_NOSCRIPT

Portal do Governo Brasileiro
canal-ciencia

Busca Avançada

Amílcar Vianna Martins

(1907-1990)

Entrevista concedida a Ângelo Machado (Departamento de Zoologia, UFMG) e Roberto B. de Carvalho (Ciência Hoje).

Publicada em abril/maio de 1990.

Ao referir-se a algumas passagens de sua vida que, embora aparentemente triviais acabariam por torná-lo um pioneiro em certas áreas de pesquisa biomédica, o professor Amílcar Vianna Martins costuma dizer: "Nasci com uma estrela na testa." Foi a partir de uma conversa corriqueira com um médico de Bambuí que ele cavou as pistas para identificar o primeiro caso de doença de Chagas naquele município do interior mineiro. De outra feita, um amigo enviou-lhe uns "bichos" estranhos que encontrara no meio de sua criação de tilápias. Ao examiná-los, identificou a Craspedacusta sowerbyi, tornando-se o primeiro pesquisador brasileiro a registrar a presença de medusas de água doce no país. Mas, ao creditar à sua estrela o sucesso na vida científica, ele na verdade lança mão da retórica para disfarçar seu enorme talento de pesquisador das ciências naturais.

Nascido na Belo Horizonte do início deste século, o professor Amílcar começou muito cedo a catar besouros e a guardá-los em caixas de charuto. Daí a tornar-se o maior colecionador de flebótomos do continente americano não faltou muito. Zoólogo por natureza, formou-se em medicina, pois o curso era, na época, o que mais se aproximava de sua vocação. Antes mesmo de formado, já se dedicava à pesquisa e à saúde pública no Instituto Ezequiel Dias, verdadeira ilha de excelência científica na provinciana Minas Gerais dos anos 20. Daí em diante os itens que passaram a engrossar seu vasto curriculum vitae se avolumariam num ritmo exponencial. Esteve nos Estados Unidos para aperfeiçoar-se nas técnicas de estudo das riquétsias, dedicou-se a pesquisas sobre a doença de Chagas e a esquistossomose, esteve à frente do primeiro levantamento sobre os barbeiros de Minas Gerais e, entre dezenas de outras atividades, desenvolveu minuciosa tese sobre as mutucas, e em 1949 tornou-se professor catedrático de parasitologia da Faculdade de Medicina da UFMG. Aposentado compulsoriamente pelo AI-5, em 1969, deixou o Brasil para dedicar-se a pesquisas sobre flebótomos. Hoje, aos 82 anos e com mais de cem trabalhos publicados, continua pesquisando. Redige no momento um artigo de revisão sobre os flebótomos e pensa rever um trabalho descritivo sobre as espécies americanas desses insetos.

A formação do cientista começa em geral muito cedo, na infância, quase sempre por influência da família. Com o senhor também foi assim?

Não sofri nenhuma influência, nenhuma pressão de parentes nesse sentido. Nem pais, nem avós, nem tios, ninguém me influenciou. Pra falar a verdade, acho até que foi bom não ter acontecido. Sou de uma família de profissionais liberais, de burocratas. Meu pai, por exemplo, era funcionário público. Desde menino, sempre tive uma tendência muito grande para as ciências naturais, de modo especial para a zoologia. Eu gostava muito de colecionar insetos. Coletava-os, espetava-os em alfinete comum e os guardava em umas caixas de charuto, de madeira, que havia naquela época. Comecei minhas aventuras zoológicas colecionando coleópteros (besouros). Se mais tarde fui estudar medicina, é porque na ocasião não havia um curso que formasse zoólogos. O que estava mais próximo era o de medicina. Tornei-me médico, mas, a não ser em circunstâncias muito especiais, nunca exerci essa profissão. Mas o que eu pretendia ser mesmo era um naturalista viajante, como aqueles do século passado.

Quando o senhor começou a trabalhar na Fundação Ezequiel Dias?

Eu era o caçula de uma família de dez irmãos e meu pai ganhava pouco como funcionário público. Minha mãe achou então que seria natural eu contribuir um pouquinho... Um amigo meu, médico, acabou me levando até o professor Octávio Magalhães, que era o diretor do Instituto Ezequiel Dias e amigo da minha família. Muito prontamente, ele concordou com que eu fosse trabalhar lá. Eu estava no segundo ano do curso de medicina. Naquela época o instituto funcionava na Praça da Liberdade onde hoje está a Biblioteca Pública Estadual. O instituto tinha um serpentário que era uma espécie de atração turística da cidade. Quando passávamos por ali, costumávamos escalar os muros do prédio para tentar ver as cobras lá dentro.

