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Aristides Leão

(1914-1993)

Pesquisa e texto de Maria Inês Duque-Estrada.(jornalista)

Em 1944, o Journal of Neurophysiology publicou um artigo intitulado "Spreading depression of activity in the cerebral cortex" assinado por um jovem e até então desconhecido pesquisador. O artigo, que anunciava a descoberta de um novo fenômeno, uma misteriosa propriedade do tecido cerebral, tornar-se-ia um clássico da literatura especializada. O autor era Aristides Azevedo Pacheco Leão, então com trinta anos, que concluía na Universidade de Harvard, Estados Unidos, seu doutorado em Ciências Médicas. Escrever esse trabalho - sua tese de PhD - nos primórdios da eletroencefalografia, foi um desafio: seus orientadores, os neurofisiologistas Arturo Rosenblueth e Hallowell Davies, lhe haviam proposto um tema bem mais simples: usar o equipamento de eletroencefalograma (EEG) para determinar a propagação de uma descarga elétrica durante epilepsia induzida através do córtex de coelhos anestesiados. Surpreendentemente, Aristides Leão, ao contrário do esperado paroxismo da atividade de alta voltagem, encontrou uma redução acentuada da amplitude do EEG, que se iniciava no local estimulado e era detectada por eletrodos colocados em linha reta e se espalhava lentamente, como uma onda, pela superfície cortical. Essa depressão propagada era reversível, voltando o traçado do EEG aspecto inicial após vinte a trinta minutos.

Esse fenômeno, que ele chamou de depressão alastrante (SD - Spreading Depression) da atividade EEG e ainda não encontrou explicação definitiva, é estudado no mundo inteiro sob o nome de Onda de Leão (Lyon's Wave). "É provável que o fenômeno tenha sido observado antes por outros pesquisadores, ao registrarem sinais eletrográficos de atividade normal e epiléptica, mas eles o menosprezaram, acreditando tratar-se de artefato ou de um sinal de deterioração do tecido cortical, destituído de interesse. Por isso, foi uma decisão arriscada devotar sua tese de doutorado a essa descoberta duvidosa. "Com tenacidade e incrível perícia, Aristides conseguiu especificar as condições em que se reproduzia o fenômeno", comentou o neurocientista tcheco Jean Bures, durante a entrega póstuma do diploma de Presidente Emérito da Academia Brasileira de Ciências (ABC) a Aristides Leão, nas mãos de sua viúva, Elizabeth Raja Gabaglia Leão - Bebeth, como ele a chamava. A cerimônia foi no dia 29 de abril de 1994, quatro meses após a morte do cientista, ocorrida em 14 de dezembro de 1993.

Bures, na ocasião chefe do Laboratório de Fisiologia da Memória do Instituto de Fisiologia da Academia Tcheca de Ciências, um dos muitos cientistas que prossegue a pesquisa da Onda de Leão pelo mundo, assinalou. "Nos anos seguintes, ele se tornou o chefe de uma escola invisível. A cidade do Rio de Janeiro tornou-se a Meca de pesquisadores dos Estados Unidos, França, Inglaterra, Japão, Alemanha, Tchecoslováquia, Dinamarca e Rússia, cientistas de diversas áreas que percebiam que a SD poderia ajudá-los em algum aspecto importante de suas próprias pesquisas. Seu exemplo mostra que descobertas importantes podem ser feitas por jovens talentosos e que vale a pena dar-lhes o crédito e o reconhecimento que merecem".

No Brasil, Aristides Leão, ajudado por seus colaboradores (Hiss Martins Ferreira, Gustavo de Oliveira Castro e Romualdo Carmo) desenvolveu estudos que se tornaram clássicos, revelando os fatos fenomenológicos mais relevantes da entidade que descobrira.

Da janela da frente, no segundo andar da casa da Urca, Aristides Leão convivia com duas coisas que amou durante toda a vida: os pássaros que pousavam nos ramos da amendoeira e, mais longe, o mar. Cinco anos após a morte do eminente neurofisiologista, seu escritório permanece praticamente intocado, permitindo ao visitante vislumbrar um pouco da personalidade e da rotina de estudos daquele que o ocupou por mais de vinte anos.

