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Carlos Chagas Filho

(1910 - 2000)

Entrevista concedida a Darcy F. de Almeida (Instituto de Biofísica, UFRJ).

Publicada em julho/agosto de 1983.

Carlos Chagas Filho nasceu no Rio de Janeiro em 12 de setembro de 1910. Realizou seus primeiros estudos no Colégio Resende e ingressou em 1926 na Faculdade Nacional de Medicina, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, formando-se em 1931. Ainda estudante universitário, iniciou sua formação científica, estagiando como auxiliar de laboratório no Instituto Oswaldo Cruz.

Em 1935, tornou-se livre-docente pela Faculdade de Medicina e em 1937 obteve por concurso a cátedra de física biológica da mesma faculdade. Foi supervisor do Serviço Especial de Grandes Endemias do Instituto Oswaldo Cruz em 1941-1942.

Ao transformar o antigo Laboratório de Física Biológica em instituto, fundou o Instituto de Biofísica da então Universidade do Brasil, que dirigiu de 1946 a 1964. Em 1951, participou da criação do Conselho Nacional de Pesquisa (hoje Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, CNPq), tendo sido diretor de sua Divisão de Pesquisa Biológica de 1951 a 1954.

Em 1956, foi designado presidente do Comitê de Estudos sobre os Efeitos das Radiações Ionizantes, iniciando na Organização das Nações Unidas uma atividade que iria prolongar-se por muitos anos. Assim, em 1962, foi escolhido secretário-geral da Conferência das Nações Unidas para a Aplicação da Ciência e da Tecnologia ao Desenvolvimento, cargo que ocupou até 1966.

Presidiu a Comissão de Cursos de Pós-Graduação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que implantou a pós-graduação na universidade, de 1962 a 1966. Em 1964, ocupou a diretoria da Faculdade de Medicina da UFRJ, ao mesmo tempo em que era eleito presidente da Academia Brasileira de Ciências, permanecendo nos dois postos até 1966, ano em que foi nomeado embaixador e delegado permanente do Brasil junto à UNESCO. Transferiu-se então para Paris, onde morou até 1970.

De volta ao Brasil, tornou a ocupar a direção do Instituto de Biofísica que fundara 25 anos antes, permanecendo no cargo até 1973, quando foi nomeado decano do Centro de Ciências da Saúde da UFRJ. Aposentou-se compulsoriamente em 1980, mas continuou em atividade na UFRJ, participando do ensino e da pesquisa. Desde 1972, preside a Academia Pontifícia de Ciências do Vaticano.

Ao lado de seu desempenho científico, o professor Chagas tem cultivado também o interesse pela cultura em geral, tendo presidido a Comissão de Temporadas Musicais do Conselho de Cultura do Estado da Guanabara (1972-1974) e o Comitê Internacional de Salvaguarda de Veneza (Itália) em 1979. Foi eleito para a Academia Brasileira de Letras em 1974.

Sua contribuição científica está centrada no estudo do órgão elétrico (eletroplaca) do poraquê do Amazonas (Electrophorus electricus). No Instituto de Biofísica, promoveu estudos que descreveram a organização estrutural e a citoquímica do órgão elétrico, bem como a existência de um núcleo central de comando da descarga de eletricidade. Verificou-se que o órgão tem uma excitabilidade direta, por estímulo aplicado localmente, e outra indireta, mediada pelas vias nervosas. O mecanismo e o efeito da aplicação de curare sobre as descargas também foram explorados para o esclarecimento dos mecanismos da bioeletrogênese. Assim, foi Chagas quem iniciou as pesquisas para elucidar o mecanismo molecular de produção da descarga, através da tentativa de isolamento do receptor da acetilcolina, substância química responsável pela transmissão do estímulo nervoso para a eletroplaca; introduziu então as noções de receptores específicos e inespecíficos.

No esforço para manter atualizada a pesquisa no Instituto de Biofísica, Chagas foi o responsável pela adoção, na pesquisa biomédica brasileira, de técnicas como a microscopia interferencial e de outros métodos especiais de exame ao microscópio, além da ultracentrifugação, da cromatografia, da eletroforese e dos traçadores radioativos.