O Instituto Ezequiel Dias era muito importante naquela época, pois no Brasil só havia dois outros do gênero: o Instituto Manguinhos, no Rio de Janeiro, e o Butantã, em São Paulo. O Instituto Ezequiel Dias, cuja finalidade era fazer pesquisa e cuidar da saúde púbica do estado, era uma filial do Instituto Manguinhos. Para mim foi uma escola excelente; as coisas que aprendi lá me foram muito úteis. No instituto se faziam coisas muito diversificadas, mas o que mais chamava a atenção era o soro antiofídico, seu mais tradicional produto. Quando comecei a trabalhar lá, já se produzia esse soro. Aliás, além dele, só o Butantã produzia soro antiofídico no Brasil. Como fazíamos também exames de saúde pública, acabei adquirindo uma boa experiência nessa área. Nesse período, à exceção do que se fazia no Instituto Ezequiel Dias, praticamente não havia pesquisa em Belo Horizonte.

Como era o ambiente de trabalho na Fundação Ezequiel Dias naquela época?

O Instituto Ezequiel Dias exerceu uma influência muito grande na formação da mentalidade científica da cidade. Não seria exagero dizer que ele foi uma espécie de berço das ciências biológicas de Minas Gerais. Às quintas-feiras havia uma reunião no instituto para discutir temas científicos. Além do tradicional café com bolo, havia debates muito proveitosos. O diretor do instituto selecionava artigos de revistas científicas nacionais e estrangeiras que deveriam ser lidos pelas pessoas que lá trabalhavam — os estudantes inclusive — e discutidos nos encontros posteriores. A essas reuniões compareciam muitos professores da Faculdade de Medicina, como, por exemplo, o professor Carlos Chagas — primo de Carlos Chagas, descobridor da doença de Chagas — o Henrique Marques Lisboa, o Baeta Vianna e muitos outros, pois, à exceção da biblioteca do instituto, não havia em Belo Horizonte nenhuma outra biblioteca científica de qualidade. A da Escola de Medicina ainda não existia. Sem dúvida, por dar acesso à produção científica internacional, essas reuniões tinham um valor muito grande. Assinávamos revistas não só brasileiras, mas também dos Estados Unidos, França, Inglaterra, dos países escandinavos. E essa biblioteca era aberta a todos que quisessem consultá-la. Infelizmente o Ezequiel morreu pouco tempo depois, ficando em seu lugar o professor Octávio Magalhães. O Ezequiel, ele vinha da Escola de Manguinhos, com que mantínhamos relações muito estreitas. Afinal, como já disse, o instituto era uma filial de Manguinhos.

Que pesquisadores mais o influenciaram em sua carreira científica?

Já que estamos falando do instituto, gostaria de me referir especialmente ao Aroeira Neves, com quem aprendi muito e a quem devo grande parte de minha formação científica. Ele trabalhava lá há algum tempo e tinha uma enorme experiência de laboratório. O diretor do instituto era o Ezequiel Dias, que havia contraído uma tuberculose e tinha vindo a Belo Horizonte para tratar-se. Ele estava muito doente. Aliás, naquela época vinham muitos tuberculosos para cá por causa do bom clima. E vieram pessoas de excelente nível, médicos e pesquisadores, muitos do Instituto Manguinhos. A propósito, a Faculdade de Medicina de Minas Gerais surgiu graças a essas pessoas. Eu diria que o clima favorável à cura da tuberculose gerou um clima favorável ao florescimento científico em Minas Gerais.

Devo também boa parte de minha formação científica ao professor Marques Lisboa. Depois de formado, fui assistente dele na cadeira de parasitologia, na Faculdade de Medicina. Depois, quando se aposentou, acabei por substituí-lo. Ele exerceu uma influência muito grande sobre mim, mas, curiosamente, não do ponto de vista técnico. O professor Marques Lisboa não era um técnico; ele não fazia pesquisa exatamente. Pode-se dizer que era um filósofo. Aliás, não me lembro de ter visto, durante meu curso médico, dois bichos extremamente importantes: Trypanosoma cruzi e Schistosoma mansoni. Por outro lado, no entanto, aprendi máximas importantíssimas, como por exemplo a de que nunca devemos aceitar o fato consumado. Ele me ensinou a criticar, a só aceitar um dado qualquer depois de analisá-lo bem. Ele não fez muita ciência, mas tinha a mais pura mentalidade científica.

O tifo exantemático era objeto de pesquisa do professor Octávio Magalhães. Teria sido por isso que o senhor se interessou por estudar essa doença?

Havia surgido uma doença no país que era considerada tifo exantemático (transmitido pelo piolho). Mas, como pude verificar mais tarde, os diagnósticos estavam equivocados. Na verdade, tratava-se de uma doença chamada febre maculosa (transmitida pelo carrapato). Cheguei a ir aos Estados Unidos exatamente para estudar esse problema. Lá verifiquei que o que nós considerávamos aqui tifo exantemático — o Octávio Magalhães chamava tifo exantemático neotrópico — era na realidade a febre maculosa das Montanhas Rochosas, exatamente igual à dos Estados Unidos. Não só pude estudar melhor essas duas patologias como também aprendi a produzir uma vacina contra a febre maculosa, feita a partir do extrato de carrapatos. Eles eram infectados artificialmente, triturados, e a partir daí se fazia a vacina. Tive então que aprender a criar carrapatos para fazer a vacina. Escrevi um trabalho sobre tifo e outro sobre febre maculosa, e pude fazer as devidas correções, o acerto nos conceitos. Curiosamente, depois que eu voltei dos Estados Unidos não trabalhei mais com esse assunto.