Sobre a escrivaninha, o caderno de apontamentos, canetas, um calendário de 1993, aberto no mês de novembro. Logo atrás da mesa e também voltada para a árvore e a baía da Guanabara, uma poltrona confortável convida à leitura. Livros não faltam nas estantes alinhadas nas paredes, denotando as múltiplas facetas do homem descrito por seus pares como "de prodigiosa cultura". Sua coleção de ornitologia é tida como mais completa que a do Museu Nacional. Sobressaem também obras sobre viajantes e naturalistas que por este país andaram e as prateleiras de literatura, com Cervantes, Camões, Montaigne, Goethe e autores mais recentes, brasileiros e estrangeiros, cuidadosamente encadernados. Numa prateleira, seus preferidos nas horas de relax: os casos do detetive Sherlock Holmes, de Conan Doyle.

O ambiente é de recolhimento, austero mas de bom gosto. Convida ao estudo. São poucos os ornamentos: alguns pesos para papel de vidro, um falcão de bronze, pequenas peças lembrando países que visitou; nas paredes, grandes gravuras de pássaros, duas cópias de Dürer, paisagens pintadas por sua mãe, Dona Tita, no princípio do século. Perto da porta, um grande e antigo balcão de agência de correios lhe servia de prancheta e é fácil imaginá-lo, caminhando enquanto refletia, como era seu costume, e detendo-se ali para fazer alguma anotação. Levantada a tampa do balcão, uma visão inesperada de beleza: sua coleção de conchas de várias partes do mundo.

Aristides Azevedo Pacheco Leão nasceu em 3 de agosto de 1914 na cidade do Rio de Janeiro, onde cursou o ginásio no Colégio Andrews. Desde criança foi atraído pelo mundo da ciência, influenciado pelo tio Antônio Pacheco Leão, que foi diretor do Jardim Botânico do Rio de Janeiro e que deu nome à rua vizinha ao parque. Foi esse tio quem iniciou Aristides no mundo da biologia, incutindo nele o interesse por botânica e ornitologia que o acompanharia a vida inteira. Mas ele queria ser médico pesquisador e para isso ingressou na Faculdade de Medicina de São Paulo. Porém, quando cursava o segundo ano, o inesperado interferiu em seus planos, sob a forma de um diagnóstico de tuberculose. Ele trancou matrícula e foi se recuperar em Minas Gerais e em Correias. Naquela época em que ainda não havia antibióticos, o tratamento era o pneumotórax e a cura demorou dois anos. Ao receber alta, em 1940, o desejo do jovem Aristides, então com 26 anos, era recuperar o tempo perdido. Auxiliado por um tio, reuniu recursos para viajar para os EUA, onde se matriculou na Universidade de Harvard, em Cambridge, Massachusetts, no setor de Ciências Médicas (Fisiologia). Ali obteve o grau de Master of Arts (mestrado) em 1942 e o de Doctor of Philosophy (doutorado) em 1943. Em 1944, quando publicou seu trabalho revolucionário, era Research Fellow (correlato em português) do Departamento de Anatomia daquela universidade.

"Talvez o mais importante para este auditório - disse Jan Bures na cerimônia na ABC — seja o fato de que, a despeito das oportunidades que se abriam para ele nos círculos acadêmicos norte-americanos após seu sucesso espetacular, o jovem dr. Leão voltou para o Rio e dedicou sua vida ao desenvolvimento da ciência brasileira. Por ter nascido em um país que ao longo dos séculos e, em particular nos últimos 50 anos, perdeu seus melhores valores pela emigração, sou muito atento para o problema da evasão de cérebros. Ao fazer de seu laboratório um centro de excelência internacional, o professor Leão demonstrou que a evasão de cérebros pode ser revertida".

