mi. O Beck também viu e o secundário tinha também um alcance de 600 micra. Aí, me convenci que estava com um bolo grande na mão.

Como era a trajetória desse segundo ramo?

A trajetória do segundo ramo terminava bem. As chapas lá em Bristol apresentaram uns 30 eventos e deu para ver que a massa da partícula pi era mais ou menos 300 massas eletrônicas (ou 300 vezes a massa do elétron) e que o alcance do secundário, isto é, do méson mi, era o mesmo. A massa foi obtida por contagem de grãos ao longo da trajetória. O pessoal lá de Bristol se entusiasmou.

O Powell me mandou para um simpósio em Birmingham para apresentar esses resultados, não sei por que ele não foi. No simpósio, os cientistas ainda falavam muito sobre os resultados de Ettore Pancini, Oreste Piccioni e Marcello Conversi sobre a vida média do méson mi. Com um pouco de dificuldade, consegui falar - afinal, o Powell tinha me mandado para lá — e fui embora. Depois, veio o convite do Niels Bohr, que acreditou na descoberta. Dei dois seminários, um na Sociedade de Física da Dinamarca e um no Instituto de Física Teórica de Copenhague. À noite, o Bohr me chamou para bater um papo na casa dele.

Mas as pessoas de uma maneira geral não estavam acreditando na descoberta. Em Berkeley (EUA), não se sabia direito o que eram os dois tipos de mésons. O acelerador de lá foi construído para produzir o mésotron de Anderson, com 200 unidades de massa eletrônica, e não para uma partícula com 300 unidades. O eletroímã, de Berkeley, tinha sido doado pela Fundação Rockfeller, pouco depois de Anderson e Neddermeyer descobrirem o méson mi, em 1937. Mas desde 1938 tinha o eletroímã com o qual podia-se fazer um acelerador com 380 MeV. O Ernest O. Lawrence decidiu construir um cíclotron para produção artificial, o que só foi conseguido em novembro de 1946. O Bohr me perguntou se eu ia aos EUA, porque as coisas em Bristol estavam quentes. Respondi que a energia do acelerador de Berkeley parecia não ser suficiente para a produção de mésons. Mas, na verdade, era suficiente se levássemos em consideração a energia interna da partícula incidente e do alvo, chamada de energia de Fermi. Saí de Bristol no melhor da festa.

E o senhor então foi para os EUA?

Sim, mas antes passei o natal no Brasil com meus pais e aproveitei para me casar, em 1947. Depois, parti para Berkeley, onde estava o Eugene Gardner, que era um ótimo físico, mas que não tinha saúde para passar mais de vinte minutos no microscópio e não tinha microscopistas. Em Berkeley, não acreditavam na descoberta e ainda por cima estavam procurando mésons mi. Duas semanas depois da minha chegada, em um sábado à tarde, consegui detectar mésons pi, usando o eletroímã de Berkeley. As partículas alfa batiam em núcleos do alvo de carbono, e os mésons defletidos por campo magnético tomavam certa direção, e deixavam sua marca nas emulsões. Usamos chapas protegidas por cobre, com as quais vimos finalmente o méson pi entrando. A emulsão das placas era protegida por uma espessura de cobre, que impedia o feixe principal de partículas alfa de atingir a emulsão.

Como o senhor via o méson pi na chapa?

Com microscópio. Era um traçado de pontinhos. O mais fácil de detectar no cíclotron era méson pi negativo, porque nesse caso a trajetória da partícula alfa no eletroímã é diferente. Apesar de ter resíduos das trajetórias de nêutrons nas chapas, em uma proporção de dez para um, era possível observar as trajetórias dos mésons pi negativos. Quando passam perto de um núcleo, eles são absorvidos por atração elétrica, e quase todos explodem esses núcleos que os capturam. Os fragmentos formam, na emulsão revelada, um desenho semelhante a uma estrela, e a facilidade de observação se deveu ao fato de eles deixarem essa "assinatura" característica. No caso dos mésons pi positivos, que detectamos depois, o resíduo de fundo, isto é, o número de trajetórias de nêutrons, era maior e por isso foi mais difícil observar o traçado desses mésons positivos nas placas.

Qual a diferença entre a detecção de mésons pi produzidos natural e artificialmente?