O senhor tem vários trabalhos sobre esquistossomose publicados com a colaboração do professor Waldemar Versiani. Parece que o senhor foi pioneiro no estudo dessa doença, não?

Absolutamente, não. Os verdadeiros precursores no estudo da esquistossomose mansoni no Brasil foram o notável Adolfo Lutz, do Instituto Oswaldo Cruz, e o professor baiano Pirajá da Silva. Fui simplesmente um continuador dessas investigações. Além da esquistossomose, interessei-me também pelo estudo de outras doenças. Como sempre tive um espírito meio volúvel, estava sempre procurando me envolver com algum assunto novo. Quando outros passavam a estudá-lo, eu o deixava de lado. Isso era fundamental, pois havia tantos problemas, que não dava para me dedicar a um só durante muito tempo. Foi com esse espírito que trabalhei muito com febre maculosa, doença de Chagas, esquistossomose, leishmaniose... Mas dediquei-me também a fazer outro tipo de estudo. Veja, por exemplo, que meu primeiro trabalho publicado foi sobre grupos sangüíneos de índios. Eu tinha uma simpatia muito grande por antropologia. Como não se conheciam os grupos sangüíneos dos índios de Minas Gerais, resolvi estudar a questão. Depois desse, vieram muitos outros trabalhos, inclusive um sobre medusa de água doce.

Há um trabalho seu, feito com a colaboração de Waldemar Versiani e Antônio Augusto Tupynambá, que é considerado um clássico da parasitologia: trata-se da determinação dos principais transmissores da doença de Chagas em Minas Gerais. Como foi este trabalho?

Fiz o primeiro levantamento sobre os barbeiros (transmissores da doença de Chagas) em Minas Gerais. Não havia até então nenhum trabalho sobre isso. Com a ajuda dos estudantes das escolas estaduais, conseguimos barbeiros de todo o Estado. Procuramos a Secretaria de Educação, as diretorias das escolas, professores, e pedimos para que colhessem e nos mandassem os insetos que eles suspeitassem tratar-se de barbeiros. Dessa maneira pudemos fazer um trabalho bastante completo sobre a distribuição desses insetos em Minas. Interessei-me não só pelo estudo dos transmissores como também pela doença de Chagas. Certa vez perguntei a um colega médico de Bambuí, em Minas Gerais, se não havia por lá indivíduos com um olho inchado. Na ocasião já se sabia da relação entre esse traço — conhecido por sinal de Romana, graças a trabalhos desenvolvidos na Argentina - e a doença de Chagas. Ele me respondeu que não havia prestado atenção, mas que ia verificar. Poucos dias depois ele nos encaminhou uma menina com o olho inchado e ela estava contaminada. Estávamos diante do primeiro caso agudo de doença de Chagas diagnosticado naquele município. Logo depois foram identificados outros casos. Foi aí então que nasceu o Centro de Estudos de Doença de Chagas de Bambuí.

Qual a importância da descoberta do foco de Chagas em Bambuí?

O Carlos Chagas trabalhou no município de Lassance, em Minas Gerais. Em seu primeiro estudo, descreveu, se não me engano, 29 casos agudos da doença. Apesar desse trabalho, Chagas foi tremendamente combatido. O higienista Afrânio Peixoto fez uma guerra tremenda contra o Chagas. Não sei se por causa desses combates ou por culpa do próprio Chagas, a doença caiu em descrédito, ficou desmoralizada. Não se acreditava em doença de Chagas. Dizia-se que era uma doença que dava em pessoas desimportantes, que viviam em lugares sem muita importância e por isso ela não valia nada. O grande mérito da descoberta dos focos de Bambuí foi chamar a atenção para a doença, mostrar que ela não era tão desimportante assim e que o problema estava localizado não só em Bambuí, mas no Brasil inteiro, ou pelo menos em grande parte do território nacional. Depois de identificado o primeiro caso de Bambuí, começamos a procurar outros e, em pouco tempo, reunimos 25, que serviram de base para um único trabalho. Durante toda sua vida, Chagas descreveu 29 casos apenas.

Quem esteve ao seu lado nesse trabalho?

Houve muitas colaborações, mas eu destacaria a do Emanuel Dias, que teve uma importância enorme nos estudos sobre doença de Chagas. Nós trabalhamos juntos durante muito tempo. Após a criação do Centro de Estudos de Doença de Chagas de Bambuí, o Emanuel se encarregou de sua administração. Embora ainda trabalhasse no instituto, não continuei à frente dos trabalhos de Bambuí. Aquela época, o Instituto Ezequiel Dias já não estava mais ligado ao Instituto Oswaldo Cruz; tinha passado para o âmbito do Estado. E o governador, é bom frisar, me proibiu de ir a Bambuí.