Professor Chagas, o senhor é um cientista prestigiado, bem-sucedido, num país subdesenvolvido. Que fatores teriam sido determinantes desse sucesso?

Em primeiro lugar, eu acho que foi o apoio que recebi de Annah, minha mulher. Na época em que se iniciavam os métodos do que hoje se chama medicina nuclear, eu teria a chance, se tivesse entrado na profissão, de fazer um pecúlio enorme. Com o conhecimento que eu tinha, e particularmente com meu nome, eu teria feito uma grande carreira profissional. Contudo, Annah se dispôs a enfrentar comigo a vida de cientista. O segundo fator, que é muito sutil, é que havia uma atração toda especial para a pesquisa nos moços. Eu fornecia a eles o que era bom e recebia o estímulo de que eu precisava. A troca era perfeita, e como a diferença de idade era relativamente pequena, de dez ou quinze anos, existia um entendimento e uma linguagem comum entre nós.

O senhor mencionou o fato de que seu nome poderia lhe ter proporcionado uma carreira profissional tranqüila, caso houvesse decidido pela prática médica. Tendo optado pela trajetória do cientista, até que ponto seu nome influiu nela?

Eu acho que meu nome foi uma faca de dois gumes. Quando eu fazia exames na faculdade, ainda estudante, se me saísse bem, com distinção, é porque era filho do Carlos Chagas, quando não fazia um exame bom, era o cúmulo que o filho do Carlos Chagas não se distinguisse. Mas não há a menor dúvida de que o nome de meu pai me auxiliou muito. Meu pai já tinha morrido quando eu prestei o concurso para a cátedra de física biológica. O fato de Evandro, meu irmão, ter sido pouco antes usurpado no seu concurso para a cátedra de medicina tropical fez com que todas as precauções fossem tomadas para que o mesmo não acontecesse comigo no concurso para a física biológica. De outro lado, a morte súbita de Evandro produziu uma consternação total e me permitiu ter entrada livre no Ministério da Educação, com o ministro Capanema, para institucionalizar o Serviço de Endemias, criado pelo Evandro, e no Dasp, com o Luís Simões Lopes. Os dois eram amigos e admiradores intensos do Evandro. Só para dar um exemplo, no dia em que eu precisei contratar gente para o Instituto de Biofísica, fui ao Simões Lopes e ele me contratou imediatamente a Hertha Meyer, o Moura Gonçalves, o Veiga Salles e o René Wurmser, criando uma nova categoria de funcionário, o técnico especializado. Foram os quatro primeiros contratados. Isso mostra que o nome de meu pai serviu muito. Acho que minha carreira não teria sido o que foi se eu não tivesse tido o nome de meu pai, teria sido muito mais difícil.

Outro aspecto que eu gostaria de abordar é justamente o da atividade junto aos órgãos administrativos, em contraste com a atividade de pesquisa, na bancada do laboratório. Que tipo de equilíbrio foi estabelecido entre os dois tipos de trabalho, no caso do Instituto de Biofísica?

No meu caso, eu acho que a atividade administrativa prejudicou a atividade científica. Mas, em compensação, impediu que meus colaboradores e colegas fossem obrigados a um trabalho que é muito ingrato e difícil, e que eu fiz, sempre que possível, pelo telefone. Também aí o nome foi importante: "Aqui está falando Carlos Chagas" é, infelizmente, muito mais ouvido do que "Aqui está falando José de Sousa". E horrível dizer isso, mas é verdade. Fazendo um cálculo aproximado, eu diria que, nos primeiros tempos do instituto, a proporção era de 80% do tempo para a ciência e 20% para a administração; nos últimos anos, antes de minha ida para a Unesco, era de 20% para a ciência e 80% para a administração. Atualmente, o que me preocupa é ver que muitos dos nossos cientistas mais novos acham que administração é poder e desejam fazer parte dela, quando teriam toda a vantagem em construir sua carreira através do trabalho de bancada. Por outro lado, criou-se na universidade um sistema de burocracia que impede, na maioria dos casos, que grandes pesquisadores dediquem mais do que 40% de seu tempo à atividade de pesquisa, porque cerca de 60% são consumidos em reuniões de conselhos, de departamentos, ou ainda com relatórios, o que me angustia terrivelmente. Isso eu procurei evitar o quanto pude na direção do instituto.