Na exposição natural, foi a galáxia que produziu os primários e eles chegam à Terra como raios cósmicos. Em Berkeley, a produção de mésons começou em novembro de 1946, mas a detecção só se deu em fevereiro de 1948. Mas esse eletroímã foi utilizado para enriquecer o urânio 235 usado para fazer a bomba lançada sobre Hiroshima. Só quando acabou a guerra é que voltaram a empregar o eletroímã como cíclotron. O Lawrence fez o acelerador. As duas bombas, a do teste nos EUA e a lançada sobre Hiroshima, na realidade, são produtos do acelerador de Berkeley, porque o enriquecimento do urânio 235 pelo método de difusão gasosa era muito lento. Então, o Lawrence propôs fazer o enriquecimento por separação magnética. Com isso, fizeram o primeiro acelerador que na época foi batizado cálotron. Foi esse mesmo eletroímã que serviu para produzir os mésons. Na verdade, ele é um espectrômetro de massa de grande intensidade, no qual a separação do urânio 235 é direta. Separa completamente o urânio 235 do urânio 238, de uma só vez. O plutônio da bomba de Nagasaki também foi descoberto em Berkeley. Foi o pessoal do Emile Segré e do Harold C. Urey que viu o plutônio se formar a partir do decaimento do urânio 238. Eles perceberam que o plutônio também fissionava com nêutrons lentos, emitindo mais de três nêutrons. Mas, para fazer isso, eles precisavam de um reator. E o Fermi e o Leo Szilard tinham a concepção desse reator, que foi construído mais tarde em Chicago por Fermi e colaboradores.

Então, foram seus trabalhos sobre a detecção de mésons naturais na Europa e na Bolívia e a produção de mésons artificiais em Berkeley que colocaram o senhor em posição de destaque na comunidade científica internacional?

Vale lembrar que em Berkeley os mésons artificiais já eram produzidos desde 30 de novembro de 1946, mas só foram detectados em fevereiro de 48. Não é verdade que fiz parte da equipe que descobriu o méson artificial em Berkeley. Não fiz coisíssima nenhuma. Apenas detectei e identifiquei o que já estava lá. E isso não é a mesma coisa. Boa parte do tempo, eu estava em Bristol, calibrando emulsões. Mas, enfim, o fato é que nesse tempo aconteceu o nascimento das partículas elementares. Por exemplo, nasceu o pósitron, o mésotron etc. Mas na época ninguém entendeu nada. Todo mundo saiu dizendo, por exemplo, que o elétron pesado era o méson do Hideki Yukawa. O nosso foi o verdadeiro, o méson pi, já previsto em 1942 pelo S. Sakata.

A descoberta do méson pi em Berkeley foi uma abertura, porque daí em diante se produziram mésons à beça. Na Inglaterra, levamos um ano para detectar 30 dessas partículas. Em Berkeley, detectamos 30 em um dia, em condições de geometria favoráveis. Sabíamos de onde os mésons saíam, onde chegavam e com que ângulo. Conhecíamos também o campo magnético e o alcance na emulsão. Com esses parâmetros, chegávamos ao valor da massa.

Então o senhor não produziu, mas só detectou os mésons em Berkeley?

É verdade. A produção foi um trabalho muito sério de engenharia, de gente como o Lawrence, que, além de ser competentíssimo e de um dinamismo formidável, já tinha feito naquela época detectores com tempo de resolução de 10-9 segundo. Ele arranjava dinheiro com os capitalistas. Então, produzir mésons artificialmente foi um processo meramente técnico. Quando eles começaram, o equipamento não tinha ainda muita estabilidade. O cíclotron acima de uma certa energia sai de fase e não consegue mais acelerar as partículas. Mas o Edwin MacMillan e um grupo soviético, do Weksler, descobriram uma solução para esse problema: como mostra a teoria da relatividade, a massa de um corpo aumenta à medida que sua velocidade cresce. No caso dos aceleradores, descobriu-se que é preciso também aumentar a freqüência de oscilação do campo eletromagnético, responsável pela aceleração das partículas. Basicamente, esse aumento da freqüência ajuda a manter o cíclotron em fase e, portanto, estável. Com isso, deu para chegar aos 400 milhões de elétrons-volt, ou 400 MeV, que era o limite no final da década de 40.