Quem era o governador do estado nesta época e por que ele o proibiu de ir a Bambuí?

Era o Benedito Valadares, claro, que não gostava de mim. Ele dizia que o pessoal do Instituto Ezequiel Dias era vagabundo, que espetava um inseto num alfinete e ficava o dia inteiro olhando para o bicho. A decadência do instituto começou exatamente com a ascensão do Benedito ao governo de Minas. A princípio ele quis fazer uma coisa muito grandiosa, um instituto que produzisse sobretudo soros e vacinas para uso veterinário. Ele não dava muita importância ao homem, porque o que rendia dinheiro era o bicho, era o boi, era o porco. Como eu estava proibido de ir a Bambuí, o Emanuel foi sozinho e assumiu a direção do posto. Continuei trabalhando com doença de Chagas e, pouco depois, passei a me dedicar a pesquisas sobre esquistossomose.

O senhor começou sua vida científica colecionando coleópteros, interessado, portanto, em zoologia pura. Parece que aos poucos o senhor vai se voltando mais para a parasitologia médica, não?

Acho que nasci zoólogo. Tudo mais foi acontecendo por obra das circunstâncias. Sempre estudei a parasitologia sob o ponto de vista zoológico. Interessava-me muito mais pelos aspectos zoológicos relacionados às patologias do que propriamente pelos parasitas ou por questões de ordem epidemiológica. Meu grande interesse sempre foi zoologia, mas infelizmente naquela época não havia ambiente para me dedicar exclusivamente a ela.

O senhor é considerado o primeiro pesquisador brasileiro a identificar a presença de medusa de água doce em nosso país. Este é um trabalho de zoologia pura, não?

Sem dúvida, este é um trabalho de zoologia pura. A história é a seguinte: o doutor Jair Lins, um advogado de Belo Horizonte, encontrou no meio de sua criação de tilápias uns "bichos" que ele não conhecia. Ele trouxe alguns exemplares para eu examinar e vi que eram medusas de água doce. Estudei bem a Craspedacusta sowerbyi fiz um levantamento bibliográfico e cheguei a publicar um trabalho sobre a espécie na Revista Brasileira de Biologia.

No campo da zoologia o senhor sempre foi autodidata?

Infelizmente, sim. Todos os defeitos que tenho, todos os equívocos que cometi se devem a esse autodidatismo. À exceção de alguns temas, praticamente não tinha com quem discutir o que estava estudando. No caso das medusas de água doce, por exemplo, não podia contar com a colaboração de especialistas no assunto

O senhor descreveu uma espécie nova de barbeiro e 50 de flebótomos (gênero Lutzomyia) o que prova seu interesse pela sistemática. Mas há hoje quem questione a importância desse tipo de trabalho, dizendo que a parasitologia clássica está superada, e defenda uma parasitologia de base bioquímica e imunológica. Como o senhor vê essa dicotomia?

É uma tolice dizer que a sistemática está ultrapassada. O pesquisador pode fazer estudos bioquímicos relacionados à patologia — não retiro a importância disso — mas o fundamental, o que está na base de tudo, é a identificação dos transmissores.

Muito ao contrário, ainda há muito que fazer no campo da sistemática, pois grande parte da fauna ainda está por ser conhecida. De que adianta conhecer inúmeros detalhes sofisticados de imunologia e bioquímica associados a doenças como malária, esquistossomose, leishmaniose, se não se sabe classificar seus vetores com precisão?

No concurso para professor catedrático da faculdade de Odontologia e Farmácia da UFMG, o senhor apresentou uma tese sobre os tabanídeos (mutucas) de Minas Gerais. Como foi esse trabalho? Por que se interessou por esse grupo de insetos?

Como me interessava por zoologia e era médico, procurei estudar insetos que tivessem alguma importância médica ou veterinária. E os tabanídeos, além de serem muito bonitos, cumpriam essa função. Para esse trabalho contei com o auxílio do Instituto Oswaldo Cruz, principalmente do professor Adolfo Lutz, o primeiro a estudar os tabanídeos no Brasil. Andei vendo a coleção dele e com ele aprendi muita coisa. Interessei-me pelos tabanídeos e eles acabaram se tornando objeto de estudo de minha tese, publicada em 1940. Aliás, fiquei muito satisfeito no ano passado, quando um entomólogo norte-americano me escreveu solicitando esse trabalho. Depois de quase 50 anos de sua publicação, ele ainda continua interessando àqueles que estudam o problema. Isso prova não só o valor de minha tese como também a importância do trabalho do sistemata. Um dado bioquímico pode ser bom hoje; amanhã muito provavelmente estará superado. A sistemática, ao contrário, é eterna.

