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Carmen Portinho

(1905 - 2001)

Entrevista concedida a Vera Rita da Costa (Ciência Hoje).

Publicada em novembro de 1995.

Seu nome está ligado a dois empreendimentos vitais para as artes plásticas: O Museu de Arte Moderna e a Escola Superior de Desenho Industrial. Mas, para chegar aí, Carmen Portinho enfrentou preconceitos e desafios. Como ter que escalar, logo no primeiro dia de trabalho — por ordem de um chefe machista — o telhado do prédio da prefeitura do Rio de Janeiro, para fiscalizar um pára-raios.

À frente de seu tempo, numa época em que os estudos técnicos eram menosprezados e o acesso feminino ao ensino superior era uma raridade, Carmen Portinho foi a terceira mulher a se formar engenheira civil na Escola Politécnica da antiga Universidade do Brasil. E, como se não bastasse, a recém-formada engajou-se em duas frentes de luta: a da conquista dos direitos civis e políticos e a do reconhecimento profissional para as mulheres. A engenheira tornou-se, então, militante feminista.

De uma visita à Inglaterra do pós-guerra, trouxe a experiência da reconstrução urbana, sobretudo das áreas populares. À frente do MAM, do qual foi diretora por mais de 15 anos, lutou pela renovação estética da arte, "criando o Atelier de Gravura, de onde saiu uma geração de artistas", lembra a artista plástica Fayga Ostrower. Sempre pioneira, Carmen realizou as primeiras exposições de vanguarda no Rio de Janeiro. Na Escola Superior de Desenho Industrial (Esdi), enfrentou os duros anos da década de 60, protegendo os alunos, para que não caíssem nas mãos da polícia. Numa época em que se busca resgatar a imagem da mulher e sua contribuição nas diversas áreas do conhecimento, Carmen Portinho, aos 90 anos, mantém-se ativa, trabalhando como assessora do Centro de Tecnologia da UERJ e participando de júris de arte.

Quando a senhora se formou, em 1925, mulher na engenharia era uma raridade. Por que a senhora escolheu essa carreira?

Antes mesmo de terminar o curso preparatório, prestei exame para a Escola Nacional de Belas Artes e passei. Naquele tempo, se você tivesse aprovação em oito exames preparatórios, poderia se matricular e fazer o curso. Então, enquanto ainda completava os preparatórios, eu já estava cursando Belas Artes. Quando terminei todos os exames, fui com uma professora do preparatório à engenharia para saber se poderia fazer o curso. Lá descobri o que eu queria: uma carreira que me permitiria a independência econômica, coisa que a Escola de Belas Artes não me daria logo. Naquele tempo, todos que se formavam em engenharia arranjavam trabalho. Eu entrei muito nova na Escola Politécnica: com uns vinte anos já estava formada. Era a de engenharia civil. Antes de mim — cursando o terceiro ano quando eu entrei — estava a Maria Esther Corrêa Ramalho. Também havia passado pela escola a Edwiges Becker. As duas, quando se formaram, foram trabalhar no setor público, na prefeitura do Distrito Federal: a Maria Esther na Diretoria de Viação e Obras e a Edwiges na Diretoria de Portos de Mar. Mas ainda cursei Belas Artes por dois anos, o suficiente para que a arte ficasse em mim.

Qual foi a reação de sua família diante dessa escolha profissional?

Meu pai era um homem progressista. Ele concordou com a minha escolha, sem preconceitos. As pessoas perguntavam: "você vai deixar sua filha tão jovem entrar para um curso de engenharia?". Ele dizia: "mas ela quer apenas estudar..." Eu não tinha parentes engenheiros e nem houve indicação. Apenas uma professora do curso preparatório me ajudou e orientou. No meu tempo era comum os pais interferirem na escolha profissional. Os meus pais, não! Eles queriam que eu estudasse e me proporcionaram tudo para isso, desde pequena. Hoje é completamente diferente: há muitas mulheres formadas e os pais nem querem saber.

Por que a senhora queria ser independente financeiramente?

Éramos nove irmãos e eu era a mais velha. Daí a minha preocupação em seguir uma profissão que me desse independência financeira.

Na Escola Politécnica a senhora sofreu influência de algum professor em especial?