Que idade o senhor tinha na época da descoberta do méson pi?

Vinte e três e estava em lua-de-mel. A detecção de mésons pi foi um verdadeiro carnaval. Como disse o José Leite Lopes, deu até na capa da revista Science News, e recebi também um recorte da revista Time. Tive permissão para vir ao Brasil para uma formatura de químicos. Pagaram a minha passagem e da minha mulher. Eu era bolsista da Fundação Rockfeller, era expert consultant da Comissão de Energia Atômica.

Lá, eu tinha conhecido o Nelson Lins de Barros. Ele era irmão de João Alberto Lins de Barros, que foi da coluna Prestes, participou da revolução de 1930, foi interventor em São Paulo, coordenador da mobilização econômica, entre outras coisas. O Nelson era um homem muito inteligente, com 21 irmãos. Ele e mais quatro irmãos propuseram fazer um centro de física no Rio de Janeiro. O João Alberto, também inteligente, topou logo. Voltei para os EUA e deixei no Brasil uma procuração com o Leite Lopes. Em uma certa madrugada, em que eu estava procurando mésons em Berkeley, recebi um telefonema do João Alberto, dizendo que tinham fundado o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF) e que eu era o diretor-científico.

O dia da assinatura da ata de fundação do CBPF coincidiu com a descoberta da fotoprodução de mésons pi. Os mésons são produzidos com feixes de raios gama que são fótons com energia muito mais alta que os da luz. Na verdade, nem sei onde esse trabalho foi publicado. Um mês depois, terminou a bolsa da Rockfeller. Voltei e fiz uma loucura, que a gente só faz na mocidade. Tinham me oferecido, em tempo integral, uma cadeira na Universidade de São Paulo, com assistente, biblioteca e tudo mais. Em vez disso, vim para o Rio com contrato para dar dois seminários por semana na Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil e ser diretor-científico de um centro que era só uma ata registrada em cartório.

E o que o senhor deixou para trás nos EUA?

Lá me ofereceram um lugar em Harvard, mas nem pensei nisso. Queria voltar para o Brasil. Naquele tempo, ninguém ia para lá com a idéia de fazer carreira. Ninguém queria ficar lá. A gente pensava, digamos em linguagem um pouco patriótica, em melhorar o Brasil. Dá para entender esta frase nos dias de hoje? Então, como o Nelson Lins de Barros entrou na história da fundação do CBPF? Em Berkeley, ele era secretário da embaixada brasileira. Eu tinha encontrado com ele na manhã daquele "carnaval de jornal" que foi a detecção dos mésons e ele me perguntou qual era a novidade. Só respondi que tinha comprado um carro. À tarde, ele leu a notícia em um jornal, e me ligou criticando o que chamou de excesso de modéstia.

E como o CBPF saiu do papel?

O próprio Nelson dizia que todo mundo achava que o João Alberto era ladrão — na época, tinha até o verbo "joãoalbertar". Então, pedi para ele ir falar com o irmão para devolver um pouco desse dinheiro para o CBPF. Ele comentou essa brincadeira com o João Alberto. Quando cheguei ao Brasil, encontrei-me com o Nelson e o British, outro irmão e militar da Marinha. Para a surpresa de todos, quando chegamos na casa do João Alberto, soubemos que a mulher dele era irmã de criação do Leite Lopes. Fazia 20 anos que não se viam. Foi assim que nasceu o CBPF. Tudo em família.

Por três meses, o João Alberto ofereceu 30 contos de réis por mês. Alugamos, na rua Álvaro Alvim, na Cinelândia, três salas: uma para a biblioteca, uma para a secretaria e outra para sala de aula. Doei minha biblioteca, o Lauro Nepomuceno deu a dele, que era maior, o jornalista Lourenço Borges também, e logo se formou um bom acervo. Arranjamos dinheiro para assinar as revistas mais importantes e na Marinha a gente retirava material eletrônico usado enquanto o almirante dormia. Na saída, ele dava licença para a gente passar no "paiol", que para marinheiro quer dizer almoxarifado. Assim se fizeram os primeiros aparelhos eletrônicos. O Lauro contratou um mecânico e comprou um torno.