Aos 32 anos, já de volta dos Estados Unidos, Aristides Leão foi nomeado técnico especializado da cadeira de Física Biológica da Faculdade Nacional de Medicina da Universidade do Brasil (a partir de 1965 Universidade Federal do Rio de Janeiro). Amadeu Cury, reitor da Universidade de Brasília de 1971 a 1976 e membro titular da ABC relembra:

— Conheci Aristides logo após sua chegada ao Brasil. Lembro-me bem, ainda hoje, do local onde fomos apresentados na nossa vetusta, muito querida e lembrada Faculdade de Medicina da Praia Vermelha: no espaço existente entre a escada que dava acesso ao andar superior e a barbearia da Faculdade. Esse encontro marcou o início de um permanente, rico, instrutivo e agradável convívio e de uma crescente, sólida e fraterna amizade, que se prolongou por meio século. Assim, pude acompanhar de perto o seu extraordinário trabalho, silencioso mas produtivo, e a sua capacidade de gerar idéias e pô-las em prática.

Hiss Martins Ferreira, companheiro da mesma época e mais tarde seu colaborador no Instituto de Biofísica e na ABC conta:

— Quando chegou dos Estados Unidos, Aristides foi para um pequeno espaço esconso, atrás do anfiteatro de fisiologia da Faculdade de Medicina da Praia Vermelha. Sua única ferramenta era um canivete de uma lâmina. Com bancadas de mesa improvisadas, fios elétricos, varetas de vidro e outras sobras, construiu os primeiros eletrodos para captação da atividade elétrica do córtex de coelhos. Promessas de aquisição de eletroencefalógrafo, não bem definidas, levaram-no à procura de algum tipo de aparelho de medida elétrica na preciosa "sucata" existente no antigo laboratório de Física Biológica. Encontrou em perfeito estado de funcionamento um galvanômetro que, por ser de registro óptico e inscrição em película fotográfica, estava abandonado, tal o custo do filme utilizado. Com persistência, engenhosidade e pacientes leituras diretas a cada quinze segundos, em alguns meses funcionava, em seu laboratório, um sistema de detecção de variações lentas de voltagem no córtex cerebral e, com essa aparelhagem improvisada, prosseguiu seu trabalho.

— Aristides nunca se deixou influenciar por modismos e modernismos. Muitos dos seus aparelhos foram construídos com componentes de velhos instrumentos recuperados da sucata daquele laboratório. Mas seu instrumental, graças à cuidadosa manutenção, estava sempre pronto para ser utilizado a qualquer momento. E no preparo de suas experiências nada era relegado ao acaso — assinala Eduardo Oswaldo Cruz.

Em 1947, Leão publicava no Journal of Neurophysiology seu primeiro trabalho realizado, todo ele, no Brasil. Já havia sido transferido para o Instituto de Biofísica, que funcionava também no antigo prédio da Praia Vermelha. Ainda usando a aparelhagem improvisada, mostrou que a frente da onda de depressão alastrante era acompanhada por uma variação de potencial elétrico do local invadido e que esse potencial, da ordem de alguns milivolts, era reversível, voltando o local atingido às suas condições anteriores em um a dois minutos. Tal variação lenta de voltagem do tecido nervoso, propagando-se com uma velocidade de 2-3 mm/min, constitui atualmente a marca registrada da ocorrência da Onda de Leão. Registros de variações lentas de voltagem desse tipo levaram à demonstração da ocorrência do fenômeno na maioria das regiões do sistema nervoso central, o que indica a sua generalidade em redes neurais.

— A depressão alastrante tem sido demonstrada não só em córtex cerebral de mamíferos, desde marsupiais até primatas, mas também em aves e répteis. Além disso, não é atributo exclusivo do córtex, já tendo sido detectada em várias estruturas neurais, até mesmo de invertebrados cefalópodos - explica o professor Romualdo José do Carmo, do Instituto de Biofísica, que trabalhou com Aristides Leão por mais de três décadas.

Ele destaca que a importância da SD não se limita aos estudos ligados à epilepsia: sua descoberta abriu novas perspectivas para o entendimento de outros fenômenos patológicos e também para estudos sobre o comportamento animal e a organização funcional do sistema neural, a memória e o aprendizado.