Dr. Chagas, o Instituto de Biofísica nunca teve um prédio próprio. Havia alguma conveniência em permanecer na Faculdade de Medicina da Praia Vermelha, ou foi a sua famosa superstição que o impediu de tirar o instituto da Praia Vermelha?

Houve dois fatores importantes. O primeiro é que um instituto isolado de outros centros de pesquisa vive com muito mais dificuldade; a vinda para o Fundão, sob esse ponto de vista, foi muito benéfica, porque nos facilitou o contato com outros departamentos, possibilitando maior influência mútua. Há também um outro detalhe: a administração se resumia a mim e a Donana (Ana Maria Leão Teixeira), então, para que criar complicações? Coisas como o pagamento de luz, gás, telefone iam para a faculdade e não nos criavam problemas. Quanto à minha superstição, eu acho que é um sinal de poesia. Cada um tem as suas superstições. Eu lembro sempre uma passagem de um livro de Graham Greene, creio que England Made Me, onde uma pessoa pergunta: "Como é que você, sendo católico, pode ser supersticioso?" Ele diz: "Superstição é como o bastão que o alpinista leva, sem o qual ele não pode viver no alto da montanha." Eu estou muito feliz com as minhas superstições.

Voltando ao terreno científico, como se poderia comparar a atividade de pesquisa científica que está sendo ou deveria ser realizada no hemisfério Norte, ou seja, nos países mais desenvolvidos, e nos países do Terceiro Mundo, incluindo o Brasil?

Em primeiro lugar, os métodos científicos são iguais, ou pelo menos eram iguais até há bem pouco tempo, já que de alguns anos para cá desenvolveu-se uma sofisticação de aparelhagem que torna a pesquisa mais difícil para os países em desenvolvimento. Quero me referir, por exemplo, ao fato de que ninguém mais usa um aparelho registrador sem um computador ao lado, facilidade que muitas vezes não se encontra acessível aos centros menos desenvolvidos. Contudo, a condução do raciocínio experimental é absolutamente idêntica num e noutro caso. Agora, os cientistas dos países em desenvolvimento devem se preocupar em empregar esses métodos, seja para aumento do conhecimento, seja para aplicações de ordem prática, utilizando o mais possível modelos que lhes estão disponíveis. Com isto, o cientista se volta naturalmente para o meio em que vive. Sua escolha indica se ele está voltado ou não para os problemas do país. A ciência é uma parte da cultura do país, de modo que nós não devemos fazer uma ciência igual, ou copiada, em todos os setores, da ciência dos Estados Unidos, por exemplo. Não porque haja falta de dinheiro, mas porque a cultura brasileira é diferente da cultura americana.

É possível ver nessa sua resposta uma explicação para a utilização que o senhor faz do peixe-elétrico como modelo experimental, na fase de implantação do Instituto de Biofísica?

Exatamente. Eu trabalhei com peixe-elétrico e com curare porque eram modelos brasileiros, com os quais eu poderia lidar com facilidade. Por isso, praticamente todos aqueles que se formaram no Instituto de Biofísica, pelo menos os da primeira e segunda geração, passaram algum tempo trabalhando com o peixe-elétrico.

E foi essa a única razão?