Depois, conseguimos dinheiro com o Mário d'Almeida, o banqueiro que tinha mais dinheiro vivo no Brasil. Ele nos recebeu secamente e perguntou quanto precisávamos. Fizemos a conta e dissemos 500 contos. Ele disse que estava bem: "Estará amanhã na conta, sem juros. Podem tirar cem por mês." Assim saiu o primeiro prédio do CBPF. Depois, o João Alberto ficou doente, em tenda de oxigênio, e o Paes Leme, que era da Câmara de Vereadores, me disse para não me preocupar e não desistir do CBPF. Toda noite, pelo rádio, ele fazia uma campanha contra o Evaldo Lodi, presidente da Confederação das Indústrias, porque ele não prestava contas do dinheiro do Sesi (Serviço Social das Indústrias). O Lodi recebeu o Paes Leme e a mim, e concordou em dar 100 contos por mês ao CBPF.

Mas o Lodi aceitou receber o Paes Leme?

O Paes Leme acabou com a campanha contra o Lodi. Enfim, agüentamos assim até vir o Conselho Nacional de Pesquisas. Foi uma história interessante. Lodi era um homem esclarecido, e esses 100 contos por mês vinham de uma verba secreta para o combate ao comunismo. Por isso, eu nunca precisei assinar recibo. Isso eu só soube há uns 10 anos. Apesar disso, o CBPF era considerado um antro de comunistas e judeus. Tinha o Antônio Monteiro, o Leopoldo Nachbin, o Jayme Tiomno etc. Logo que o Jacques Danon voltou da França, propus contratá-lo para o CBPF. Mas aí o Conselho de Segurança soube que ele era muito amigo do Jorge Amado, que era ligado ao comunismo na França e que tinha sido expulso pelo governo francês.

Deram-me um ultimato: "Se vocês botarem o Danon no CBPF, nós cortamos a mesada." Chamei o Danon e disse a ele para procurar trabalho com o Augusto Zamith, que era professor da Escola Nacional de Química da Universidade do Brasil. E não se falou mais nisso. Esperei e só na volta dos EUA, em 1959, consegui contratar o Danon.

Ainda fazem exposições em Chacaltaya?

O laboratório de Chacaltaya é uma realidade importante para a física não só do Brasil, mas mundial. Ainda hoje, muitos países o usam. Na realidade, não há laboratório melhor para o estudo de raios cósmicos. Os chineses tentaram fazer um na mesma altitude, mas só o usam três meses por ano por causa das nevadas e do acesso difícil. Para Chacaltaya, você vai de táxi. Quando eu trabalhava lá, houve um problema administrativo no CBPF e então fui obrigado a voltar. As coisas estavam ruins por aqui, estavam tentando fechar o CBPF. Foi extremamente desagradável mas deu para superar com bastante desgaste meu. Foi aí que resolvi ir para Chicago.

E verdade que em 1955 o senhor foi convidado para substituir o Enrico Fermi na direção do Acelerador de Chicago, mas não quis?

Não foi assim. Ofereceram-me um lugar lá. O Fermi tinha morrido, mas não me ofereceram o lugar dele. O Fermi era essencialmente um teórico. Um grande físico, mas ele não deixava os alunos usarem o serviço das microscopistas. Não deixava os alunos usarem nada, eles próprios tinham de construir os equipamentos. Uma perda de tempo. Por isso, tudo lá estava indo mal. Eu era responsável pela turma do Fermi. A única coisa interessante para mim foi um aluno dessa turma que estudava a chamada "não conservação da paridade", de Tsung Dao Lee e Chen Ning Yang. Eu não gosto dessa denominação, mas hoje é a mais aceita. Foi minha única interação em Chicago. A universidade ficava num lugar muito ruim. Você abria a janela e quando começava a escrever uma mancha preta caía sobre o papel. Tinha gente muito simpática, o Marcel Schein, o G. Wentzel, o V. Telegdi e o Leo Szilard. O único com quem conversei sobre física foi o Szilard.

O senhor disse: "nós queríamos melhorar o Brasil". Isso significa que as pessoas não ficavam lá fora por que queriam desenvolver a física aqui?