A propósito da precariedade de recursos com que trabalhou no início, Aristides Leão costumava se referir a uma categoria especial de pesquisador existente em nosso meio: o bolsista que vai se especializar nos Estados Unidos, aprende uma nova supertécnica e publica um ou mais papers com seu orientador. Ao voltar às suas origens, não consegue produzir nada e põe a culpa na falta de recursos, só publicando novos trabalhos quando arranja algum meio de novamente retornar ao estrangeiro para novo estágio:

— Aristides chamava-os de "cientistas de corda", já que só conseguiam trabalhar com a corda dada lá fora — lembra ainda Hiss Martins Ferreira.

Preocupado com o papel do cientista na sociedade brasileira e a importância da ciência no mundo atual, já em 1977, quando foi eleito Personalidade Global do ano, dizia:

— Nós notamos certa dificuldade no desenvolvimento científico no Brasil, pois esta é uma atividade não apenas nacional: depende do intercâmbio entre países e da importação de informações, materiais, equipamentos. A crise econômica mundial também tem atingido o desenvolvimento da ciência e, aqui, nos defrontamos com o problema de não poder esperar (O Globo, 18/4/77).

Durante quinze anos, Aristides Leão lecionou Anatomia e Fisiologia Comparada na UFRJ. Ex-alunos comentam que a principal característica de seu laboratório era a arrumação: cada objeto ou aparelho em uso no seu lugar certo e nos armários tudo limpo e devidamente catalogado.

— Em suas mãos, o equipamento e utensílios adquiriam perenidade, tal o zelo com que os tratava. Era respeitado por todos e sua liderança era natural, nunca imposta — conta o professor Romualdo José do Carmo.

O lema de trabalho do professor Leão era muito simples: cada vez, fazer o mais corretamente possível. Durante as experiências estava sempre atento, com invejável argúcia, para qualquer anormalidade que ocorria durante a pesquisa, recordam os antigos alunos. O mesmo cuidado dedicava à elaboração de tudo o que escrevia, fosse um texto científico ou apenas bilhetes. Nestes, empregava uma caligrafia especial, clara e simples, para evitar qualquer interpretação errônea.

Um episódio ilustra essa preocupação com a adequação e precisão da linguagem. Quem conta é Eduardo Oswaldo Cruz:

— Um domingo, ele me convidou para passar em sua casa e rever um manuscrito que seria despachado no dia seguinte. Iniciei a leitura e, num dado momento, encontrei um termo que achei não poder ser usado em determinado contexto. "Pode sim, Eduardo, o Ferrier usou". Saiu de sua escrivaninha, onde datilografava o texto na velha Royal portátil que o acompanhava desde Harvard, subiu em uma pequena escada, apanhou um delgado volume na última prateleira e, após breve busca, abriu em uma página e lá estava o termo empregado no mesmo sentido. Era a primeira edição de Functions of the brain, escrito por David Ferrier em 1876. Aristides não era apenas um bibliófilo interessado no livro per si, mas um conhecedor de seu conteúdo.

Nos momentos de lazer, Leão dedicava-se ao estudo dos pássaros e, embora se confessasse modestamente "um amador em ornitologia", chegou a publicar um livro com Helmut Sick, na época ornitólogo do Museu Nacional, além de promover a publicação de importantes obras de ornitologia, botânica e zoologia. A Ornitologia Brasileira de Sick não teria sido publicada sem o seu apoio, assim como Répteis das caatingas, de Paulo Emílio Vanzolini, Ramos-Costa e Vitt, e Plantas da caatinga, de Dárdano de Andrade Lima.