Só agora, com a idade um pouco avançada, é que faço exclusivamente zoologia, entomologia mais especificamente. E não se trata de entomologia médica, porque minha preocupação é com o inseto em si, não com o fato de ele transmitir alguma doença. Procurei, no início de minha carreira, trabalhar com insetos de interesse médico, pois, como não se conhecia quase nada a respeito deles, isso tinha um valor social muito grande. Mas paralelamente a isso fazia minha zoologia pura. Identifiquei 50 espécies diferentes de flebótomos, por exemplo, mas muito provavelmente só algumas delas têm interesse médico. Meu objetivo hoje é fazer ciência básica, zoologia, não estou preocupado com as doenças. Mas eventualmente meus trabalhos podem fornecer subsídios a pesquisas de entomologia médica.

Se o senhor fosse entrar para a universidade hoje, talvez não fosse para a medicina e sim para o curso de ciências biológicas, não?

Muito provavelmente não iria para a medicina.

O senhor disse que seu ideal era ser naturalista viajante. Pelo menos em parte, esse sonho parece ter-se realizado, não? Atrás de insetos, o senhor rodou o mundo. Como foram essas viagens?

Viajei muito à cata de flebótomos. Tanto que minha mulher dizia, brincando, que pensava ter-se casado com um médico, mas que, de fato, se casara com um caixeiro-viajante. A princípio, estudei os flebótomos de Minas, depois ampliei para os dos Estados vizinhos, até percorrer o Brasil inteiro. Mas infelizmente, aposentado pelo AI-5, fui obrigado a deixar de trabalhar no Brasil. Logo após ter sido aposentado, recebi um convite da Organização Mundial da Saúde para realizar um trabalho sobre flebótomos em Genebra. Aceitei-o imediatamente e escrevi na Suíça um trabalho que poderia muito bem ter sido escrito aqui mesmo. Em seguida recebi um convite da Universidade do Peru e da Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) para estudar os flebótomos peruanos. Fui então para o Peru e percorri o país todo, viajei muito. Atravessei os Andes várias vezes de carro. Depois disso recebi um convite da Venezuela, para ir a Caracas e ao interior do país. A meta era sempre a mesma: estudar flebótomos.

Como foram montadas suas coleções de insetos?

Consegui reunir muito material durante minhas viagens e recebi também muita coisa de pesquisadores estrangeiros. Quando não podia viajar, mandava meu auxiliar, o João Evangelista, que me foi extremamente útil. É até difícil calcular a quantidade de bichos que ele conseguiu apanhar para mim! Ele é o melhor apanhador de insetos que conheço. O caso do João é curioso. Conheci-o quando eu colaborava com o Serviço Federal de Endemias, a atual Sucam. Um dia me mandaram um jipe para uma viagem de coleta de dados cujo motorista era o João. Ao perceber seu interesse pelos insetos, tratei de conversar com ele sobre o meu trabalho e mostrar-lhe o resultado das coletas. Aos poucos ele foi se transformando num indivíduo extremamente entendido no assunto. Trabalhamos juntos durante muito tempo.

Então ele começou como motorista e acabou se tornando colega de publicação? Vocês têm trabalhos publicados em co-autoria, não?

Temos. E essa é uma questão de justiça. Os trabalhos que fiz sobre flebótomos dependeram dos bichos que ele coletava. Além disso, os trabalhos deveriam conter dados ecológicos sobre os bichos, como por exemplo local em que foram encontrados, se em buraco de tatu, em oco de árvore etc. Tudo isso era ele quem me passava e por isso seu trabalho era tão importante. O João me ajudou muito também a fazer uma coleção de mutucas. Trata-se de uma coleção muito boa, atualmente em poder do Museu de História Natural da UFMG

O senhor está na origem de uma série de instituições, entre elas o Centro de Estudos de Doença de Chagas de Bambuí, o Instituto de Ciências Biológicas e o Museu de História Natural da UFMG. Outra instituição em cuja criação o senhor esteve envolvido é o Instituto de Pesquisas René Rachou. Como foi essa história?

A história do René Rachou é um pouco complicada. Lendo certa vez uma revista de Porto Rico, vi um trabalho sobre um novo método de exame de fezes para diagnosticar esquistossomose. Resolvi então experimentá-lo para ver se de fato dava bom resultado. Associei-me ao Waldemar Versiani para fazer uma avaliação rigorosa da doença no Estado, a partir de Belo Horizonte, utilizando crianças de grupo escolar. Fizemos um trabalho minucioso e o publicamos. Esse trabalho chamou a atenção das autoridades do Ministério da Saúde, que decidiram avaliar a situação da doença em todo o país, empregando a técnica que havíamos adaptado. Nada se sabia sobre a distribuição e extensão da esquistossomose no Brasil. Hoje sabemos que é uma coisa terrível.

A propósito desse trabalho, esteve aqui então conversando comigo o doutor Amílcar Barca Pellon, chefe da Divisão de Organização Sanitária do ministério. Ele estava interessado em saber se eu poderia orientar esse inquérito. Prontifiquei-me a fazer o trabalho e assim foi feito. Nessa ocasião, estavam sendo criadas em vários Estados sucursais do Instituto de Malariologia do Rio de Janeiro, e já haviam sido instaladas as da Bahia e Pernambuco. Fui convidado para dirigir o centro de Pernambuco. Recusei o convite por motivos de ordem pessoal, mas disse que aceitaria a direção do centro que fosse criado em Belo Horizonte. Pouco depois da minha proposta, recebi um telefonema acertando a criação do que pouco depois seria o Instituto René Rachou.