Sempre achei que só se pode melhorar a qualidade de vida de uma nação formando cidadãos pensantes. Isso significa educação primária essencialmente, que só pode ser feita com bons professores secundários. Para ter boa educação secundária, precisamos de bons professores universitários. E para isso necessitamos de pesquisa. A sensação que tínhamos era que o Brasil poderia dar um bom pulo se houvesse gente bem-treinada e capacitada.

Na realidade, não foi nem a Inglaterra nem os EUA que me deram a formação de físico. Foi em São Paulo, com o Wataghin, com o Occhialini e com o Damy.

Quando cheguei em Bristol, o Powell, que era o "dono-da-bola", tinha deixado as chapas em cima da mesa e o Occhialini, com tradição de raios cósmicos, estava estudando espalhamento de partículas em chapas velhas. Quer dizer, não aprendi nada com eles, a não ser inglês.

O senhor recebeu o prêmio da Academia de Ciência do Terceiro Mundo, o TWAS. Como foi seu discurso na entrega?

Fui a Trieste (Itália) e fiz o discurso inaugural da Primeira Reunião Internacional do Papel da Mulher para o Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Terceiro Mundo, você já pensou? Eles concentraram o prêmio e essa reunião em um só evento. Eu estava com a Martha, minha mulher. O Abdus Saiam, paquistanês, me chamou para compor a mesa. Respondi que estava com minha mulher e ele me disse: she will find a place to seat (ela encontrará um lugar para sentar). Fui para a mesa, na qual o Saiam era o único de pele escura. O restante parecia tudo caucasiano, a maioria de origem germânica. Então, falei sobre meu trabalho, que não tinha nada a ver com essa reunião. Mas o maior incômodo foi o fato de os negros estarem todos na platéia e a mesa, com exceção do Saiam, ser composta de brancos. Quer dizer, você vê que o mundo não muda, não é?

O senhor disse: "vou receber o prêmio da Academia de Ciência do Terceiro Mundo, mas a primeira coisa que vou perguntar é o que é esse tal de Terceiro Mundo, já que para mim não há diferença". Então, o que é o Terceiro Mundo para o senhor?

Quem inventou a palavra Terceiro Mundo, se não me engano, foi Nehru. Não gosto dessa palavra, porque se sabe perfeitamente que nós, classe média, vivemos bem melhor que a maioria dos norte-americanos. Qual é a norte-americana que pode ter uma empregada para fazer limpeza etc. O pessoal aqui é privilegiado e se a gente estivesse nos EUA viveríamos com um padrão de vida bem pior que o daqui. Então, o que é o Terceiro Mundo? Não é um Terceiro Mundo por questões, digamos, de incapacidade técnica. É incapacidade política. A África é diferente, são questões tribais, enquanto na índia o problema é essencialmente religioso. Chamar tudo isso de Terceiro Mundo é um erro.

Para mim, só existe um mundo. O que interessa é a renda per capita que define o nosso Estado. Dentro de cada um desses terceiros mundos tem de tudo, e a gente sofre por masoquismo ou talvez porque sejamos pessoas de bom coração.

Na verdade, não podemos ditar muito as regras. A gente tem que ficar quieto. Mais que o problema entre países desenvolvidos e subdesenvolvidos, me assusta a excessiva propaganda na informatização. Estou muito mais preocupado com a penetração subliminar da televisão, que mina a herança cultural do país. Temo muito mais a biotecnologia e a engenharia genética do que esse desequilíbrio entre os hemisférios Norte e Sul, porque essa diferença socio-econômica vai se acertar de um jeito ou de outro. Mas o impacto da biotecnologia e da engenharia genética sobre a herança cultural do país é assustador e pode ser tarde demais para voltar atrás.

Em sua época se fazia uma física de vanguarda. A falta de dinheiro era driblada com a criatividade?

Os primeiros físicos tiveram a capacidade de escolher uma física barata, mas pesquisando assuntos de fronteira. Quem iniciou a física no Brasil foi um brasileiro, o Joaquim da Costa Ribeiro, com o efeito Costa Ribeiro. No Physics Abstract, no qual se apresentam resumos de trabalhos científicos, está o chamado Costa Ribeiro Effect. Mas pouca gente da comunidade científica sabe disso. O Wataghin, apesar de teórico, escolheu trabalhar raios cósmicos. O padre Roser, que começou o departamento de física da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, também vinha de raios cósmicos. O Bernard Gross, que iniciou outra escola, mais de estado sólido, veio de raios cósmicos. Acho que a física de hoje em dia, mesmo a da matéria condensada, tem que ser cara.