Em especial, não. Mas lembro-me de vários deles: do professor Maurício Joppert, de hidráulica, e do Amoroso Costa, de astronomia, que morreu na queda do avião durante o vôo sobre a baía de Guanabara em homenagem ao Santos Dumont. Também me lembro do Sampaio Corrêa, do Belfort Roxo e do Henrique Morize, que nos dava aulas de física e era diretor do Observatório Nacional. Foi ele quem trouxe a Madame Curie para dar uma aula na escola. Isso deve ter sido por volta de 1920. Achei-a fantástica, mas não estive diretamente com ela, porque eu tinha acabado de entrar na Politécnica, era aluna do primeiro ano e ainda muito criança — tinha somente uns quinze/dezesseis anos.

Qual foi seu primeiro emprego?

Essa é uma história curiosa: no dia da colação de grau, em abril de 1926, minha mãe chamou minha atenção para uma nota no Jornal do Brasil, dando conta de minha nomeação como engenheira-auxiliar para a prefeitura do então Distrito Federal. Estranhei e só durante a entrega dos diplomas entendi a notícia: o prefeito Alaor Prata foi o paraninfo da turma e como eu era a única mulher, ele achou de me homenagear, contratando-me para trabalhar na Diretoria de Obras e Viação da prefeitura.

Ele a escolheu apenas por ser mulher?

Acho que sim. Fui convidada por acaso, porque era a única mulher da turma. Como fui uma das primeiras mulheres a se formar em engenharia civil, fui muito festejada pelos colegas. Além do que, eu era boa aluna e uma das bolsistas. Naquele tempo, os próprios alunos elegiam três colegas que não deveriam pagar para cursar a faculdade.

Houve, então, certa vantagem inicial em ser mulher?

Não sei. Talvez. Sempre fui boa aluna, mas bons alunos sempre há muitos. Talvez também tenha pesado o fato de ser bem conhecida. Naquele tempo, apesar de jovem, já era feminista. Pertencia a entidades feministas, como a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino e já lutava pelo direito de voto. Também havia fundado a União Universitária Feminina junto com a Berta Lutz. Nós milhávamos muito pelos direitos políticos e civis das mulheres.

A senhora não enfrentou preconceitos?

Claro que sim. Quando fui dar aulas no Colégio Pedro II, em 1925, ainda era estudante do último ano de engenharia. Foi um escândalo: o próprio ministro da Justiça não se conformava de uma mulher estar dando aulas num internato de meninos e quis me tirar de lá. Mas ele não conseguiu e permaneci por mais três anos até decidir pedir demissão.

A senhora hesitou em aceitar a nomeação para a prefeitura do Distrito Federal?

Essa nomeação me causou muita dúvida, porque já havia sido escolhida para trabalhar na Ilha das Cobras, numa obra federal chefiada pelo professor Maurício Joppert. Estava contente com essa proposta, porque além de ser aluna nota 10 no exercício prático de hidráulica, eu gostava muito desse professor. Mas o trabalho que ele me oferecia deveria durar pouco mais de dois anos. Como meu pai havia morrido três meses antes da minha formatura e era a filha mais velha, decidi aceitar o trabalho na prefeitura, porque era mais estável e me permitiria, ainda, continuar lecionando no internato do Colégio Pedro II.

A senhora foi uma das primeiras engenheiras a ocupar um cargo público. Qual foi a reação dos seus colegas de profissão?

A Diretoria de Viação e Obras da prefeitura, para a qual fui nomeada, era ocupada por um velho engenheiro que nunca tinha visto uma mulher engenheira na vida e talvez nem soubesse que existisse. Quando me apresentei para tomar posse, ele torceu o nariz e, visivelmente, não gostou. Dizem que não há discriminação contra a mulher no trabalho, mas há! Naquele tempo era ainda pior. Tanto que a primeira tarefa que esse diretor me deu foi a inspeção do pára-raios instalado no alto do edifício antigo da prefeitura. Para fazer esse trabalho, teria que subir no telhado e ele achou que por ser mulher não conseguiria fazê-lo. Indiretamente, essa tarefa foi uma forma de discriminação: ele queria me testar. Ele queria me ver em cima do telhado! Mas se deu mal, porque quando era estudante eu pertenci ao Centro Excursionista Brasileiro e estava acostumada a fazer alpinismo. Para quem já havia escalado todos os morros do Rio de Janeiro, subir em um telhado era sopa! Muito mais difícil para mim foi saber como funcionava o tal pára-raios.