Eu deveria apenas conseguir o terreno para a construção do centro de pesquisas. Conversei com o Otacílio Negrão de Lima, que àquela época era o prefeito de Belo Horizonte, e ele ofereceu cinco terrenos para que escolhêssemos um. Foi escolhido o da avenida Augusto de Lima, onde até hoje funciona o instituto. E assim nasceu o Centro de Pesquisas René Rachou. Como o Instituto de Malariologia havia sido desativado, algumas pessoas que lá trabalhavam vieram para cá: o Wladimir Lobato Paraense, o Marcelo Vasconcellos Coelho e o Geraldo Chaia, entre outros. O instituto cresceu e hoje é realmente muito importante. A minha coleção de flebótomos, que é sem dúvida a maior do continente americano — contém pelo menos três quartos do total de espécies descritas e muitos exemplares-tipo — está lá no Centro de Pesquisas René Rachou.

Por que ele recebeu esse nome? Quem foi René Rachou?

Quando falo em René Rachou, fico muito chateado, porque ele era um indivíduo tremendamente fascista. Ele trabalhava no Rio e acabou vindo para cá. Entramos em choque rapidamente, em razão de desavenças ideológicas. Ele acabou voltando para o Rio e de lá foi para a América Central, onde quebrou uma perna. Houve complicações e ele acabou morrendo. Não sei exatamente o que se passou, pois na ocasião eu estava fora do país. Considero que a contribuição do René Rachou para o instituto foi muito pequena. Quando surgiu, ele se chamava Instituto Nacional de Endemias Rurais (Ineru).

O senhor, que sempre lutou contra as doenças infectoparasitárias, acabou, por ironia do destino, vítima do mal de Chagas. Como foi isso? O senhor estava em trabalho de campo?

Sei perfeitamente quando e onde apanhei essa doença. Na ocasião eu não trabalhava com doença de Chagas e sim com flebótomos. Numa de minhas viagens à Serra do Cipó para apanhá-los, dormi certa noite numa pensão, aliás uma casa de alvenaria. Éramos cinco pessoas e ficamos num quarto com cinco camas, uma em cada canto e uma no centro, que eu escolhi por achar que dormir longe da parede seria menos perigoso. Tenho a impressão de que o barbeiro foi atraído pela luz e caiu em cima de mim. Foi um acidente. Tenho certeza de que foi nessa noite, pois seis dias mais tarde apareci com febre. Depois disso - na época eu era diretor do Instituto René Rachou — mandei colocar uma armadilha nessa casa e capturamos barbeiros contaminados. Durante mais de 20 anos eu não senti absolutamente nada. Só muito tempo depois apareceu o primeiro sintoma, a dilatação do esôfago. Atualmente tenho sofrido bastante com os incômodos que essa doença produz.

Como expedicionário da FEB, o senhor lutou ao lado das forças aliadas na Segunda Guerra Mundial, não? Como é que foi essa história? O senhor se alistou voluntariamente?

Sempre fui violentamente contra o nazismo e torcia para que o Brasil entrasse na guerra para combatê-lo. Como meu sogro havia participado da Primeira Guerra Mundial como membro de uma missão médica, achei que deveria seguir o exemplo. Tinha pelo menos dois bons motivos para me alistar, não? Me ofereci então como voluntário e fui convocado. Passei algum tempo num hospital militar de Belém, enquanto se organizava a FEB, e acabei indo com o primeiro escalão, pois tinha a patente de capitão. Tempos antes, havia feito um curso que me deu esse posto. Os expedicionários foram de navio para a Itália e, segundo dizem, foi uma viagem horrível; as condições eram péssimas. Tive a sorte de ficar entre os 101 privilegiados que viajaram de avião.

A princípio trabalhei como capitão médico num hospital avançado, próximo do front. Logo depois fui promovido a major e transferido para um hospital mais recuado. Além de chefiar a seção brasileira de hospitalização, trabalhava também numa enfermaria. Modéstia à parte, me saí muito bem. Embora não houvesse muita cordialidade entre os médicos brasileiros e americanos, eu não tive problemas. Os americanos, talvez pelo fato de eu ser o único a falar inglês e funcionar como intérprete, me respeitavam muito.

Apesar de ter pertencido ao exército e de ter-se unido à Força Expedicionária Brasileira na Segunda Guerra Mundial, o senhor não foi poupado pelo regime militar, que o aposentou depois do golpe de 1964. Isso não lhe parece irônico?