Então, com que se faz ciência?

No meu campo, dinheiro não é muito importante. Todo dinheiro que precisei sempre me foi concedido. Quando foi preciso duplicar as câmaras de emulsões em Chacaltaya, deram-me dinheiro. Na minha área o importante é que haja um grupo mínimo, que interaja e que tenha criatividade. Deve-se pôr constantemente em dúvida o que está escrito nos livros. Não é uma coisa sistemática de negar o que está lá, mas simplesmente devemos reexaminá-los, porque os tempos passam. Deve-se ter muito medo dos livros didáticos, de pedagogia. Gostaria de citar três afirmações que não são minhas: "Quem sabe faz, quem não sabe ensina, e quem não sabe ensinar ensina a ensinar." Posso estar errado, mas é básico o que antigamente se chamava "a procura da verdade". Francisco de Campos tem uma nota ao pé da página naquele livrão do Fernando Azevedo, sobre cultura brasileira, dizendo que se você em vez de procurar a verdade quiser resolver problemas, você praticamente se autocastrará;

As grandes descobertas da ciência foram feitas até há pouco tempo por acaso, por gente que queria saber como era feita a natureza. Seguiam o conselho de Leonardo da Vinci: "Vá aprender suas lições na natureza." Quando se começa a dizer que a universidade deve servir à comunidade e que tem que igualar nosso padrão de vida ao do Primeiro Mundo, isso não é mais ciência, é outra coisa. Na universidade, se você falar em coisa que não tem aplicação, o reitor fica de orelha em pé, não quer saber. O Pasteur dizia: "não há ciência pura e ciência aplicada, há ciência e aplicações da ciência". Ele fez aplicações formidáveis do ponto de vista econômico. Só o carbúnculo rendeu mais que as reparações de guerra da Alemanha, segundo a Enciclopédia Britânica. Sem contar a pasteurização, o bicho-da-seda e, no fim da vida, a vacina anti-rábica. Mas quem era Pasteur? Era um professor secundário de física, química e cristalografia. Tinha uma curiosidade grande de iniciar coisas. Fez a tese na École Normale, em Paris. Depois, onde foi dar aula, tinha vinho e cerveja.

Aí, veio a pasteurização. Ele, embora professor secundário, tinha a alma de cientista. Queria saber, por exemplo, se havia geração espontânea ou não. Há coisas muito interessantes na natureza.

Se o senhor pudesse escolher de novo, o que o senhor gostaria de ser?

Gosto de bichinhos, insetos, aracnídeos, de ler sobre o casamento do "aranho" com a aranha, como é que ele faz para cair fora a tempo. Por exemplo, uma coisa que acho curiosa: sempre pensei que a fêmea do louva-a-deus comesse o corpo do macho só depois de terminado o acasalamento. Não, ela já comeu a cabeça do louva-a-deus, mas ele continua seu... "desempenho". Essas coisas são interessantes. Não é preciso fazer projetos de milhões de dólares. Confesso que se eu fosse começar tudo de novo, não seria naturalista, porque isso depende do governo. Seria veterinário.

O senhor já pensou antes em ser veterinário?

Sim, há muito tempo. Mas antes, em geral, não havia veterinários, a não ser nas fazendas. Os bichinhos de estimação a gente mesmo tratava, fazendo as gemadas e preparando remédios caseiros.

O senhor ainda é contrário à pós-graduação em física?

Quando fiz o último exame da graduação em física, o Wataghin me disse: "César, você passou, agora é um profissional. Não aceite fazer mais exame algum, não leve mais exercício para casa, não faça curso algum, a não ser de extensão ou de especialização. Qualquer dúvida vá à biblioteca ver os artigos originais. Se não for suficiente, vá a colegas mais experientes. Se não der, meta a cara, que o soldado se faz é no campo de batalha." Continuo a achar que essa receita é certa e não a da pós-graduação. O professor Marcelo Damy, que recentemente foi homenageado em São Paulo pelos seus 75 anos, deu uma declaração no final de seu discurso que reflete mais ou menos isso, mas de um modo muito mais elaborado e com mais finura.