Como a senhora lidou com as primeiras disputas na carreira?

No início, eu era muito ambiciosa, queria fazer carreira e mostrar que a mulher era capaz. Eu trabalhava muito e não me conformava com o fato das promoções por merecimento dependerem de "pistolão". O tal diretor a quem estava subordinada tinha lá suas simpatias... e eu não queria ficar esperando a promoção por tempo de serviço. Fiquei arquitetando uma forma de ser promovida por merecimento e acabei achando um jeito: fui direto ao Washington Luiz, que era o presidente da República.

Por que direto ao presidente da República?

Porque toda segunda-feira o presidente dava audiência pública: ele ficava lá no gabinete horas em pé ouvindo queixas e pedidos. Então, eu peguei aquela fila imensa e, quando chegou a minha vez, contei o caso: "Sou engenheira, trabalho na prefeitura, dou conta do meu dever e trabalho muito. Podem consultar os meus chefes. Agora vai haver promoção e me considero com merecimento para recebê-la. Só que não conheço ninguém para me apresentar. Vim pedir ao senhor que saiba da minha vida, do meu trabalho e me ajude, caso julgue que mereça." Washington Luiz respondeu: "Pois não!", e disse para o comandante Braz Velloso, que o acompanhava nas audiências: "Tome nota e providencie isso!"

E deu certo o seu pedido de promoção?

Não sei exatamente o que o Braz Velloso fez. Só sei que acabei sendo promovida de praticante técnica para engenheira de segunda classe. O tal diretor ficou muito bravo. Quando fui receber a promoção ele disse: "A senhora pode estar certa que não dei um passo para sua promoção". Eu apenas agradeci.

O fato de a senhora ser feminista interferia no seu relacionamento profissional?

Entre os colegas da Escola Politécnica nunca senti discriminação. Eles eram muito solidários e, inclusive, apoiavam nossa luta pelos direitos das mulheres. Agora, entre os velhos engenheiros, senti discriminação, sim. Eles não aceitavam facilmente que a mulher se expusesse. Mesmo na Câmara e no Senado eu também sentia isso: havia políticos velhos simpáticos à nossa causa, mas havia uns danados que achavam nossas reivindicações um desaforo. Tanto que custamos muito a obter o direito de voto, e não o obtivemos pela Câmara e pelo Senado. Infelizmente, só o conseguimos quando veio a ditadura de Getúlio Vargas.

De que forma Vargas apoiou as feministas?

Como o movimento pelo voto feminino era muito conhecido, Getúlio Vargas aproveitou a reforma da lei eleitoral e atendeu às reivindicações feministas. A concessão do direito de voto às mulheres foi um dos seus primeiros atos como ditador e, com isso, ele acabou ficando simpático a tudo quanto é mulher, principalmente às militantes.

Como foi sua atuação à frente desse movimento pelo voto feminino?

Nas décadas de 20 e 30, eram poucas as mulheres que se formavam na universidade, mas esse número já começava a aumentar. Então, resolvemos fundar a União Universitária Feminina, para incentivar e ajudar as mulheres que se formavam. A associação foi fundada em 13 de janeiro de 1929, na minha casa, e de seu início participou também a Berta Lutz. Estavam presentes: Maria Esther Ramalho, Sylvia Vaccani, Natércia Silveira, Orminda Bastos, Luiza e Amélia Sapienza, além de outras mulheres que agora não recordo o nome. Nós tínhamos a seguinte estratégia: sempre que uma mulher passava no exame para a universidade — em medicina, direito, engenharia ou qualquer outra área — procurávamos por ela e lhe oferecíamos o "Chá das calouras", aliciando-a para a associação. Quando uma mulher se formava, oferecíamos o "Chá da vitória", íamos buscar as mulheres uma por uma, de modo que isso se tornou muito conhecido. Nós nos dedicávamos muito e o feminismo era para nós uma luta muito importante. Chegamos a sobrevoar o Rio de Janeiro de avião, lançando panfletos em defesa do voto feminino. Isso no tempo em que nem aviões decentes existiam. Mas a União Universitária Feminina não foi a única associação que fundamos. Havia a Federação Brasileira para o Progresso Feminino, criada em 1919, que era muito mais forte. A Federação foi iniciativa da Berta Lutz que, em 1924, nos representou na Câmara, como deputada. Para a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino atraímos a Maria Eugenia Celso, escritora; a Ana Amélia Carneiro de Mendoça, primeira mulher presidente da Casa do Estudante; a Maria Luiza Bittencourt, advogada brilhante; a Joana Lopez, médica famosa, e muitas outras. Mais tarde, em 1937, criamos também a Associação Brasileira de Engenheiras e Arquitetas.