No auge do período repressivo houve uma invasão da Faculdade de Medicina e eu acabei preso. Estávamos no oitavo andar quando apareceram uns "meganhas" me procurando e tive que descer as escadas da faculdade com oito deles me segurando de um lado e de outro. Houve uma tentativa de protesto, de reação por parte dos colegas, mas nada adiantou. Quando cheguei lá embaixo, disse ao Oscar Versiani, à época diretor da faculdade, que eu estava preso e ele não disse uma só palavra; lavou as mãos. Já iam me levar para o Dops, quando apareceu um major do serviço de informação do exército dizendo que eu não poderia ser preso. De fato não podia, pois eu era major. E major não poderia ser preso por um "meganha" qualquer; só por um outro major mais antigo ou um tenente-coronel. Eu já estava marcado. Mas era uma tremenda injustiça, pois eu não tinha nenhuma atuação, não era militante. Tentaram me punir porque me consideravam comunista. Não era comunista coisa nenhuma! Na verdade eu era esquerdista. Por trabalhar com doenças que afetavam principalmente a camada mais pobre da população, tinha uma nítida tendência à esquerda. Então acharam que eu era comunista e resolveram me aposentar. Pelo que fiquei sabendo mais tarde, essa decisão estava relacionada à influência que eu exercia sobre os estudantes. Tinham medo de que eu pudesse levá-los a fazer qualquer coisa. Mas isso é uma besteira! Nunca fiz proselitismo na universidade. Eu tinha era prestígio. Eles se equivocaram ao pensar que eu usaria meu prestígio como pesquisador e homem de ciência para aliciar estudantes. Isso era bem próprio daquela época. Talvez pelo fato de eu ser major, fui aposentado com certas regalias: não me cassaram os direitos políticos, recebia salário integral e não tinha problemas para obter passaporte quando precisava sair do país.

O Brasil teve duas grandes escolas de parasitologia: a de Be/o Horizonte, liderada pelo senhor, e a de São Paulo, liderada pelo Samuel Pessoa. Não lhe parece curioso essas duas lideranças terem sido cassadas?

Há uma diferença: em São Paulo aposentaram todos. Liquidaram a parasitologia de lá. Além do Samuel, aposentaram o Luís Rey, o Luís Hildebrando Pereira da Silva, o casal Leonidas e Maria Deane e muitos outros. Mas essas duas escolas continuaram unidas sobretudo através do livro Parasitologia médica, feito pelo Samuel Pessoa e por mim.

Esse livro foi elaborado antes ou depois da cassação do senhor e do Samuel Pessoa?

Foi depois. O livro já existia; até a nona edição era só do Samuel. Mais tarde, no entanto, como ele estivesse se sentindo um pouco cansado e precisasse de alguém que o ajudasse a rever o livro, acabou me convidando para auxiliá-lo nessa tarefa. Aceitei o convite e participei da nona e da décima edições. A décima-primeira eu a fiz sozinho, pois na época de sua preparação o Samuel já havia morrido. Quando esta se esgotou, a editora Guanabara insistiu para que eu preparasse a décima-segunda. Olha, é um trabalho muito grande...

Ele é considerado o mais completo e o mais importante livro de parasitologia tropical do mundo, não?

Sem dúvida. O livro do Pessoa é muito bom. Houve até quem sugerisse que as novas edições fossem preparadas por vários autores. Não concordei com isso por achar que o espírito do Samuel Pessoa devesse ser mantido. Se os vários capítulos fossem distribuídos a vários autores, o espírito do livro se acabaria. De modo que acabou ficando Pessoa e Martins. Nós dois tínhamos muitas afinidades, embora ele sempre estivesse mais à esquerda do que eu. E sofreu muito por isso: foi encapuçado, preso; essa história é bastante conhecida.

Não fosse a cassação, o senhor teria sido o coordenador do curso de pós-graduação em parasitologia, que à época estava se formando na UFMG, não?

Exato. Aliás fiquei muito honrado ao ver uma referência ao meu nome no livro Formação da comunidade científica do Brasil, do Simon Schwartzman, onde ele afirma que o afastamento de pessoas da universidade após o golpe militar de 1964 prejudicou enormemente o ensino de pós-graduação no Brasil. O senador Fernando Henrique Cardoso e eu somos citados como pesquisadores cujo afastamento causou enorme dano à evolução do ensino de pós-graduação no país.

O senhor teve um papel decisivo na evolução do Instituto Oswaldo Cruz — à época chamado Instituto Manguinhos — quando esteve à frente de sua direção. Como foi esse período?

Durante o governo do Juscelino Kubitschek, o Ministério da Saúde ficou com o partido do Adhemar de Barros, a direção do Instituto Oswaldo Cruz inclusive. Mas o Juscelino, dizendo que precisava de uma pessoa de sua estrita confiança nos escalões mais altos do Ministério da Saúde, convidou-me para dirigir o instituto. A princípio recusei o convite, mas, como ele insistisse, acabei cedendo. O instituto estava muito dividido: tinha gente muito boa e gente muito ruim. Aliás o pessoal bom era exatamente aquele que mais tarde seria aposentado, o pessoal que foi vítima do conhecido massacre de Manguinhos. Não pude fazer muita coisa. Minha intenção, ao assumir a direção do instituto, era ver se pacificava o ambiente. Mas cheguei à conclusão de que era impossível, pois a luta era muito acirrada. Não tive outra alternativa a não ser tomar partido. Sem perseguir os outros, prestigiei mais aqueles que realmente eram melhores, o pessoal do grupo do Herman Lent, do Haity Moussatché. Dirigi o Instituto Manguinhos quatro anos, até o final do governo Juscelino.