É também Eduardo Oswaldo Cruz quem relata:

- Acompanhar Aristides em um passeio pelo campo era uma experiência inesquecível. Raramente terminava-se o dia sem ter aprendido algo novo. Apontava e comentava particularidades da flora, da fauna e mesmo da formação geológica local, demonstrando a mesma segurança e conhecimento tanto no interior de Goiás quanto na Escócia. Visitávamos o Zoológico de Londres em Whipshade, onde os animais são mantidos em liberdade parcial. Ao passarmos pela borda de um lago, um sobrinho que nos acompanhava, desconhecedor de minha profunda ignorância no assunto, perguntou: "Tio, que pássaros são estes?". Limitei-me a traduzir o que estava escrito na tabuleta: "aves aquáticas africanas". Ao que se seguiu um comentário de Aristides: "Mas aquele marreco de cabeça verde só é encontrado na Ásia". Saímos do carro e de fato a tabuleta incluía um desenho das espécies em exibição, chamando a atenção para a única exceção não africana".

Paulo Emílio Vanzolini, diretor do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo e também membro da ABC, complementa:

— Como outros experimentalistas de vanguarda, Aristides era um amante da natureza, um naturalista nato. No campo, ele era uma pessoa curiosa: saía todos os dias cedo, na hora infernal da pré-madrugada dos ornitólogos, ensilhado com a parafernália de gravação do canto dos pássaros, e voltava horas depois, sereno e feliz. Entrava no mato impecavelmente vestido — calça cinzenta, camisa branca de mangas enroladas até o cotovelo, sapatos de rua — e voltava do mato impecavelmente vestido. Não se perdia, não perdia a hora, nunca deu trabalho. Poucos ornitólogos profissionais terão visto tanto do Brasil ornitológico quanto Aristides.

Outro fato que mostra o "Aristides naturalista" ocorreu durante o 1° Simpósio Internacional sobre depressão alastrante, organizado pela Federação de Sociedades de Biologia Experimental (Fesbe), em 1990. Conta Romualdo José do Carmo:

- Almoçávamos juntos quando se juntou à mesa o professor Otto Kreutzfeldt, da Universidade de Göttingen. Em dado momento, ele fez um comentário sobre os cupins que vira ao passear pelos arredores do hotel. Manifestou curiosidade pela vida daqueles animais. Estimulado pelo visitante, Aristides discorreu longamente sobre a biologia dos termitas, e com tanta profundeza que causou admiração e pasmo ao professor alemão.

Determinado, modesto, perfeccionista, organizado, Aristides Leão é também lembrado por antigos alunos e colegas como "bom papo". Discorria à vontade sobre pintura, música, literatura, história ou simples casos do dia a dia sempre que a conversa o estimulava. Depoimento significativo a esse respeito é o de Jan Bures. Embora estudando a SD desde os anos 50, com sua esposa e também cientista Olga, só na década de 60 conheceu Aristides Leão, quando este, na qualidade de presidente da ABC, passou alguns dias em Praga.

— Ficamos impressionados — conta o cientista tcheco — não só com a oportunidade de finalmente discutir ciência com nosso professor, mas também por encontrar uma pessoa gentil, modesta, que conhecia a complicada situação política e econômica de nosso país, que admirava a música, a arte e a arquitetura tcheca e demonstrava um inesperado conhecimento da nossa história e cultura.

Amadeu Cury relembra com saudades "um período extremamente agradável para todos nós que convivíamos com Aristides":

— Aos sábados, entre onze e treze horas, um grupo se reunia no laboratório de farmacologia da velha faculdade. O anfitrião era o brilhante e saudoso Lauro Sollero. A essas reuniões compareciam religiosamente, além de Aristides, Antônio Couceiro, Manoel de Frota Moreira, Arthur de Carvalho Azevedo, Maneco (Manoel) Ferreira. Às vezes, mas com alguma constância, também Paulo de Goés, Hélio Scarabôtolo e Raymundo Moniz Aragão, além de outros cujos nomes a memória me trai, diluída ao longo do tempo. Tratávamos de assuntos técnicos, científicos e administrativos relacionados às nossas instituições. Mas também conversávamos amenidades, como se ali fosse um refúgio para aliviar as preocupações e tensões acumuladas durante a semana.