Como a senhora conciliava a militância e o trabalho de engenheira?

Na própria prefeitura, eu atuava de forma a ajudar as mulheres. Torcia pelo sucesso das mulheres e sempre que tinha chance indicava uma para as vagas que surgiam. Coloquei várias mulheres no setor público, que naquele tempo era menos preconceituoso que o privado. Como eu tinha muitas relações, sempre indicava as recém-formadas em engenharia para os cargos que surgiam. Acredito que as outras mulheres também o faziam, porque era uma orientação da própria Associação Brasileira de Engenheiras e Arquitetas que havíamos fundado: "entrosar e ajudar as mulheres que se formavam a ingressar no mercado de trabalho".

Tínhamos muita cobertura da imprensa. Na década de 30 existia o jornal O País, que era o jornal do governo, e nos apoiava. Também o Jornal do Brasil nos dava muito espaço. O Barbosa Lima Sobrinho era o secretário-executivo do JB e publicava nosso material. Dessa forma, ele teve papel importante no feminismo brasileiro, apoiando as primeiras mulheres e suas lutas. Para não ficar para trás, os outros jornais também nos abriam espaço. Aconteceram várias manifestações de rua, mas não foi um movimento de massas. Nossa ação era mais de pressão sobre as bancadas na Câmara e no Senado.

Além do voto, que outras vitórias o movimento feminista alcançou?

Tivemos outras vitórias, pequenas mas importantes. Naquele tempo, era quase obrigatório, porque usual, adotar o nome do marido. Hoje, não é mais assim. Nós fomos as primeiras a propor que as mulheres não mudassem seu nome ao casar. Eu mesma não adotei o nome de meu marido. Nós achávamos que isso seria uma demonstração de independência e resistência. Eu fiz meu nome, o nome com que nasci. Agora, muita gente faz o nome do marido e quando se torna conhecida, ninguém sabe se é por competência ou por causa do marido.

A senhora foi responsável pela introdução de um novo conceito de construção no Brasil — o da habitação popular. Como foi isso?

Desde o início da minha carreira fui para o canteiro de obras. Lembro-me que a primeira construção que fiz foi a Escola Ricardo de Albuquerque, no subúrbio, uma escola pública primária que ainda existe. Depois, fiz o curso de Urbanismo, uma espécie de pós-graduação que durava três anos e exigia a defesa de uma tese para sua conclusão. Lembro-me que tínhamos aulas de história e filosofia da arte com o Mário de Andrade, que passou dois anos aqui no Rio de Janeiro. Era a primeira iniciativa em Urbanismo no Brasil e nossa turma tinha apenas oito pessoas. Fomos os primeiros urbanistas com registro no Conselho de Engenharia e Arquitetura, mas ainda não havia como exercer a profissão.

Como se deu o salto para a prática?

Na época da guerra, fui ao Conselho Britânico e me candidatei a uma bolsa, para estagiar junto às comissões de reconstrução e remodelação das cidades inglesas destruídas. Eu achei que era uma maneira de aprender na prática o que havia visto no curso de Urbanismo. Como eu já tinha curriculum e era conhecida, o Conselho Britânico aprovou minha ida para a Inglaterra como convidada.