O senhor gostava dessa época ou se sentia frustrado por não estar pesquisando?

Não, não gostava. Tive problemas muito grandes, verbas difíceis. Apesar disso, consegui dobrá-las em minha gestão. Tentei também transformar o instituto em fundação, mas isso eu não consegui. Só mais tarde é que surgiria a Fundação Oswaldo Cruz.

O senhor tem trabalhos em andamento?

Eu não parei de trabalhar. Continuo trabalhando, mas de uma maneira mais leve, pois os anos pesam. Continuo interessado nos flebótomos. Mas como as espécies desse grupo já estão bastante estudadas — pelo menos as brasileiras — gostaria de fazer um trabalho mais de conjunto, algo como uma nova sistemática, de que aliás estamos precisando. Mas este é um trabalho muito pesado!

Tempos atrás, eu e o professor Paul Williams, do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG, começamos a fazer um trabalho amplo e muito ambicioso, procurando descrever minuciosamente todas as espécies de flebótomos americanos. Esse projeto resultaria num volume enorme, cujo conteúdo seria necessário restringir. Tenho trabalhado com pesquisa ultimamente, mas sem aquela pressão de antes.

E as publicações?

Recentemente escrevi, com meus colaboradores, o artigo "Flebotomíneos do Estado do Rio Grande do Sul", que será publicado em um volume das Memórias do Instituto Oswaldo Cruz dedicado ao grande entomólogo brasileiro Hugo de Souza Lopes. Além desse, outros trabalhos estão em andamento.

Dizem que o senhor tem três hobbies: música clássica, poesia arcádica e orquídea. Isso é verdade?

Está certo. Quando jovem, ainda solteiro, cheguei a ter um belo orquidário na casa em que morava na rua Paraíba. Quando fui para os Estados Unidos, fiz inúmeras recomendações para que cuidassem bem das orquídeas, mas não adiantou. Quando voltei, não havia mais nada e eu acabei desistindo de mexer com essas plantas. Essa fase passou.

E a poesia arcádica?

Certa vez usei urna citação de Tomás Antônio Gonzaga num de meus trabalhos: "Graças, Marília bela, graças à minha estrela." Fiz essa citação para dizer que tudo o que havia conseguido era graças à minha estrela. Costumo dizer que nasci com uma estrela na testa. Talvez venha daí essa história de que poesia arcádica é um de meus hobbies. Mas de fato conheço um pouco e gosto de poesia arcádica. Aliás, em matéria de literatura, tenho um gosto bastante variado; leio de tudo, até livro policial.

De música também gosto muito, principalmente de música sinfônica e de ópera. Alguns amigos consideram ópera um gênero subalterno, mas isso é uma besteira! Tenho todas as óperas de Verdi, de Mozart e de muitos outros, Haydn inclusive. Minhas preferências com relação a música sinfônica variam muito. Houve uma época em que eu gostava exclusivamente de Vivaldi, depois passei a gostar de Beethoven. Atualmente gosto muito de Mozart e de Haydn, que, aliás, são muito parecidos. Na minha opinião, talvez Haydn seja superior, por sua enorme capacidade de criar. É dele, por exemplo, a invenção do quarteto. Gosto essencialmente de uns cinco ou seis compositores; e é difícil, quase impossível, dizer qual é o melhor entre eles. Gostaria de lembrar ainda o nome de Monteverdi.

O senhor chegou a se relacionar com artistas, escritores, músicos?

Não. Conheci o Carlos Drummond no tempo em que ele morava aqui, quando estudava farmácia, mas nunca mais tive contato com ele. Já com o Pedro Nava tive ótimas relações durante o tempo em que éramos estudantes e mesmo depois de formados. Ele foi da turma do Juscelino, dois anos antes da minha. Eu gostava muito dele. O Nava tinha uma memória incrível. Num de seus livros de memórias, ele faz referência à minha família, citando os nomes de todos os meus irmãos, por ordem de nascimento.

O senhor andou com problemas na vista, não? Isto não o impediu de trabalhar, de usar o microscópio?

Sim, andei muito mal com um problema de catarata. Houve uma época em que eu praticamente não podia enxergar. Recentemente então resolvi me submeter à cirurgia e, após a retirada do curativo, fui tomado por uma sensação de total deslumbramento. É como se houvesse um clarão e a gente voltasse a enxergar um mundo novo, tudo lindo e diferente. Isso me deu mais ânimo para o trabalho.