Eduardo Oswaldo Cruz também recorda momentos semelhantes:

— Na Praia Vermelha, e mais tarde no Fundão, freqüentemente, ao encerrar-se o dia, Aristides passava na minha sala e dizia: "Vim apenas para um cafezinho, não posso demorar..." Isso, em inúmeras ocasiões, marcou o início de conversas que se prolongaram noite adentro. Descobri sua faceta de exímio causeur no jantar de despedida para a cientista francesa Denise Albe-Fessard, que trabalhou no Instituto de Biofísica e tinha grande estima por Aristides. Tarde da noite, quando quase todos já tinham partido, a conversa continuou pela madrugada. Ele discorreu sobre os mais variados temas, sem que percebêssemos o tempo passar. Havíamos descoberto um universo, totalmente insuspeito, oculto por um temperamento modesto e retraído.

Carlos Chagas Filho, fundador do Instituto de Biofísica que hoje leva seu nome e presidente da ABC entre 1965 e 1967, admirava na personalidade de Aristides Leão "a combinação dos melhores atributos". Simples no trato modesto, nas exposições científicas, interessante quando descrevia um fato de laboratório ou um episódio do dia a dia, "ele foi — diz Chagas Filho — uma das personalidades mais atraentes da comunidade intelectual brasileira".

— Talvez tenha influído para essa combinação o nicho familiar em que se criou, no qual imperavam a graça, a inteligência e a comunicabilidade. A começar por sua mãe, Francisca, que todos tratavam por Tita e que foi uma boa pintora de aquarelas.

Lindolpho de Carvalho Dias, ex-presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico (CNPq), conheceu os pais e irmãos de Tita, que moravam numa chácara situada no que é hoje o Largo do Humaitá e que se estendia pelas encostas do Corcovado. Ele conta:

— Era uma família grande, com quatro filhas e três filhos, de padrão intelectual bem acima da média da sociedade da época. Paulo Azevedo, um dos tios de Aristides, foi dono da conhecida Livraria Francisco Alves.

Dona Tita casou-se com Manoel Pacheco Leão e o casal foi morar num casarão no Cosme Velho. Tiveram duas filhas e cinco filhos. Aristides, o mais novo, nasceu após a morte do pai e por isso seu tio Antônio, o do Jardim Botânico, teve tanta importância em sua formação. A arte continuou presente na família: um dos irmãos, Carlos Leão, foi conhecido arquiteto e desenhista. E outro, Teófilo, casou-se com Olga Portinari, irmã do grande pintor brasileiro. Com Manoel, o irmão mais velho, Aristides aprendeu a paixão pelo mar e pela pesca. Eles foram dos primeiros a praticar pesca oceânica no Rio de Janeiro e capturaram o primeiro marlim em águas cariocas.

— Era uma das suas poucas vaidades — conta D. Bebeth — e exigia muita paciência. Mas paciência não lhe faltava. Uma vez um amigo perguntou a Aristides o que fazia quando queria observar um pássaro e o pássaro se escondia. "Fico esperando", ele disse. O amigo insistiu: "E você não se cansa?" Sua resposta foi definitiva: "O passarinho cansa primeiro!".

Entre 1967 e 1981, Aristides Pacheco Leão exerceu a presidência da ABC com independência e habilidade. Foi um período particularmente difícil para a entidade. Exemplo de sua firmeza foi o apoio que deu à Revista Brasileira de Biologia, assegurando a continuidade da publicação quando seus editores foram cassados pelo regime militar. Graças à sua interferência, a revista passou a ser publicada pela ABC.

Um dos cassados era o professor Herman Lent, membro titular da ABC desde 1966. Designado para a comissão editorial dos anais da Academia e da revista, permaneceu no cargo até 1981:

— Esse episódio, perigoso para Aristides e para a Academia da qual era presidente em virtude do momento político que o país atravessava, é a expressão de sua dignidade de seu caráter e da preocupação com o futuro da instituição e de um veículo de divulgação da pesquisa científica que se tornou importante e consolidado ao longo dos anos — diz Lent.