Quando cheguei lá a guerra ainda não havia terminado inteiramente. Os problemas eram gravíssimos, havia racionamento de alimentos e muitas famílias desabrigadas. Havia cidades totalmente destruídas, que precisavam ser refeitas antes da guerra terminar, prevendo-se a volta dos combatentes. Esse período de estágio na Inglaterra foi muito importante para mim. Pude sentir o problema da falta de moradia no pós-guerra e acompanhar de perto as propostas e o esforço para a sua solução. Quando caiu a bomba em Hiroshima e a guerra terminou, o governo britânico resolveu me mandar de volta, mas ainda havia muitas minas explosivas no mar e os navios não navegavam com segurança. Então, eles acharam por bem me mandar passear na Escócia... Quando voltei ao Brasil, propus ao então prefeito do Rio de Janeiro a criação de um Departamento de Habitação Popular. Afinal, por motivos diferentes, a habitação popular também era um problema grave por aqui. O prefeito aceitou a proposta e acabou me nomeando diretora do novo departamento. Foi aí que me destaquei como engenheira e que minha carreira deslanchou, pois logo que assumi propus a construção dos primeiros conjuntos habitacionais. O primeiro, que foi construído na década de 50, é o conjunto residencial Pedregulho, em São Cristóvão. Foi a construção dos conjuntos habitacionais que me deu muito nome no Brasil e no exterior como engenheira.

Os conjuntos nunca haviam sido cogitados antes?

Não. A idéia era fazermos em cada bairro um conjunto habitacional para os funcionários da prefeitura que trabalhavam próximos. O conjunto de Pedregulho foi o que fez mais sucesso, inclusive no exterior. O projeto é de meu marido, o arquiteto Afonso Eduardo Reidy, já falecido, e foi publicado em várias revistas internacionais. É um conjunto residencial padrão. Mas o conjunto do bairro da Gávea, projetado também por Reidy, eu não cheguei a terminar, porque o Carlos Lacerda assumiu a prefeitura e eu não estava muito de acordo com as orientações dele. Então, pedi minha aposentadoria e saí do Estado.

Para assumir a construção do Museu de Arte Moderna, não foi?

Isso mesmo. O projeto do MAM também é de Reidy. Ele trabalhava no Departamento de Habitação Popular, na realização dos projetos, mas a construção era minha. Desde o início da carreira sempre gostei do trabalho na obra.

A senhora é reconhecida também como crítica de arte. Nessa época a senhora já se dedicava à arte ?

Não. A construção do MAM durou alguns anos e então é que comecei a me dedicar à arte. Fui convidada a dirigir o museu. Durante quinze anos fui diretora executiva adjunta do MAM e, nesse período, trabalhava com arte dia e noite, organizando as exposições de artistas de muitos países e dirigindo a construção do prédio.

Na década de 60 a senhora se tornou diretora da Escola de Desenho Industrial (Esdi), também uma proposta inovadora para a época. Como foi sua experiência dirigindo uma escola?

Fiquei muito empolgada com o convite do governador Negrão de Lima. Naquela época não existia escola desse tipo no Brasil e quase ninguém sabia o que era desenho industrial. As pessoas pensavam que desenho industrial era desenho de máquinas... Mesmo no exterior, eram poucas as escolas desse tipo: a mais famosa era a Bauhaus, na Alemanha. Dirigi a Esdi por mais de vinte anos e só saí porque a UERJ, à qual a Esdi foi subordinada, instituiu a norma de rodízio para cargos de direção. Quando saí, o reitor Ivo Barbieri me convidou para trabalhar como assessora no Centro de Tecnologia e Ciência.

Embora não tivesse militância política e partidária, a senhora sempre se orientou para a esquerda. Isso não causou problemas durante o regime militar?

Não. Mas a Escola de Desenho Industrial sofreu muito. Eu evitava me envolver diretamente porque era preciso manter a escola e defender os alunos. Não podia impedir que os alunos fossem presos e exilados, como alguns foram, mas podia ajudá-los. Se eu abrisse o jogo e caísse nas malhas da polícia, os alunos, e mesmo alguns professores, estariam perdidos. Eu funcionava como uma certa retaguarda, impedindo a polícia de entrar na escola. Só não pude "agüentar" os alunos quando eles foram para o congresso da UNE em Ibiúna e foram presos. Nesse tempo, corri muito risco, mas me salvei.

E a sua biografia, a senhora já pensou em escrevê-la?

Minha vida é muito complicada. Isso tudo que estou lhe contando é apenas um trechinho...