Não. Existem aí dois fatores: um puramente científico e outro de filosofia (acho horrível esse termo, na acepção saxônica que geralmente se lhe dá) ou de política científica. Como eu havia estudado muita física, e como meu forte era a físico-química e termodinâmica, que eu estudara com o Wurmser em Paris, eu desejava um modelo em que fosse possível medir as transformações da energia química. Naturalmente, poderia ter usado o músculo, mas nessa época quem se ocupava de transformações energéticas no músculo eram os grandes bioquímicos, como Meyerhof, ou então os grandes biofísicos, como A.V. Hill, e competir com eles era difícil. Mas aí assisti a uma conferência sobre um peixe-elétrico, o torpedo, feita pelo Daniel Auger, um físico, com quem trabalhava o Fessard, um biólogo. Fui verificar a bibliografia e constatei que nada havia sobre o poraquê, apenas sobre o torpedo. Foi por isso que escolhi como modelo de trabalho o peixe-elétrico. Se não tivesse sido o peixe, o modelo que eu escolheria seria a preguiça. Não sei quando, mas certamente bem no começo de meu trabalho, é que surgiu esse tipo de orientação, que cada vez mais se enraíza em mim, de que nos países subdesenvolvidos devemos usar as técnicas mais avançadas em modelos autóctones. O peixe-elétrico do Amazonas era um caso típico. A ignorância sobre os processos eletrogênicos do órgão elétrico era total. Havia apenas uma boa monografia do Coates, Cox e Nachmansohn. Comecei a trabalhar e tornei-me eletrofisiologista malgré moi, pela necessidade de conhecer a fenomenologia do órgão elétrico e para poder estudar os mecanismos da eletrogênese.

Parece assim que sua viagem à Europa em 1937, logo após seu concurso para a cátedra, foi de grande importância para a sua carreira. O que foi que a originou? Como ela foi planejada?

Eu me preparei para o concurso durante dois anos, porque o concurso foi sucessivamente adiado. Fui professor interino em 1935, durante todo o ano, cargo que deixei em fevereiro de 1936, já com as inscrições abertas, e o concurso só foi realizado em outubro de 1937. Durante esse tempo estudei, no mínimo, dez horas por dia. Quero contar uma coisa muito interessante. Para estudar, encomendava livros na Livraria Kosmos, que se chamava então Livraria Alemã. Graças ao Erich Eichner, pude fazer uma dívida de 12 contos de réis, que só paguei quando recebi de uma só vez 14 contos e 400 mil réis de salários atrasados. Além do mais, tive uma aprendizagem extraordinária de técnicas físicas. Fiz 98 práticas de física, a maioria das quais no admiravelmente bem montado Laboratório de Física da Escola Politécnica. A cadeira era dirigida pelo Dulcídio Pereira, mas o chefe do laboratório era o Joaquim Costa Ribeiro, um perfeccionista experimental. Essa aprendizagem foi complementada com um curso de medidas elétricas que fiz no laboratório do Instituto de Eletrotécnica, do qual era chefe o Francisco Mendes de Oliveira Castro. Com ele aprendi coisas na época extraordinárias, como a medição das características de galvanômetros balísticos. As práticas que eu aprendi eram as práticas executadas pelos alunos do curso de engenharia elétrica, o que considero uma coisa estupenda. De modo que, quando cheguei à Europa, após o concurso, eu estava preparado tecnicamente, mas ainda inteiramente cru quanto à aplicação e utilização das técnicas modernas em biologia. Foi assim com um certo espanto que vi os novos potenciômetros, e particularmente os oscilógrafos catódicos, na Fundação Singer-Polignac, do Colégio de França, onde trabalhei com o Fessard. Em seguida fui para a Inglaterra, onde tive a vantagem de estagiar no laboratório do A. V. Hill e depois no laboratório do Adrian. Acho que uma pessoa que vá para o exterior, como eu fui, muito bem preparado teoricamente, lucra imensamente mesmo com um curto estágio. Vi coisas que pude aplicar imediatamente na minha volta.

Que tipo de relação poderia ser estabelecida entre seu desempenho na universidade e sua passagem prévia por Manguinhos?