Iniciativas importantes do professor Leão durante seu mandato foram os projetos Estudos Ecológicos no Nordeste Semi-Árido Brasileiro e Estudos Sistemáticos e Químicos da Flora Amazônica, além de convênios que possibilitaram a concessão de bolsas de estudo de alto nível no exterior e, sobretudo, o intercâmbio internacional de cientistas.

Nos anos de 1985-91, participou ativamente nas Secretarias de Planejamento e de Ciência e Tecnologia da Presidência da República, como membro e presidente do Grupo Especial de Acompanhamento (GEA) do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Científico (PADCT). No CNPq, foi membro do Conselho Deliberativo (1960-74) e depois consultor científico (1975-84). Em 1988, logo após o vazamento de césio em Goiânia, aceitou presidir a Comissão Estadual de Radioproteção e Segurança Nuclear recém-criada. Era necessário competência, mas também, diante da comoção pelo acidente, era indispensável a credibilidade.

Apesar de todos os títulos e prêmios que recebeu, Aristides Leão foi um homem avesso à pomposidade. Não era dado a excessos verbais e em geral exercia sua crítica com humor. Quando o Instituto de Biofísica foi transferido para o campus do Fundão, ele foi visitar as novas instalações. Ao perguntarem sua opinião sobre os laboratórios, respondeu: "A planta da construção e o material empregado estão condizentes com os de um pavilhão de exposições de feiras internacionais, mas não são apropriados para o trabalho de pesquisa".

Sua simplicidade era proverbial. Eduardo Oswaldo Cruz foi testemunha de um caso que acabou virando piada entre os amigos. Um dia, ele levou o professor Aristides ao Zoológico de Brasília, cujo diretor queria ouvir a opinião do presidente da ABC sobre um projeto de criação de animais da região em cativeiro. A oportunidade para a visita surgiu sem aviso prévio e de imediato estabeleceu-se um diálogo cordial.

— Aristides deu várias sugestões para o plantio de árvores frutíferas que assegurassem a alimentação dos animais e a visita encerrou-se na modesta cantina dos funcionários com uma simples refeição. Ao sairmos, o diretor perguntou: "Mas quando virá o presidente da Academia?" Acostumado com a empáfia dos dirigentes e políticos locais, ele não queria aceitar que aquela pessoa tão simples que "bebeu cachaça e comeu lingüiça com farinha" fosse o famoso professor Leão.

Muito tranqüilo e pouco afeito a excessos verbais, Aristides Leão poderia dar a impressão de indiferença aos seres em sua volta. Nada mais falso:

— Atrás da fleuma britânica escondia-se um argutíssimo observador do cenário humano, capaz de detectar mínimas nuances de comportamento - observa Maurício Matos Peixoto, seu sucessor na presidência da ABC.

— Ele me abriu os olhos, via dez vezes mais que os outros — revela D. Bebeth, que teve um papel muito importante em toda essa história e que hoje zela pela herança científica do marido, perfeitamente organizada. Ela gosta de lembrar do lado alegre e boêmio do professor Leão, das noites em que iam ao Sacha's, famosa boate no bairro do Leme que não existe mais, para ouvir o pianista Sacha Rubin.

— Aristides apreciava os compositores clássicos, mas também adorava a música popular brasileira. Sua canção predileta era Carinhoso, de Pixinguinha.

Após sua aposentadoria compulsória, em 1984, Aristides Leão foi nomeado Chefe Emérito de Laboratório do Departamento de Neurobiologia do Instituto Biofísico Carlos Chagas Filho, onde permaneceu por mais nove anos, como bolsista-pesquisador do CNPq. No volume dos Anais da Academia daquele ano, a introdução é uma homenagem ao seu maior feito científico, a descoberta da depressão alastrante. Foi escrita por Hallowell Davies, seu orientador na tese de doutorado, então com 90 anos. Disse ele: "Só pelo raciocínio cuidadoso e pela experimentação igualmente cuidadosa podemos fazer progressos". E, referindo-se à escolha de Leão para sua pesquisa inédita, observou: "Um fenômeno fisiológico não precisa ser plausível para ser real. Nunca subestimem a complexidade do sistema nervoso central".