O senhor, com quatro filhas e nove, netos, se considera um vovozão?

César Lattes - Não sei, pergunte a Martha.

Martha Lattes - Acho que ele é mais avô do que ele é pai. É um vovozão, sim. Os netos são encantados.

César Lattes - Gostaria de levar meus netos menores para ensiná-los a pescar. Faço umas malandragens, dou um livro sobre um colecionador de bichos, já dei um microscópio etc. Enfim, faço minhas malandragens. Além dos presentes de aniversário e de Natal, de que a Martha se encarrega, faço um jogo assim subversivo-liminar. Tínhamos uns microscópios antigos lá na universidade e sei lá se não os jogaram no lixo. Creio que estão guardados no porão. São binoculares. Falei com o encarregado e perguntei se a universidade não poderia me vender um, porque senão vou acabar comprando um monocular, que me custa mais caro.

Qual é a faixa de idade que o senhor gosta de interagir?

Quanto menor melhor. E mais genuíno.

Aquela sua idéia inicial de ser professor de física do segundo grau, que o Wataghin tirou de sua cabeça, nunca mais voltou?

O problema é que não havia tempo. Às vezes, me chamavam para dar uma aula aqui ou lá. Sempre me dei muito bem com alunos adolescentes, mas nunca fiz isso sistematicamente.

Martha Lattes - Mesmo interagindo pouco, o César tem uma capacidade muito grande de ir direto ao ponto e transmitir aquilo que é realmente importante. Tanto que tem a história do nosso neto de sete anos que disse: "Não sei por que o vovô é tão sabido?" A mãe então respondeu: "Quando o vovô não sabe, ele procura na enciclopédia." Aí, ele pensou e concluiu: "Sabe mamãe, quando eu crescer quero ser igual a ele." O que César não nota é que, além dessa capacidade de transmitir oralmente, ele subliminarmente transmite o gosto e a curiosidade pela natureza. Acho que, quando ele explica para adolescentes, as coisas também se tornam muito claras.

Como foi a sua graduação?

No bacharelado, aprendia-se em três anos mais ou menos o que se aprende agora em quatro e mais algumas pós-graduações. Equação de Schrödinger e equações de Maxwell, aprendi no segundo ano. Termodinâmica, não aprendi. Até hoje não sei termodinâmica clássica. Só sei estatística, porque o professor de termodinâmica era uma ótima pessoa, mas muito didático e o livro que ele adotava era muito ruim. Claro, sei o essencial. Sei inclusive que a segunda lei foi descoberta antes da primeira. Como se chegou ao conceito de entropia, não sei. Estatística, aprendi com o Wataghin, quando estudamos termodinâmica em temperaturas e pressões muito elevadas. Uma coisa importante, em toda universidade que se preze, é a história da ciência.

Para encerrar, o senhor gostaria de acrescentar alguma coisa?

Vou dizer algumas citações da minha filosofia do cotidiano. A primeira é: "A história é a mais importante das ciências". Acho que foi o editor da correspondência de Erwin Schrõdinger que disse isso, citando as idéias do próprio Schrödinger. Sei que sem história não há realidade objetiva. A segunda é de um sujeito bem antigo, Tomás de Aquino, que diz: "A ciência não pode prever o que vai acontecer, só pode prever a probabilidade de algo acontecer." Isso é o que os cientistas só descobriram em 1927, com o princípio de incerteza e outras coisas mais. "A missão da ciência é acrescer e coordenar nossos conhecimentos empíricos." Essa citação é de Niels Bohr. Acrescentaria novamente a frase de Leonardo da Vinci: "Vá aprender suas lições na natureza." Gostaria de continuar com mais duas citações. A primeira é sobre o bom senso e não sobre ciência. "Não busque ser sábio demais, nem justo demais, você quer se arruinar?", do rei Salomão, que está escrita na Bíblia. Leio a Bíblia há muito tempo, porque gosto. No Livro da Sabedoria, que também é atribuído a Salomão, está dito: "a sabedoria não entra de jeito algum na alma malvada". Acho que está aí a distinção entre sabedoria e ciência. A sabedoria realmente não entra na alma malvada... mas a ciência sim.