Esta questão é muito complexa e compreende um longo espaço de tempo. Minha posição em Manguinhos era muito difícil, até a morte de meu pai. Muita gente me considerava excessivamente protegido por ele. Quando, depois de sete ou oito anos de trabalho cotidiano e regular no Instituto Oswaldo Cruz, já formado em medicina, eu fui contratado como auxiliar de laboratório, houve críticas terríveis ao meu pai. Por outro lado, eu também trabalhava na Faculdade de Medicina, como assistente de anatomia patológica, e sentia, como meu pai, que faltava à universidade o exercício da pesquisa. A cadeira de meu pai era a que mais se aproximava dessa associação, mas a pesquisa era na verdade realizada em Manguinhos. Pouco depois me transferi para a cadeira de física biológica, porque pressenti que ali teria um campo enorme e da maior importância não só para o trabalho experimental como para a formação de gente capacitada. Aí apareceu a oportunidade do concurso. Pouca gente sabe que fui eu quem sugeriu que o Miguel Osório de Almeida fosse provido na vaga de Francisco Lafayette Pereira. Ele já havia feito o concurso com o próprio Lafayette, vinte anos antes, e embora isso significasse o fechamento de um acesso para mim, eu achava que o Miguel Osório era uma pessoa que deveria poder transmitir aos alunos o seu conhecimento, sua larga experiência adquirida em Manguinhos. Uma das grandes angústias minhas em relação a Manguinhos era justamente a incapacidade daqueles grandes mestres e grandes figuras multiplicarem seu conhecimento, transmitindo-o aos jovens. Quando a faculdade, seis meses depois, recusou o provimento da vaga ao Miguel Osório, eu me inscrevi. Desde então estava decidido a não acumular cargos, porque havia aprendido na própria carne, acumulando as funções de auxiliar de laboratório em Manguinhos com o cargo de assistente de anatomia patológica, e depois de física biológica, que estava fazendo mal as duas coisas.

Seria esta a origem mais remota de sua idéia de implantação do tempo integral na universidade?

Sim, isso estava em mim. Após o concurso, em outubro de 1937, veio o Estado Novo, no dia 10 de novembro, e com ele a nova Constituição, denominada de "Polaca". Eu sempre disse que o único artigo bom dessa Constituição era aquele que não permitia as acumulações. Contudo, não havia previsão de compensação salarial para as desacumulações. Assim, optei pela faculdade, contra a vontade expressa de meus amigos e de meu irmão, que consideravam impossível fazer pesquisa na universidade.

Segundo alguns, o brilho científico de Manguinhos já diminuíra nessa época. Esta possível circunstância teria influído na sua opção pela universidade?

Eu considero um abuso muito grande a afirmação de alguns de que a glória de Manguinhos não foi mantida. O trabalho em muitos setores de Manguinhos continuou com grande produtividade até o momento em que, com o aparecimento de um mau diretor, Manguinhos teve alguns dos seus melhores elementos excluídos de seus quadros. Até aquele momento, vários departamentos ou setores do instituto continuavam muito bem. Ocorre ainda que, até l935 ou 1940, nenhuma outra instituição brasileira tinha a massa e a qualidade de produção de Manguinhos. Portanto, não havia termo de comparação. Talvez tenha havido um erro de orientação, no sentido de que não houve renovação de quadros que permitissem a Manguinhos acompanhar mais facilmente a nova biologia que surgia. Essa posição foi defendida por Walter Oswaldo Cruz, por Haity Moussatché e outros. No que diz respeito à doença de Chagas, à zoologia médica, às grandes endemias, Manguinhos continuou perfeitamente bem, até que veio o ato discriminatório, condenável, que tirou de Manguinhos alguns dos melhores pesquisadores que o Brasil possuía. Aí sim é que se pode falar de uma decadência. Além disso, há também o fato de que se tentou transformar o Instituto Oswaldo Cruz num instituto de saúde pública. Devemos louvar aí a ação do Aragão, que impediu o predomínio maior do setor de saúde pública. Eu acho que o Instituto Oswaldo Cruz tem que ser um instituto de medicina experimental e medicina preventiva, que coopere com as atividades de saúde pública. Mas não se pode, de modo algum, inibir ou dificultar a atividade que possibilita o desenvolvimento da ciência biomédica no país. Aquela tendência já existia em 1942, quando o Capanema me convidou para ser o diretor de Manguinhos, e por causa disso não aceitei o convite.

Durante muitos anos, o Instituto de Biofísica foi sinônimo de Carlos Chagas, e vice-versa. Atualmente, embora o senhor ainda mantenha aqui o seu laboratório, seus estudantes, não existe mais esse equacionamento entre a instituição e a pessoa. Como foi feita a transição?

Eu planejei a transição durante muito tempo. Estava disposto a fazer uma grande excursão ao exterior; esperava apenas que minha filha mais moça, Cristina, atingisse uma certa idade, que seria o fim do curso científico, para passar uma larga temporada nos Estados Unidos ou na Europa, quando surgiu o convite para que eu assumisse a embaixada do Brasil na Unesco. Aliás, essa foi uma das razões por que eu aceitei o cargo. Então, o que fiz eu? Criei o Conselho Departamental e fiz passar no Conselho Universitário o regimento novo do instituto. Porque até bem pouco tempo antes, o instituto era eu; como costumo dizer, eu não varria o instituto porque tinha gente para fazer isso, mas, se fosse necessário, varria mesmo.

Caso as oportunidades surgissem hoje, e não na década de 40, que tipo de orientação o senhor daria a uma instituição para que ela crescesse, prosperasse e se firmasse no cenário científico?

Em primeiro lugar, dar ao cientista a maior liberdade de pesquisa. Depois, impedir o mais possível que ele seja envolvido em coisas que o distraiam de sua atividade criadora. Ao mesmo tempo, observar sua evolução para poder detectar o momento em que ele pode decolar autonomamente.

Quer dizer que os princípios fundamentais não mudaram, desde 1947 até agora?

Os princípios fundamentais são ligados ao homem, não é?

O senhor poderia se referir à sua atuação como presidente da Academia Brasileira de Ciências?

Foi também um período muito interessante. Primeiro porque eu substituí um homem de merecimento, e depois porque foi a época em que os cientistas se posicionaram - como se diz agora - contra o governo Castelo Branco. Tenho a certeza de que dei vida à academia. Uma das condições que impus para aceitar o convite para ser embaixador na Unesco foi a de que fossem colocados fundos patrimoniais à disposição da academia, o que foi feito. Ademais, eu reunia a diretoria da academia uma vez por semana, de modo que havia uma discussão permanente dos problemas da academia. Pouca gente sabe, por exemplo, que eu fui o primeiro presidente da academia a levar um presidente da República à nossa sede. O Castelo Branco foi. Há uma função fundamental da academia que foi exercida durante o meu mandato: assim que eu assumi a presidência, o Walter Oswaldo Cruz me entregou uma representação dos cientistas de Manguinhos contra a administração Rocha Lagoa. Não tive dúvidas: reuni na academia, nos dias 5 e 6 de agosto de 1965, todos os acadêmicos que eram membros do Instituto Oswaldo Cruz para uma discussão ampla. Fiz um resumo das deliberações, que levei especialmente ao Castelo Branco. Daí minha surpresa, aliás, quando ele me convidou para ir para a Unesco.

Eu acho que a Academia de Ciências tem a obrigação da defesa da ciência em termos gerais, bem como a da defesa do cientista perseguido. E num país subdesenvolvido, ela tem mais do que nunca a obrigação de sugerir os espaços que devem ser ocupados, fazer programas para isso. A academia, por exemplo, há dez anos passados, deveria ter indicado a importância da biologia molecular, ou da engenharia genética. É uma função necessária da academia mas não é o que acontece.

Professor Chagas, o senhor é presidente da Academia Pontifícia de Ciência, do Vaticano, desde 1972. Quais são seus objetivos de trabalho lá, e como se situam as relações entre religião e a ciência?

O objetivo maior é o de fazer com que ciência e religião não sejam antagônicas. Não vejo por que se deva eliminar uma pessoa do círculo científico por ser ela religiosa, ou um religioso deixe de levar em consideração o agnosticismo de outro. Estou procurando mostrar que não há incompatibilidade entre a verdade científica e a revelação: são duas coisas que tratam de espaços diferentes. Uma trata da realidade da vida, a outra trata do transcendental. E a Bíblia, que é um livro muito interessante de ser lido (principalmente Isaías), não procura ensinar à gente nada de ciência, e sim uma ordem moral. Como disse o papa João Paulo II, ao se dirigir recentemente aos astrônomos de todo o mundo, a Bíblia não quer ensinar como é que se fez o céu, mas quer ensinar como é que se vai ao Céu. Trata-se de um preceito teológico muito importante, relativo à questão de graça: a pessoa acredita ou não. Agora, como eu respeito as pessoas que não crêem, quero também que elas respeitem a sinceridade de minha fé.